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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe outonal

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.16

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Daqui vejo o corredor das árvores. São gigantescas e provocam a sensação de que, cedo ou tarde, nos vamos perder no chão, iguais às folhas que começam a quebrar com ferrugem ou incêndios com sede.

Afasto-me dos outros como se fosse urgente passear calada, como se tivessem emudecido todos estes ventos que dançavam sobre as telhas e faziam oscilar os velhos anjos das fontes.

 

Ao fim da tarde começa a fazer frio.

 

Sento-me no banco de pedra e tento ouvir os sons que sempre me foram estrangeiros. O frio tem um som também. Não o sei definir, mas agora sei que ouço. É uma mistura de fio de água a correr e de gargalhadas de fantasmas.  
Disseram-me que aqui ninguém morre. Que as pedras prendem aqueles que se perdem e que quando as pisamos sentimos o latejar dos corações que foram. Disse-mo o meu avô que a ele lho disseram, mas eu não acredito, porque estou sentada numa pedra e o fantasma está na minha frente, que me vejo longe de mim, ali ao fundo e não na pedra onde me sento. Talvez se confunda o frio das tardes e das noites com o latejar dos corações dos mortos.

 
Todas as tardes em que me sento neste banco, o velho Domingos vem sentar-se comigo. Pergunto-lhe sempre se alguma vez viu um fantasma. Responde que não e fica a olhar as mãos que são raízes.  
Ontem sentou-se comigo no banco frio de pedra, ao fim da tarde. Havia árvores a amarelecer por todo o lado e o vento fraco continuava a embalar os anjos.  
- A menina é boa pessoa.  


As árvores estão amarelas e soltam a poeira das folhas embrulhadas no vento, mas eu sou boa pessoa. Tudo é tão simples, quando tenho o Domingos perto de mim, sentado no início do Outono a olhar para as mãos que são as raízes das árvores amarelas.

Ao fundo do corredor passa uma mulher sem olhar para as mãos que são as minhas e deixo de saber se estou sentada ou se a mulher que passa sem olhar é o que eu sou a andar por entre as árvores.  
A cadela brinca com as folhas e com o restolhar do tempo.  
O Domingos levanta-se. Esfrega as mãos que são raízes e atravessa o caminho com árvores amarelas. Ao fundo do corredor de folhas mortas, a mulher desaparece e eu sentada no banco de pedra vejo-me esbater ao lado dela.  


As tardes aqui começam a ser frias.

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A Gaffe de navalha

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.16

Em Montmartre, no tempo Ocupado por navalhas, os homens traziam-nas no bolso. Navalhas de barba com cabos trabalhados. Serviam de ameaça ou de defesa, de passe para a fuga ou para o ataque.


Madame, todas as tardes em Montmartre, braço dado num amor francês, procura que Paris lhe tolde a persistente memória do amor perdido.


Em Montmartre, no tempo Ocupado por navalhas, a mulher insistia em ler as sinas.
Aberta na cinza de Montmartre, a palma da mão do amante de Madame, na tarde em que vencido ele desiste.
Não há lugar, nem indício, nem risco ou linha que fale de Madame! Não há no seu destino o rasto da amante. Madame não existe nas linhas da sua vida.


O homem saca da navalha e abre um golpe fundo na mudez das linhas da sua mão.
- Lê outra vez. Agora já a tenho - ordenou ele.


Madame sorri enquanto fala daquele tempo ocupado por navalhas, debruçada sobre uma confidência desgostosa. Retira depois da caixa de madeira antiga a navalha de cabo de trabalho.


- Guardo-a há demasiado tempo. Agora é sua. Rasgue o seu destino. 

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