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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sombreada

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.16

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Embrulho-me na camisola branca de malha grossa e estanco frente à luz.

 

Então a felicidade é este vazio? Uma paragem limpa e sem ruído. Alva e maciça camisola em que me embrulho.

Tão pouco. Este tão pouco exaure. Deixa sem nada o lugar onde eu existo. É desamparado campo de alma, campa rasa, raso esvoaçar de asa sem rosa ou esta rosa brava a romper entre o silêncio e esta terra agreste sem cor de nenhum mar. 

Ser feliz é isto? O oco deslumbrante.

 

Basta a minha mão de terra em concha a recolher a luz para que a sombra me vá tombar nos dedos.

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Gavetas:

A Gaffe omnipresente

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.16

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Há já um tempo significativa que a Gaffe não é assombrada pelo troll que tem apenso. Salvaguardando os alfinetes de pouca monta lançados do blog onde desova, o troll tem vindo a fazer-se notar pela ausência de baba e de matéria putrefata despejada na caixa de comentários, mais ou menos anónimos, que uma rapariga esperta identifica de imediato pelo balbuciar dos mesmos e constantes erros.

 

Há no entanto uma espécie distinta de troll que causa alguma perplexidade.

 

Não é de todo um anónimo rancoroso a cuspir fel. Pelo contrário. É detentor de uma gentileza iluminada e assina todas as caixas de comentários de todos os blogs que existem e provavelmente deixa em rascunho alguns farrapinhos para aqueles que darão à costa.

A Gaffe fica pasmada quando, saltitando de blog em blog, abrindo os comentários como quem colhe florinhas, apanha de imediato com esta coisa a desejar tudo de bom e a declarar a sua admiração incondicional mesmo no post mais ranhoso, provavelmente um produto de uma noite mal dormida.

Não falha. É omnipresente.

A Gaffe confessa que raramente viaja pela blogosfera. É uma rapariga comedida e prefere cuidar do seu jardim a calcar a relva alheia, mas quando o tempo permite e há uma aberta no piso ocupado destas Avenidas, vai dar uma voltinha por ruas estranhas. É nesses fugidas que apanha a enxurrada. O troll está ali. Em todos os lados, em todos os cantos, em todas as esquinas. Assustadoramente gentil, enervantemente motivador, medonho de insistência.

O troll surge em todos as pontas. Aparece em tudo que é comentário. Quer ser o primeiro. É sempre o primeiro e lá vai rumando a outro blog logo depois de imprimir o seu contentamento muito simples no desprevenido que foi apanhado nos últimos que surgem ou naqueles que estão no brilho do destaque.

 

Este caso que merece análise cuidada que a Gaffe se permite não fazer, é inibidor de visitas. Ninguém atura tanta tentacular aparição. Fugimos de imediato com receio de perdermos a compostura e a pose, esbardalhando-nos contra a vontade de a trucidar ou desfazer em ácido.

 

Se é verdade que, como diz o povo - e o troll subscreve, - quem é vivo sempre aparece, há com certeza momentos em que preferíamos não embater com tamanha frequência contra um figurante de Walking Dead.

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A Gaffe ao pormenor

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.16

David Vargas by York Carmona.jpgO momento mais simpático para observarmos um homem é enquanto ele dorme, mesmo quando o faz de pé.

 

Sossegado e indefeso, podemos analisar com minúcia a testa larga e ampla, as centenas de pestanas tombadas sobre os olhos que sabemos castanhos, levemente riscados por um verde que se torna seco quando lhes toca, as sobrancelhas espessas que desenham arcos perfeitos e atraentes, o nariz recto e poderoso em que as narinas tremem levemente à medida que respira, a boca carnuda com o lábio superior insolente, o queixo quadrado e viril, a barba densa e rude a romper a pele de cetim moreno, o pescoço forte e potente onde um pêlo encravado inflamado, aureolado, esbranquiçado, nos retira à força da contemplação.

 

São as mais insignificantes imperfeições, os mais irrisórios pecadilhos físicos, que fazem oscilar e recuar a atracção que uma mulher sente por um homem por quem não está apaixonada.

Podemos ter na frente Rubén Cortada que encontraremos pela certa, na sua nudez asfixiante, a mazela insignificante no joelho, o minúsculo sinal peludo na planta do pé, o espigão rente à unha ratada ou o pêlo do nariz que avança como uma pata de um grilo, que nos vão congelar a empatia física e desactivar o íman em que se tornariam se fossem isentos destas irrelevantes incorrecções.  

 

As mulheres - ao contrário dos homens que cegam atraídos pela globalidade da paisagem feminina, - estão atentas às flores mais miudinhas, aos mais ínfimos pormenores de cor e de textura, que fazem parte do chão do corpo de um homem. Basta uma pequena dissonância para que haja uma avalanche capaz de soterrar o que se avista.

Talvez seja por isso que resistimos com maior facilidade aos apelos da carne como diria o senhor abade que de paisagens físicas conhece os arredores. Somos muito mais susceptíveis aos desencantos das miudezas e muito mais depressa desencorajadas pelo sobressalto de um pequeno lapso.    

 

O facto é auxiliar precioso quando tentamos traduzir para uma linguagem perceptível as nossas emoções. Se perdoamos a borbulha no pescoço do rapaz adormecido e se a entendemos como a mais humana forma de se ser um deus, então é tão certo como simples. O homem que adormeceu ao nosso lado é o mesmo que nos acorda o coração.

 

Na foto - David Vargas por York Carmona

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