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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num beijo

rabiscado pela Gaffe, em 06.10.16

Um beijo, às vezes, é como um sopro de pássaro a voar rasante sobre uma planície.

Há beijos que trazem a boca carnuda como um fruto de Verão e esculpida, grossa e encorpada. Outros são de uma nudez completa, essencial para o desenho do espaço imprescindível para que se ignore o corpo que resta.  
Há beijos que não damos, porque no silêncio os sentimos soar dentro da alma e porque tudo nos chega decepado, como se no caminho que vai da alma onde soam, à boca que os dá, tudo se perca e se abram flores de carne inúteis e incompletas.  
Há beijos com o sabor a mel e a pólen misturados com a saliva. Mesmo quando na boca o bater do coração não seja o mesmo do beijo que é dado.

Há os que disparam armadilhas. Ouvimos silvar as balas. Quebram-se ondas do mar só com um beijo.

Há beijos que fazem tombar lírios sobre o dia, deixando-nos morrer sobre a nudez perfeita da Verdade.  
Há beijo que esvoaçam pairando sobre a boca que adormece porque tem medo de acordar e não sentir mais nada.  
Há beijos ensonados, com o sabor da névoa dos que sonham acordados.

Há beijos como se fossem terra ou mar ou um pedaço de pão pousado na toalha de uma boca.  

Há beijos que são o traço negro das gôndolas e um abandono ao frio de estandartes.

Há outros que são mapas de outro corpo.

Há beijos desfeitos nos canais do lento arrasto da melancolia dos trajectos.

Há beijos peregrinos. Ouvem-se rezar nas catedrais.

Há beijos comédias, saltimbancos súbitos que assustam prendendo pássaros à boca.

Há outros que são esboços mortos de um poeta.

Há beijos que são a única razão para o suicídio. Deixaram de ser tudo na boca beijada. Trazem mortas as baladas que tangiam.

  

Talvez a noite aquática das Praças desfaça o que mora entrançado na varanda de um beijo ou talvez sejamos nós a ir embora.

 

Talvez o silêncio seja Deus a beijar.

 

Foto - James Elliott, Kiss on frosted glass - 1984

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A Gaffe guterrista

rabiscado pela Gaffe, em 06.10.16

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Quando a Gaffe ouviu dizer que uma das razões do divórcio de Angelina e Pitt residia no facto do homenzarrão ter batido no puto, não ficou surpreendida. A Gaffe suspeitava que Guterres não devia ter ido visitar os pobrezinhos ao lado da diva e sem que a viagem tivesse o patrocínio BP.  

É evidente que ficou incomodada até o ver de boa saúde a defender a sua candidatura a Secretário-Geral das Nações Unidas.

 

Esta rapariga confessa que é pouco dada a orgulhos bacocos. Experimentou uma pitadita deste nobre sentimento ao assistir à intrincada inovação eleitoral e pelo facto de ter sido eleito o candidato mais capaz - e que provavelmente terá de retirar em braços Ban Ki-moon que esteve a dormir na poltrona durante estes anos.

 

Isolado no meio de uma data de candidatos de leste que oscilam e confundem outros valores que mais alto se levantam, ao lado de um outro que não responde a estratégias geopolíticas dignas de relevo e enquadrado por mais um que a Inglaterra não consegue engolir, Guterres é a tabuinha certa numa inundação que tem como afogados principais a Alemanha e a sua titubeante Kristalina que parece desconhecer o conflito uncraniano, tão ocupada que se encontra a tentar falar em inglês sem deixar de pensar em alemão.

 

Aliando-se a este cenário, o facto de Guterres se ter revelado indiscutivelmente o melhor candidato - o que prova que um líder desastrado de um partido, um ex-primeiro-ministro medíocre e de tanga, mergulhado num pântano político que não consegue drenar, pode aspirar com o tempo à competência, - tornou quase obrigatória a sua eleição e em consequência as manifestações de orgulho pindérico que caracteriza o provincianismo português.

 

A eleição pontual do mérito e da competência, meus queridos, não é contagiosa. Não se transforma em epidemia e não faz dum conterrâneo eleito a encarnação ou o símbolo de um país, assim como não permite, sobretudo neste caso, que a diplomacia portuguesa desate aos gritos reivindicando um pedacinho das folhas de louro que agora emolduram o triste, mas valoroso, penteado do novo Secretário-Geral da ONU.

 

Continuamos por cá muito pobrezinhos.

 

Empolamos a alegria, dilatamos o peito, inchamos o ego, ampliamos o orgulho e exultamos - mesmo não sabendo muito bem porquê, ou apenas porque o mérito tem as cores da nossa bandeira, - mas sempre caseiramente à espera de meter a cunha, fazendo lembrar a criaturinha patética que esbraceja em defesa da globalização do arco-íris, da defesa do carrapato do Cazaquistão e do gorila na bruma, da harmonia planetária e da comunhão sem preconceitos entre povos, mas que no aconchego do lar e da sua mesquinhez rancorosa não resiste, à laia de exemplos ou de brisas na tarde, a chamar cenourita a uma ruiva - ou a considerar que uma prostituta que se soltou das esquinas e dos cantos degradados da vida que teve, tem de passar a ser mais dócil, porque existe gente de respeito que faz o favor de a aceitar agora, - como se o epíteto, o beliscão lasso que tenta cravar ininterruptamente, não representasse apenas a tristeza da sua permanente crespa, baça e descolorada - ou que uma decisão alheia tivesse de passar pelo seu crivo raquítico para se assumir de pleno direito.

 

Usamos de modo anfetamínico o mérito dos outros acreditando orgulhosos que dele partilhamos, que nele nos revemos, que ele nos encarna, apenas porque não conseguimos vislumbrar a nossa vacuidade e a nossa mediocridade desfraldada.

 

Vestimo-nos de Batman e rabiscamos obscenidades nos WC da vida.

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