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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas alturas

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.16

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Dizerem a uma mulher que apesar de ser não ser muito alta, chega sozinha onde as outras chegam, é mentira.
 
Uma rapariga não muito alta tem sempre enorme dificuldade em alcançar os livros que ficam nas prateleiras de cima e é um transtorno quando sai com eles debaixo do braço. Os grandes, às vezes de tamanho A4, deixam-se cair invariavelmente só ao tentar abrir a porta do carro. Os braços são curtos, proporcionais ao resto.
 
Não consola nada sonhar que a primeira imagem não conta, porque também isso não passa de uma piedosa aldrabice. Se uma mulher não muito alta sair à rua ao lado de uma matulona deslumbrante, loira ou morena, com pernas até ao pescoço e bâton à prova de água, fica em desvantagem.
 
Não sou baixinha, mas cruzei-me uma vez com o actor mexicano Gael García Bernal, que passeava todo bonito de kilt  - verdade! de Kilt! e que bem lhe ficava! - e comprovei esta minha brilhante teoria.
Tinha ao meu lado uma dessas delambidas arrasadoras, espampanantes e ALTÍSSIMAS. O cérebro da boazona estava comprovadamente a sofrer com o aquecimento global, porque a cada passo se tornava mais deserto. Ao lado do dela, o meu fazia inveja ao Einstein e às florestas tropicais. Fornecido este dado, deveria o Gael ser obrigado a galar primeiro esta ruivita não tão alta como o guindaste que se movia ao lado. É certo que a avestruz quase atropelou uma velha e cegou um transeunte de maneira a que o homem lhe focasse as mamas, mas o que aconteceu ultrapassou este pequeno, embora significativo, pormenor. O rapagão ignorou por completo a minha inteligência, que de tão visível até reflectia a luz, e realmente colou os olhos no decote da matulona de 1.80m. Tivemos de os arrancar com alicates.

Uma rapariga não muito alta é uma condenada. Tem menos hipóteses de ter sucesso na chefia, porque os subalternos acham que o som vem de muito baixo e para lhe dar ouvidos há que vergar as costas. A maior parte dos seus conflitos amorosos não chega longe, porque como não tem pernas para subir os degraus da alta traição, se fica pela soleira da porta à espera que a levem ao colo e é capaz de perdoar quem os galgou duma pernada. Depois esquece depressa. Não tem muito espaço para recordar e acaba por repetir o erro de pedir ajuda ao primeiro simpático que aparece na rua para lhe segurar nas coisas enquanto tenta enfiar no carro um maldito caixote com livros.

Por não ser muito, muito, muito alta, acabei de ficar sem telemóvel e com a dignidade num caos.

Altamente!

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A Gaffe fraterna

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.16

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A Gaffe tem uma relação muito complexa com a irmã e por vezes deixa de aguentar a pose de indiferença e passa à mais descabelada das ciumeiras.

 

O que mais a apoquenta não é o facto de ser notório que a mana é uma mulher repleta de glamour, mas há pormenores que lhe esbardalham os nervos.

É uma loira pura e linda, linda, linda com oiro raro no cabelo liso e muito Grace Kelly, bem vestida, inteligente - aquela pose de diva altaneira só se aguenta de pé a tempo inteiro com uma dose espessa de inteligência, - podre de rica e tudo ao mesmo tempo. Tem um ar de Rita Haywoorth misturada com Dietrich e usa um perfume que se mete no nariz das pessoas até lhes fazer mirrar o cérebro de inveja. Guia um Jaguar antigo que é do pai, mas que o pai empresta, não vá a menina ter de conduzir um Porsche, que é feio.

A mulher senta-se e ao cruzar as pernas quase que nos dá com a biqueira do sapato, caro e de tacões agulha, nos queixos. É claro que mesmo alapada fica da nossa altura. Somos baixotes de pêlo cerdoso, daqueles de pata curta e de orelhinha murcha, em frente dos punhais traçados das suas maviosas pernas.

Vive num sítio onde é preciso vender as jóias da família para poder dar uma espreitadela e ficamo-nos pela cozinha, que na sala se só entra de brasão para cima. Usa bijouteria assinada e adereços gigantes que se estivessem pousados em cima de nós durante mais de uma hora tínhamos de ser levadas ao ortopedista, depois de desencarceradas.


É muita humilhação para uma rapariga só.


Estas mulheres, que felizmente são uma deslavada minoria, fazem uma rapariga do mais banal que há, de cabelo vermelho desgrenhado, de jeans entradotes e botitas tinhosas, sentir-se uma minorca gorda e sebosa.

Parece que nos esturricam!
Deviam ser todas expulsas. Deviam ser todas de papel. Devíamos todas poder pintar-lhes bigodes com marcadores grossos, desenhar-lhes cornos na testa e colorir-lhes um dente de preto.


Foi o que a Gaffe fez, mas cá para dentro, quando a mana insinuou que se esta rapariga pobre despir os jeans que usa invariavelmente por aqui a pele vai sair colada. A vedeta afastou-se depois com pêlos nas pernas, uma unha do pé encravada e com barba de dois dias e aposto que a partir de agora nenhum galã de morrer de lindo, saído das fitas de cinema, lhe vai apalpar tão cedo aquelas mamas perfeitas pintadas de verde vomitado.

 

Na foto - Daniela Peštová

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Gavetas:

A Gaffe "esparranchada"

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.16

 

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Há uma expressão, usada no Douro, que descreve de modo certeiro aquilo que me aconteceu: esparranchar.

 

Eu esparranchei-me.

 

Ontem, chegada ao Douro, congeminei um tarde bucólica, repleta de pormenores diáfanos e campestres, no exterior ajardinado pelo Outono.

Depois de quase ter sido colhida por um touro bravo - e não adianta tentarem convencer-me que aquilo era apenas uma vaca a olhar-me de esguelha; - depois de ter tentado dar uma traulitada com um galho seco nos dentes do granizé psicopata - e não adianta dizerem-me que o animal é indefeso, porque de fraco o galináceo tem apenas o tamanho; - depois de me ter lambuzado com leite-creme - e não adianta segredarem-me que devia ter mais cuidado com as minhas maneiras, porque só me dá prazer saborear a doçaria se sentir o açúcar a besuntar-me o queixo; - depois de ter procurado a minha irmã para um fim de tarde intimista e a ter encontrado mergulhada no portátil, de telemóvel em punho, de nervos esticados e olhos de assassina - Não. Agora não. Vá brincar com o ... gado; - depois de tudo isto, decidi pesquisar os recantos ainda ilesos desta casa.


Encontrei a porta e abri.

Tão simples como isso.

 

Havia uns degraus de madeira por encerar, uns objectos de lata pendurados na parede, numa trave de madeira, e depois o escuro.
Agradam-me as caves. São silenciosas, albergam sempre segredos e velharias interessantes e tornam-se óptimos locais para uma rápida sessão de espiritismo.

 

Os primeiros degraus foram difíceis, porque trazia a luz de lá de fora, mas foi por causa do quinto que me esparranchei.
O pé fugiu e, numa procura desesperada de equilíbrio, agarrei nos tachos pendurados e com eles desabei escada abaixo.
Contei com o rabinho como amortecedor e é um mistério ter aterrado de pernas para o ar, de cântaro de medir feijões na mão esquerda, um almude de lata agarrado à outra e de pernas abertas no espaço a abençoar a escolha das cuequinhas que fiz logo de manhã. 
O alarido deve ter sido medonho, porque ouvi os tacões apressados da minha irmã a massacrar o soalho e o bigode do Domingos logo atrás do ombro da rapariga espantada.


- Então a menina caiu?! - pergunta o senhor sem o mínimo vestígio de preocupação, muito atento à minha lingerie.
- Não! - irrita-se a outra menina -  a minha irmã costuma ficar de patas para o ar no fim das escadas de todas as caves que encontra pelo caminho. Um hábito dela. - A insensível maninha despacha o expediente e desaparece, demonstrando a sua completa indiferença pelo meu sofrimento.


Isto de nos esparrancharmos sem avisar primeiro o pessoal revela as faces mais cruéis dos outros e comprova que a única tarde bucólica que vale a pena é aquela que é passada em frente a um quadro de Poussin.

 

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A Gaffe bisbilhotando

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.16

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Não podemos nem devemos subalternizar a importância da bisbilhotice sob pena de ficarmos com grande parte da informação, com peso desmedido nas nossas agendas interiores, desequilibrada e muito pouco coesa.
 
Não falo das revistas cor-de-rosa. É absolutamente inútil saber se a rainha de Espanha supera em elegância o manequim francês ou que a Rainha da Jordânia vai incumbindo o seu staff de actualizar o twitter. É uma maçada e uma inutilidade que para além de nos fazer perder tempo, nos irrita por não sermos nenhuma delas, embora, como é mais do que evidente, merecêssemos a coroa de qualquer uma das três ou os três de qualquer uma das coroas.

O essencial é a bisbilhotice caseira. Aquela que é produzida através de um telefone fixo, já que o telemóvel permite uma mobilidade pouco condizente com a produção de material que exige uma concentração que não se compadece com dispersões e interrupções esporádicas de criaturas que descobrem que é possível colocar uma chamada em espera.

A bisbilhotice deve ser fixa, contínua, exige uma imobilidade prostrada num sofá e deve versar todos os pormenores mais sórdidos da vida dos parceiros, amigos ou vizinhos. É essencial o conhecimento prévio, embora superficial, do que se fala e reconhecer, mesmo vagamente, os protagonistas das acções que nos são contadas. É necessário termos as coordenadas certas para que nos saia da boca o tão apetecido AH! tu não me digas! que se aproxima de um orgasmo e nós dá a sensação de poder que mesmo por coroar nos fornece o trono.

O mundo gira em torno das mais corriqueiras das bisbilhotices e são elas que mesmo fazendo a montanha parir apenas um rato, levam todo o terreno a Maomé.
 
Ilustração - George Petty, 1945
 

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A Gaffe da Escócia com amor

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.16

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Um recente estudo de uma Universidade escocesa prova por A mais B, coadjuvados pelo C, que as mulheres preferem os homens que fisicamente se parecem mais com elas, mais femininos e e aparentemente mais seguros e desconfiam dos opostos, ou seja, não acreditam em rapazes com traços demasiadamente masculinos.
 
Da Escócia chegam-me os Kilts. Confesso que abençoo por isso os escoceses, mas coloco entraves ao estudo publicado. Não fui tida nem achada no processo que levou a concluir a estes dados, mas não acredito que algum dia me possa sentir perdida de amores por um magrinho, com ar de gazela, ágil como um acrobata, com olhos de bambi pestanudo, uma boca capaz de proezas inimagináveis e com uma tendência mórbida para gostar de fazer compras inúteis e de bolos encharcados em creme.
 
O estudo escocês pode ter estar baseado em factos que uma rapariga simples desconhece, mas ninguém me tira um matulão, com maxilares quadrados e violentos, capaz de nos entregar o céu com as mãos peludas e bem grandes.
 
São homens que nos causam problemas impensáveis, mas uma rapariga esperta sabe fazer florir mesmo as urtigas e todas nós gostamos de um másculo problema bem desperto. 

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A Gaffe não gosta

rabiscado pela Gaffe, em 27.10.16

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... de mulheres gorduchas, rentes ao soalho, com cabeleiras ossificadas, sorrisos miudinhos, convencidas que são fadas, de alfinetinhos sempre prontos a tentar furar a vida dos outros, que usam casaquinhos de malhinha demasiados justos e sapatinhos de meio-tacão, que escrevem cuesia dedicada ao Outono e que não deixam de marcar presença em saraus literários onde uma catrefa de cuetas, de cuetisas e de cumancistas fazem de conta que se dedicam às letras.

 

A Gaffe sabe que escondem estampas pornográficas nas folhas dos missais. 

 

Aproximam-na dos abismos da irritação e esbardalham-lhe a paciência. Sobretudo aquelas que usam um broche na lapela - um sítio onde é desagradável ver um broche - e nos olham depois com aquele ar muito digno e muito ausente de quem não mexe nunca numa palha... ou numa pila.

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A Gaffe dos Recursos Humanos

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.16

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Quando ouço falar da Guerra dos Sexos encontro sempre aliada a esta questão o problema da beleza feminina como adversária ou auxiliar importante no campo de batalha. Embora, na realidade, não considere existir um conflito incontornável, assumo que a inteligência é quase sempre indirectamente maculada pelo facto de, por estereótipo, se considerar que uma mulher bonita tem o cérebro mirrado, talvez porque o sangue não o irrigue convenientemente, tão disperso está pelo comprimento das pernas deslumbrantes.

 

A beleza, sobretudo a feminina, é não raras vezes um entrave ao sucesso muitas vezes garantido ao homem sem que este dê provas de qualquer capacidade para o merecer, porque impulsiona e eleva as expectativas depositadas no feminino, colocando a fasquia de tal forma alta que a falha pode ser inevitável.

 

De uma mulher bonita espera-se que prove, com maior grau de exigência, a sua competência, eficácia e inteligência. Parte-se vulgarmente do princípio que a loira platinada, de corpo digno de figurar no catálogo da Vogue, vertiginosamente atraente e ondulante, não pode ter o cérebro povoado a não ser por futilidades e métodos de fisgar um milionário. A loira burra, com todo o seu esplendor e perfeição anatómica, é quase sempre objectificada, considerada um troféu ganho pelo macho ou, na melhor das hipóteses, a protegida do Presidente. Terá de dobrar o seu esforço para solidificar o lugar que ocupa e provar que pensa.

Parte deficitária.

 

Para ilustrar o dito - e reconhecendo que a juventude/velhice são premissas de importância capital  no conceito actual, e ocidental, de beleza - recorramos a duas ilustres senhoras de um tempo já ido para não melindrar ninguém:

De Carla Bruni não se esperava nada, a não ser que subisse os degraus do jacto privado com os rasos sapatinhos Prada, que miasse de quando em vez e que cruzasse os pezinhos como bailarina bem comportada na presença de Sua Majestade Isabel a segunda. Embora seja evidente a inteligência astuta e poderosa da modelo, terá de se esfolar dolorosamente ou apresentar ao mundo um renovador tratado de filosofia política para se tornar credível. De Manuela Ferreira Leite não nos espantamos que tropece na subida, sapatos pelo ar e saiote desfraldado, com todos os tratados comunitários e estudos económicos agarrados aos dentes, porque a inteligência não colide com a beleza e portanto não nos permitimos duvidar da sapiência da ilustríssima senhora.

 

Evidentemente que se pode e deve contornar este percalço estereotipado.

Uma mulher inteligente jamais abdicará do facto de ser considerada bonita. Usa-o.

 

Os homens podem desbravar caminho abdicando dos seus princípios ou de irrepreensíveis comportamentos éticos. O Presidente Executivo da Empresa pode ter sido um sacana, um pulha e um patife ou ter bebidos uns copos com as pessoas certas no seu percurso até à liderança e ser reconhecido pelos pares como aquela criatura invulgarmente inteligente que soube atingir o topo à custa de muitas feridas que lhe ensanguentaram as mãos. A Presidente Executiva da Empresa se for ao mesmo tempo um modelo de Dior é, muitas vezes, a cabra que dormiu com toda a gente.

 

Partindo deste pressuposto, a mulher inteligente reconhece que a Beleza não pode ser asfixiada em nome de um estereótipo com origem no entendimento masculino do universo. Usa - e tem obrigação de o fazer - o fascínio que é capaz de produzir com a mesma eficácia com que os homens se esventram com um Power Point elaboradíssimo que aniquila a concorrência.

 

A beleza feminina é uma arma poderosíssima ao serviço da inteligência. Ninguém mentalmente saudável  inutiliza, ou despreza como reprováveis, os dados favoráveis que possui e com que pode jogar na vida.

Se o vislumbre do soutien que protege a beleza insuperável consegue defender aquilo que consideramos justo bem melhor do que a catrefa inútil de gráficos coloridos que serão ignorados por completo, que se prenda então a papelada imprescindível à renda de uma alça.

 

Ganhamos nós, mulheres, e ganha a Empresa.

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A Gaffe sem óculos

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.16

Jon Whitcomb.jpgTodos os banqueiros portugueses possuem uma característica comum imprescindível para que sejam reconhecidos.

Usam óculos na ponta do nariz.

 

Não são óculos normais. Trazem um dispositivo que lhes permite o alongamento das hastes de modo a que nunca deixem a sua posição de equilíbrio à medida que o nariz se vai alterando.

A ponta do nariz dos banqueiros portugueses, falidos ou não, é essencial à sua performance perante as comissões parlamentares e na apresentação de resultados dos bancos que lideram. Pousam as lentes ali, inclinam ligeiramente a cabeça para baixo, pousam os olhos nos apontamentos que trazem, de cantos da boca descaídos, cabelo brilhantina, punhos adornados e gravata regimentar, para depois erguerem as pupilas deixando um imenso espaço branco leitoso ao serviço da intimidação.

De pupilas a espreitar por cima das longínquas lentes, adquirem o aspecto de quem foi possuído por Belzebu, mas que o dominou e o colocou ao seu serviço, pronto a descarregar matéria esverdeada sobre a reverente plateia. A ameaça normalmente é cumprida.  

 

Os óculos na ponta do nariz têm a mesma função que um estetoscópio a fazer de cachecol. Convence. Podemos vaguear em qualquer hospital, tornarmo-nos anjos da Morte, assassinos psicopatas de sangrenta seringa em punho, assobiar Kill Bill nos corredores das enfermarias, sacar os sacos de ostomia para os vender no mercado negro como carteiras Prada, traficar órgãos e drogar a equipa de cirurgia com anestésicos que surripiamos ao paciente, desde que usemos bata branca, estetoscópio enrolado no pescoço e um ar gelado de quem saiu da morgue há pouco tempo. Se usarmos óculos na ponta do nariz, somos banqueiros e se acrescentarmos a morgue à equação, para além de podermos fazer exactamente o mesmo, arranjamos sempre modo de driblar a maçada das contas sem nunca termos tido conhecimento de qualquer assunto menos nobre.

 

Quando for grande a Gaffe não quer usar óculos na ponta do nariz. Não tem nariz para tal. Prefere apresentar os sorteios dos jogos da Santa Casa num canal de televisão. Apesar de se ficar verde com o reflexo do painel de fundo, de exigir uns bons dez minutos por semana de excelsa criatividade, é muito menos cansativo e as bolinhas a subir compensam a falta de visão.

 

Ilustração - Jon Whitcomb    

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A Gaffe sombreada

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.16

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Embrulho-me na camisola branca de malha grossa e estanco frente à luz.

 

Então a felicidade é este vazio? Uma paragem limpa e sem ruído. Alva e maciça camisola em que me embrulho.

Tão pouco. Este tão pouco exaure. Deixa sem nada o lugar onde eu existo. É desamparado campo de alma, campa rasa, raso esvoaçar de asa sem rosa ou esta rosa brava a romper entre o silêncio e esta terra agreste sem cor de nenhum mar. 

Ser feliz é isto? O oco deslumbrante.

 

Basta a minha mão de terra em concha a recolher a luz para que a sombra me vá tombar nos dedos.

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A Gaffe omnipresente

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.16

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Há já um tempo significativa que a Gaffe não é assombrada pelo troll que tem apenso. Salvaguardando os alfinetes de pouca monta lançados do blog onde desova, o troll tem vindo a fazer-se notar pela ausência de baba e de matéria putrefata despejada na caixa de comentários, mais ou menos anónimos, que uma rapariga esperta identifica de imediato pelo balbuciar dos mesmos e constantes erros.

 

Há no entanto uma espécie distinta de troll que causa alguma perplexidade.

 

Não é de todo um anónimo rancoroso a cuspir fel. Pelo contrário. É detentor de uma gentileza iluminada e assina todas as caixas de comentários de todos os blogs que existem e provavelmente deixa em rascunho alguns farrapinhos para aqueles que darão à costa.

A Gaffe fica pasmada quando, saltitando de blog em blog, abrindo os comentários como quem colhe florinhas, apanha de imediato com esta coisa a desejar tudo de bom e a declarar a sua admiração incondicional mesmo no post mais ranhoso, provavelmente um produto de uma noite mal dormida.

Não falha. É omnipresente.

A Gaffe confessa que raramente viaja pela blogosfera. É uma rapariga comedida e prefere cuidar do seu jardim a calcar a relva alheia, mas quando o tempo permite e há uma aberta no piso ocupado destas Avenidas, vai dar uma voltinha por ruas estranhas. É nesses fugidas que apanha a enxurrada. O troll está ali. Em todos os lados, em todos os cantos, em todas as esquinas. Assustadoramente gentil, enervantemente motivador, medonho de insistência.

O troll surge em todos as pontas. Aparece em tudo que é comentário. Quer ser o primeiro. É sempre o primeiro e lá vai rumando a outro blog logo depois de imprimir o seu contentamento muito simples no desprevenido que foi apanhado nos últimos que surgem ou naqueles que estão no brilho do destaque.

 

Este caso que merece análise cuidada que a Gaffe se permite não fazer, é inibidor de visitas. Ninguém atura tanta tentacular aparição. Fugimos de imediato com receio de perdermos a compostura e a pose, esbardalhando-nos contra a vontade de a trucidar ou desfazer em ácido.

 

Se é verdade que, como diz o povo - e o troll subscreve, - quem é vivo sempre aparece, há com certeza momentos em que preferíamos não embater com tamanha frequência contra um figurante de Walking Dead.

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A Gaffe ao pormenor

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.16

David Vargas by York Carmona.jpgO momento mais simpático para observarmos um homem é enquanto ele dorme, mesmo quando o faz de pé.

 

Sossegado e indefeso, podemos analisar com minúcia a testa larga e ampla, as centenas de pestanas tombadas sobre os olhos que sabemos castanhos, levemente riscados por um verde que se torna seco quando lhes toca, as sobrancelhas espessas que desenham arcos perfeitos e atraentes, o nariz recto e poderoso em que as narinas tremem levemente à medida que respira, a boca carnuda com o lábio superior insolente, o queixo quadrado e viril, a barba densa e rude a romper a pele de cetim moreno, o pescoço forte e potente onde um pêlo encravado inflamado, aureolado, esbranquiçado, nos retira à força da contemplação.

 

São as mais insignificantes imperfeições, os mais irrisórios pecadilhos físicos, que fazem oscilar e recuar a atracção que uma mulher sente por um homem por quem não está apaixonada.

Podemos ter na frente Rubén Cortada que encontraremos pela certa, na sua nudez asfixiante, a mazela insignificante no joelho, o minúsculo sinal peludo na planta do pé, o espigão rente à unha ratada ou o pêlo do nariz que avança como uma pata de um grilo, que nos vão congelar a empatia física e desactivar o íman em que se tornariam se fossem isentos destas irrelevantes incorrecções.  

 

As mulheres - ao contrário dos homens que cegam atraídos pela globalidade da paisagem feminina, - estão atentas às flores mais miudinhas, aos mais ínfimos pormenores de cor e de textura, que fazem parte do chão do corpo de um homem. Basta uma pequena dissonância para que haja uma avalanche capaz de soterrar o que se avista.

Talvez seja por isso que resistimos com maior facilidade aos apelos da carne como diria o senhor abade que de paisagens físicas conhece os arredores. Somos muito mais susceptíveis aos desencantos das miudezas e muito mais depressa desencorajadas pelo sobressalto de um pequeno lapso.    

 

O facto é auxiliar precioso quando tentamos traduzir para uma linguagem perceptível as nossas emoções. Se perdoamos a borbulha no pescoço do rapaz adormecido e se a entendemos como a mais humana forma de se ser um deus, então é tão certo como simples. O homem que adormeceu ao nosso lado é o mesmo que nos acorda o coração.

 

Na foto - David Vargas por York Carmona

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A Gaffe isolada

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.16

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A cidade mais próxima dista cerca de dez Kms daqui.

É uma povoação pequena, com um centro histórico relativamente bem preservado, rodeado de caóticas construções coloridas e empilhadas.

Cidadezinha quente com gente prematuramente envelhecida e uma película de jovens amorfos e incaracterísticos.

 

Lembro-me que no Porto, se desejámos ser atendidos com alguma rapidez, basta fazer tilintar as moedas no tampo das mesas dos cafés de modo a que o empregado o consiga ouvir. Parece ser reflexo condicionado. Experimentámos e resulta quase sempre.  O som dos sininhos do dinheiro apela à missa. Aqui, esse pequenino e maldoso truque não resulta. O rapaz encostado ao balcão olha pasmado a pasmaceira e não há tilintar que o faça desviar do morno do sono dos olhos parados.

 

Sento-me e a espera cruza as pernas e tamborila na mesa com os dedos.

Nada acontece e na mesa de tampo de madeira e vidro, a jarra pequena com uma flor já murcha tem o ar de coisa pornográfica.

O dia vai passando connosco ao largo.

Admito que é impossível ficar muito tempo aqui sem sermos preenchidos por uma espécie rara de nostalgia enevoada. Talvez surja do silêncio ou da imensidão sussurrante das árvores ou das águas pacíficas que espelham quase negras as silhuetas dos velhíssimos teixos. Talvez os dias que passem sem sentirmos, iguais em cada dia a passar, insinuem ter dentro uma forma estranha de destruição que alagará as almas a qualquer instante e de surpresa.

A minha sorumbática atitude arrasta-se pelas horas devagar. Sinto-me pasmada, parada e sem vontade. Espalho-me pelos cantos e admito sem pudor ou embaraço a minha indiferença a tudo. Passo pelas ruas, inútil e dispersa. Nada é quente.

A imensa e doentia dolência que entristece este lugar parece fazer vítimas constantes.

 

Aqui no Douro não se deseja muito. Aguarda-se só que o tempo se espreguice e no bocejar do tempo sem palavras e sem gestos, espera-se o derramar das horas.

Aqui no Douro a globalização é ilusória. A tão publicitada conectividade do indivíduo com o planeta inteiro é um ignorado paspalho mentiroso.

Tudo é distante. Tudo é desmesuradamente isolado e a extensão deste isolamento entrega corpo à insignificância do que somos ou sentimos e aniquila a idiota soberba, a ridícula arrogância, a inútil sobranceria e o patético pretensiosismo humano.

 

Perdemos, nas lides cosmopolitas, as noções de distância e de extensão. O facto é terrivelmente lamentável. O longe é imprescindível para a relativização da nossa dimensão. A pequenez incomensurável do humano é sentida através do quanto é longínquo determinado espaço que queremos alcançar, de como é extenso o caminho a percorrer pelo nosso desejo de encontro. Dizem que a grandeza do homem se mede pela vergonha que sente. Creio que a pequenez pode ser calibrada, mensurável, determinada pela lonjura e pela distância entre o ponto em que permanecemos, somos ou estamos, e aquele que desejamos encontrar.

 

A cidade mais próxima dista cerca de dez longos e realmente palmilhados Kms daqui e temos saudades de manuscrever cartas.

 

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A Gaffe na zona de conforto

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.16

Para além de num primeiro relance a Gaffe gostar do camisolão e do relógio e do ar vagamente desleixado - atitude reveladora de um cuidado inteligente e demorado, - sempre se sentiu atraída por rapazes espertos que trabalham nas áreas que desconhece por completo. Fica fascinada por criaturas que sabem mexer e remexer naquilo que está para além das suas capacidades digamos que cognitivas. 

 

É um defeito grave.

 

É mais segura a atracção que sentimos por rapazes que se movem nos círculos de conhecimento a que pertencemos. Ficamos a saber com quem lidamos e não respondemos à desilusão dos compassos e das réguas ou à análise fonética de um sotaque com a localização exacta do hâmulo pterigóideo e nunca arricamos esmagar o Círculo de Krebs contra a fotossíntese.

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A Gaffe com hortênsias

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.16

 

DSC_0163.JPGForam as hortênsias que abafaram a alameda de vinhas que ia do portão de ferro forjado até à soleira da porta. Mortas, as ramadas surgiam como dedos pretos e enrugados, a furar o que se tornara opaco pelas invasoras, apontando a incúria da minha avó, que as deixara acabar porque quando vivas, no tempo das vindimas, obrigavam a esforços redobrados ao fazer chegar homens que manchavam tudo.

 

As hortênsias depressa adquiriram a coragem para sem pudor dominarem tudo. A alameda estreitou e escureceu. Quando as hortênsias começavam a florir os ramos tombavam de pesados e os mais altos curvavam. O caminho assemelhava-se nessas alturas a um túnel. A ordem e mesmo a simetria exigidas pela minha avó a tudo o que vivia, foi dispensada ali. Era a sua excepção. Todas as recomendações e todos os sustos das mulheres que adivinhavam ao entardecer bandoleiros e rafeiros e barulhos errantes irrompendo do caos, foram ignorados. As hortênsias tiveram permissão para assolar aquela parte da casa.

 

Eu voltava quase sempre com braçadas enormes de hortênsias que a avó arremessava para jarras sem água. Sucumbiam secas.

Da alameda sobrou a minha memória de ramos nos braços que de tão grandes me resguardavam o tronco. Hortênsias com braços e pernas a caminhar junto do murmúrio da minha avó.

 

As hortênsias crescem furiosas e obcecadas. Invadem as esquinas e os interstícios da memória. Empurram e furam, rebentam e cavam. Surgem de súbito e tornam-se raivosas, alastrando com medo de morrer.

Iguais às que fotografo agora, tornam curvo o tempo que é uma hortênsia numa jarra sem água.

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Gavetas:

A Gaffe dos genes

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.16

F. Vicente.jpgGrande parte do poder de sedução de uma mulher, das ciladas que ergue em redor da vítima, do irreversível precipício no seu corpo, não está na importância, mas exactamente na pouca importância que atribui às coisas.

 

Um zoólogo que por aqui passou e deixou na Gaffe tenazes e animalescas recordações falou-lhe - não sei se lhe mentiu, mas se o fez foi por causa forte, - no erro genético que produziu as panteras de cor negra.
Não são de modo nenhum uniformes, da cor da noite por inteiro, e as manchas, essas mais negras ainda do que resto, são visíveis nos seus corpos maleáveis e esguios se lhes dedicarmos atenção e lhes respeitarmos o perigo. 
A genética que lhes apagou erradamente a cor ocre fez do animal um dos mais perigosos do reino.


A Gaffe suspeita que a mesma genética que apagou o ouro dos felinos, dissolveu nas mulheres a capacidade de atribuir demasiada importância aos homens que desejam ou àqueles que querem caçar, transformando-as em gatinhas mornas e preguiçosas que aguardam que a presa fique ao alcance das garras e que esperam que seja impossível deixar de acariciar.


E como gatas que somos damos pouca importância à durabilidade das coisas.

 

Ilustração - F. Vicente

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