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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe académica

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.16

René Maltête.jpg

Não sou fã das praxes académicas, mas acredito que uma memória das bacanais do Império ido e enterrado tenha ainda seguidores, mesmo com os seus laivos sadomasoquistas, absolutamente desagradáveis e muito pouco sofisticados.

 

O que me recuso aceitar é a pobreza pindérica dos trajes das meninas que desfilam de negro, aos pinchos e aos gritos pelas avenidas da cidade. Não há qualquer justificação plausível para comportamentos que tocam o patológico e nos levam directos aos frascos da automedicação inevitável. Tornam urgente a ingestão de relaxantes e de substâncias que nos fazem esquecer a mediocridade com que se brinca a qualquer coisa sem nexo no recreio de uma instituição criada para albergar doentes mentais no século XIX.

No entanto, mesmo sob o efeito de milagrosas pílulas, é impossível não entramos em choque com o que as universitárias se atrevem a vestir.

 

O traje feminino é escandalosamente deselegante. Os materiais com que é executado são miseráveis e o corte do tailleur é mesquinho e faz lembrar as catequistas velhas e solteironas da província onde o demo só não perdeu as botas, porque não é parvo para percorrer os trilhos das cabras e não aprecia calcar bosta.

A capa, demasiado quente para a época em que normalmente é usada, para além de favorecer odores pouco compatíveis com a flor da idade de quem a usa, chega aos tornozelos ou é várias vezes dobrada no pescoço, de acordo com a etapa académica que se frequenta. Esta mimosa obrigação transforma as doces raparigas em frascos - alguns bastante encorpados, alguns bidões, - sem gargalo ou deixa-as com os mais deselegantes ossos do corpo prontos a sofrer um escrutínio minucioso, sendo os únicos passíveis de observar.

Os sapatos de plástico, os dolorosos e patéticos sapatos de plástico, golpeiam a tragédia, encerrando a catástrofe.

O conjunto lamentável obriga necessariamente que se desvie o olhar para outras paragens mais libertas deste fado e é então que lançamos âncora nos cabelos das donzelas.

 

Este olhar fugitivo acaba quase sempre num renovado acidente. O preto total faz realçar as guedelhas e são guedelhas desgrenhadas, jubas soltas e sujas - durante o período da praxe, segundo informação obtida, não é permitido prender o cabelo, - e melenas que não sonham sequer que existe o meu muito querido, talentoso e deslumbrante amigo Miguel Viana.

 

Meninas, é valoroso e de capital importância a frequência universitária, mas citando, numa adaptação livre, o assustadoramente culto Abel Salazar, uma universitária que não percebe que de traje académico se transforma em morcego com restos de rato morto na cabeça, nem da primária deveria passar.

 

Há que renovar, minhas queridas. As touradas também são tradição e não deixam de ser macabras e ofensivas.

 

Fotografia  - René Maltête

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A Gaffe sensual

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.16

G.Haderer.jpgEspapaçada no sofá, a Gaffe debica Sete Pecados Mortais, catrapiscando Brad Pitt, e conclui que o rapagão seria um sério candidato à capa do catálogo se os deuses decidissem criar um dedicado à sensualidade. Rubén Cortada ocuparia as páginas centrais, quer do catálogo, quer da nossa cama, e a Gaffe admira-se perante a discrepância que existe entre o número desmesurado de condições que se devem verificar para que um homem seja considerado sensual e a miséria que basta para que não o seja.

 

Tendo em conta o título da fita que lhe permite a visão de um dos animais mais interessantes do planeta, que alçou a Gaffe à mesma condição de Angelina Jolie - a de solteira, - a Gaffe decide escolher sete pecados que aniquilam de vez a sensualidade masculina.   

 I

Pensar que é cosmopolita se usar um fato muito justo porque o comprou dois números abaixo do correcto, encharcado em Hugo Boss e sapatos aguçados que terminam em bico. Faz com que pareça que saiu da fábrica sem passar pelo controlo de qualidade e corre o risco de levar com o against terrorism nas ventas, porque Hugo Boss é nitidamente uma arma química.

 II 

Ficar com farpas de bacalhau nos dentes. Carne, ainda vá que não vá, porque se pode desculpar declarando que macho que é macho costuma mascar tabaco. Bacalhau nunca. Um dos maiores pesadelos das mulheres é ficar com alface colada aos dentes enquanto sorriem desprevenidas à nobreza. Podemos sempre afirmar que é de cultura biológica, mas a nossa imagem fica comprometida. Farpas de bacalhau enfiadas nos dentes de um homem, são a alface da desgraça da mulher.

III

Persistir com demasiado entusiasmo no estudo que refere que a pilinha mede afinal em média 13,2 cm. O sorriso alarve com que ilustra a insistência, leva uma rapariga a reconhecer que a alegria que demonstra o deixa muito diminuído. Todo o resquício de sensualidade fica mirrado sobretudo quando estamos a almoçar em Mirandela e a sobremesa é banane flambée.

IV

Não fazer descontos para a ADSE e atabalhoar as declarações do IRS, arrasa a sensualidade de um homem, porque o obriga, quando o vento lhe descobre a careca, a declarar que se esqueceu e a choramingar porque os outros meninos são maus. Nem sequer é sexy e faz com que nos apeteça imenso não lhe pagar o ordenado e afirmar a pés juntos que o fizemos, mas que mais uma vez o homem se esqueceu.

V

Jurar com todos os dentes - com imensas farpas - que não passa de um pindérico a armar aos cucus e que o apartamento onde vive à grande e à francesa numa luxuosa capital europeia é afinal emprestado por um amigo com muito mau aspecto. Os amigos feios devem apenas servir para fazer contraste e lhe inflacionarem o charme que acaba assim por ser maior se o apartamento for roubado.  

VI

Achar que é sedutor colar o hálito à nossa cara quando nos querem sussurrar um elogio sem que a mulher - a legítima, - perceba. Faz com que acreditemos que até mesmo Ricardo Salgado - um homem com tão fraca memória! - se recordaria da imagem dos pontos negros infectados no nariz do infractor e humilha o Fantasporto.

VII

Dizer treuze e escrever um romance com o título Madrugada Suja. Não é sensual insultar toxicodependentes nas capas dos livros.

 

Não é preciso que estes sete pecados se detectem em simultâneo. Basta que se cumpra apenas um para sentirmos que estamos tão longe da sensualidade masculina como a Merkel da mini-saia.  

 

Ilustração - G. Haderer

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