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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com hortênsias

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.16

 

DSC_0163.JPGForam as hortênsias que abafaram a alameda de vinhas que ia do portão de ferro forjado até à soleira da porta. Mortas, as ramadas surgiam como dedos pretos e enrugados, a furar o que se tornara opaco pelas invasoras, apontando a incúria da minha avó, que as deixara acabar porque quando vivas, no tempo das vindimas, obrigavam a esforços redobrados ao fazer chegar homens que manchavam tudo.

 

As hortênsias depressa adquiriram a coragem para sem pudor dominarem tudo. A alameda estreitou e escureceu. Quando as hortênsias começavam a florir os ramos tombavam de pesados e os mais altos curvavam. O caminho assemelhava-se nessas alturas a um túnel. A ordem e mesmo a simetria exigidas pela minha avó a tudo o que vivia, foi dispensada ali. Era a sua excepção. Todas as recomendações e todos os sustos das mulheres que adivinhavam ao entardecer bandoleiros e rafeiros e barulhos errantes irrompendo do caos, foram ignorados. As hortênsias tiveram permissão para assolar aquela parte da casa.

 

Eu voltava quase sempre com braçadas enormes de hortênsias que a avó arremessava para jarras sem água. Sucumbiam secas.

Da alameda sobrou a minha memória de ramos nos braços que de tão grandes me resguardavam o tronco. Hortênsias com braços e pernas a caminhar junto do murmúrio da minha avó.

 

As hortênsias crescem furiosas e obcecadas. Invadem as esquinas e os interstícios da memória. Empurram e furam, rebentam e cavam. Surgem de súbito e tornam-se raivosas, alastrando com medo de morrer.

Iguais às que fotografo agora, tornam curvo o tempo que é uma hortênsia numa jarra sem água.

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