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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem pijama

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.16

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Embora existam manhãs que podem ser constrangedoras e lapidarem uma reputação masculina, um homem que acorda nu pode ser um encanto - toda a rapariga esperta sabe, por exemplo, que não é atractivo amanhecer viçosa e pujante ao som do roçagar de umas ceroulas. Deixa-a deprimida e a pensar se não começou mal o dia por ter acabado mal a noite.

 

Um pijama largo, amplo, de algodão egípcio, com cordões lassos a prender as calças e uma pitada vintage a adornar o resto, é portanto um dos mais agradáveis amanheceres que uma rapariga pode esperar de uma noite mal dormida e é sem dúvida um fascínio encontrar um rapagão já amanhecido na cozinha a beberricar o nosso imaginário mais maroto, com umas calças de pijama azul-bebé riscado a branco e um tronco nu riscado pelo ginásio...

 

... ou entao sem elas. 

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A Gaffe na chuva da avenida

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.16

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 Há chuva na avenida.

 

Dentro da chuva há gente. Um cão que ladra e uma folha de papel sem mais nem menos.

Ninguém se vê. Ninguém confunde ou olha ou pasma, deslumbra ou desfalece. Passo por gente que rompe pela chuva já sem tempo de olhar e de sorrir, de se voltar para trás para tornar a ver.

 

Nos dias de tempos idos, mesmo rasando a luz do entardecer, sentava-me no banco do jardim da avenida e havia apenas névoa e cães e folhas de papel presas ao chão e sempre me sentia alguém que eu não sabia, diferente e igual a mim, mas nunca eu.

Agora há chuva e sinto-me cansada de me sentir sentida. Sinto-me e penso que o sentido chega daquela que é pensada por mim, que não sou eu. Sinto-me a pensar e estou cansada.

 

Há chuva e sinto-a como um cão que ladra dentro do que penso.

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Gavetas:

A Gaffe numa antítese

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.16

cisternaHá lugares que trazem unidos os contrassensos, as suas negações.

De encontro a eles pasmamos perante a nossa própria antítese, em frente às nossas margens duplas, defronte às nossas mais contidas incongruências.

 

A maior cisterna da casa dos meus avós é um lugar quase improvável, quase negado por existir daquele modo. Para ali chegar é preciso percorrer caminhos íngremes, subir escadas de granito tosco e desbravar a coragem de nos irmos sorvendo nos espaços cada vez mais afunilados que gotejam sussurros e bater de asas de pássaros, de pedras e de folhas.

É sombrio o caminho da cisterna que não se avista a não ser já quando estamos muito próximos.

Guardada por duas árvores guerreiras, a planície aquática, de platina, recolhe o fio de aranha de água que a alimenta. Reparte-se cortada pelo espelho e deixamos de saber onde somos parados, se no lugar que respira ou no reflexo inumano e lancetado.

 

É o lugar do silêncio em paradoxo. O lugar onde se adivinha, no equilíbrio quase perfeito das ausências, o caos da nitidez das árvores e a ruptura mutilada dos sentidos.

É o lugar mais próximo de mim, porque é o lugar contido na vida dos gigantes que habitam o interior da casa. Igual a eles, a alma da cisterna afunda, no outro lado, a negação das coisas.

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