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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos Recursos Humanos

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.16

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Quando ouço falar da Guerra dos Sexos encontro sempre aliada a esta questão o problema da beleza feminina como adversária ou auxiliar importante no campo de batalha. Embora, na realidade, não considere existir um conflito incontornável, assumo que a inteligência é quase sempre indirectamente maculada pelo facto de, por estereótipo, se considerar que uma mulher bonita tem o cérebro mirrado, talvez porque o sangue não o irrigue convenientemente, tão disperso está pelo comprimento das pernas deslumbrantes.

 

A beleza, sobretudo a feminina, é não raras vezes um entrave ao sucesso muitas vezes garantido ao homem sem que este dê provas de qualquer capacidade para o merecer, porque impulsiona e eleva as expectativas depositadas no feminino, colocando a fasquia de tal forma alta que a falha pode ser inevitável.

 

De uma mulher bonita espera-se que prove, com maior grau de exigência, a sua competência, eficácia e inteligência. Parte-se vulgarmente do princípio que a loira platinada, de corpo digno de figurar no catálogo da Vogue, vertiginosamente atraente e ondulante, não pode ter o cérebro povoado a não ser por futilidades e métodos de fisgar um milionário. A loira burra, com todo o seu esplendor e perfeição anatómica, é quase sempre objectificada, considerada um troféu ganho pelo macho ou, na melhor das hipóteses, a protegida do Presidente. Terá de dobrar o seu esforço para solidificar o lugar que ocupa e provar que pensa.

Parte deficitária.

 

Para ilustrar o dito - e reconhecendo que a juventude/velhice são premissas de importância capital  no conceito actual, e ocidental, de beleza - recorramos a duas ilustres senhoras de um tempo já ido para não melindrar ninguém:

De Carla Bruni não se esperava nada, a não ser que subisse os degraus do jacto privado com os rasos sapatinhos Prada, que miasse de quando em vez e que cruzasse os pezinhos como bailarina bem comportada na presença de Sua Majestade Isabel a segunda. Embora seja evidente a inteligência astuta e poderosa da modelo, terá de se esfolar dolorosamente ou apresentar ao mundo um renovador tratado de filosofia política para se tornar credível. De Manuela Ferreira Leite não nos espantamos que tropece na subida, sapatos pelo ar e saiote desfraldado, com todos os tratados comunitários e estudos económicos agarrados aos dentes, porque a inteligência não colide com a beleza e portanto não nos permitimos duvidar da sapiência da ilustríssima senhora.

 

Evidentemente que se pode e deve contornar este percalço estereotipado.

Uma mulher inteligente jamais abdicará do facto de ser considerada bonita. Usa-o.

 

Os homens podem desbravar caminho abdicando dos seus princípios ou de irrepreensíveis comportamentos éticos. O Presidente Executivo da Empresa pode ter sido um sacana, um pulha e um patife ou ter bebidos uns copos com as pessoas certas no seu percurso até à liderança e ser reconhecido pelos pares como aquela criatura invulgarmente inteligente que soube atingir o topo à custa de muitas feridas que lhe ensanguentaram as mãos. A Presidente Executiva da Empresa se for ao mesmo tempo um modelo de Dior é, muitas vezes, a cabra que dormiu com toda a gente.

 

Partindo deste pressuposto, a mulher inteligente reconhece que a Beleza não pode ser asfixiada em nome de um estereótipo com origem no entendimento masculino do universo. Usa - e tem obrigação de o fazer - o fascínio que é capaz de produzir com a mesma eficácia com que os homens se esventram com um Power Point elaboradíssimo que aniquila a concorrência.

 

A beleza feminina é uma arma poderosíssima ao serviço da inteligência. Ninguém mentalmente saudável  inutiliza, ou despreza como reprováveis, os dados favoráveis que possui e com que pode jogar na vida.

Se o vislumbre do soutien que protege a beleza insuperável consegue defender aquilo que consideramos justo bem melhor do que a catrefa inútil de gráficos coloridos que serão ignorados por completo, que se prenda então a papelada imprescindível à renda de uma alça.

 

Ganhamos nós, mulheres, e ganha a Empresa.

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A Gaffe sem óculos

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.16

Jon Whitcomb.jpgTodos os banqueiros portugueses possuem uma característica comum imprescindível para que sejam reconhecidos.

Usam óculos na ponta do nariz.

 

Não são óculos normais. Trazem um dispositivo que lhes permite o alongamento das hastes de modo a que nunca deixem a sua posição de equilíbrio à medida que o nariz se vai alterando.

A ponta do nariz dos banqueiros portugueses, falidos ou não, é essencial à sua performance perante as comissões parlamentares e na apresentação de resultados dos bancos que lideram. Pousam as lentes ali, inclinam ligeiramente a cabeça para baixo, pousam os olhos nos apontamentos que trazem, de cantos da boca descaídos, cabelo brilhantina, punhos adornados e gravata regimentar, para depois erguerem as pupilas deixando um imenso espaço branco leitoso ao serviço da intimidação.

De pupilas a espreitar por cima das longínquas lentes, adquirem o aspecto de quem foi possuído por Belzebu, mas que o dominou e o colocou ao seu serviço, pronto a descarregar matéria esverdeada sobre a reverente plateia. A ameaça normalmente é cumprida.  

 

Os óculos na ponta do nariz têm a mesma função que um estetoscópio a fazer de cachecol. Convence. Podemos vaguear em qualquer hospital, tornarmo-nos anjos da Morte, assassinos psicopatas de sangrenta seringa em punho, assobiar Kill Bill nos corredores das enfermarias, sacar os sacos de ostomia para os vender no mercado negro como carteiras Prada, traficar órgãos e drogar a equipa de cirurgia com anestésicos que surripiamos ao paciente, desde que usemos bata branca, estetoscópio enrolado no pescoço e um ar gelado de quem saiu da morgue há pouco tempo. Se usarmos óculos na ponta do nariz, somos banqueiros e se acrescentarmos a morgue à equação, para além de podermos fazer exactamente o mesmo, arranjamos sempre modo de driblar a maçada das contas sem nunca termos tido conhecimento de qualquer assunto menos nobre.

 

Quando for grande a Gaffe não quer usar óculos na ponta do nariz. Não tem nariz para tal. Prefere apresentar os sorteios dos jogos da Santa Casa num canal de televisão. Apesar de se ficar verde com o reflexo do painel de fundo, de exigir uns bons dez minutos por semana de excelsa criatividade, é muito menos cansativo e as bolinhas a subir compensam a falta de visão.

 

Ilustração - Jon Whitcomb    

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