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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe "esparranchada"

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.16

 

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Há uma expressão, usada no Douro, que descreve de modo certeiro aquilo que me aconteceu: esparranchar.

 

Eu esparranchei-me.

 

Ontem, chegada ao Douro, congeminei um tarde bucólica, repleta de pormenores diáfanos e campestres, no exterior ajardinado pelo Outono.

Depois de quase ter sido colhida por um touro bravo - e não adianta tentarem convencer-me que aquilo era apenas uma vaca a olhar-me de esguelha; - depois de ter tentado dar uma traulitada com um galho seco nos dentes do granizé psicopata - e não adianta dizerem-me que o animal é indefeso, porque de fraco o galináceo tem apenas o tamanho; - depois de me ter lambuzado com leite-creme - e não adianta segredarem-me que devia ter mais cuidado com as minhas maneiras, porque só me dá prazer saborear a doçaria se sentir o açúcar a besuntar-me o queixo; - depois de ter procurado a minha irmã para um fim de tarde intimista e a ter encontrado mergulhada no portátil, de telemóvel em punho, de nervos esticados e olhos de assassina - Não. Agora não. Vá brincar com o ... gado; - depois de tudo isto, decidi pesquisar os recantos ainda ilesos desta casa.


Encontrei a porta e abri.

Tão simples como isso.

 

Havia uns degraus de madeira por encerar, uns objectos de lata pendurados na parede, numa trave de madeira, e depois o escuro.
Agradam-me as caves. São silenciosas, albergam sempre segredos e velharias interessantes e tornam-se óptimos locais para uma rápida sessão de espiritismo.

 

Os primeiros degraus foram difíceis, porque trazia a luz de lá de fora, mas foi por causa do quinto que me esparranchei.
O pé fugiu e, numa procura desesperada de equilíbrio, agarrei nos tachos pendurados e com eles desabei escada abaixo.
Contei com o rabinho como amortecedor e é um mistério ter aterrado de pernas para o ar, de cântaro de medir feijões na mão esquerda, um almude de lata agarrado à outra e de pernas abertas no espaço a abençoar a escolha das cuequinhas que fiz logo de manhã. 
O alarido deve ter sido medonho, porque ouvi os tacões apressados da minha irmã a massacrar o soalho e o bigode do Domingos logo atrás do ombro da rapariga espantada.


- Então a menina caiu?! - pergunta o senhor sem o mínimo vestígio de preocupação, muito atento à minha lingerie.
- Não! - irrita-se a outra menina -  a minha irmã costuma ficar de patas para o ar no fim das escadas de todas as caves que encontra pelo caminho. Um hábito dela. - A insensível maninha despacha o expediente e desaparece, demonstrando a sua completa indiferença pelo meu sofrimento.


Isto de nos esparrancharmos sem avisar primeiro o pessoal revela as faces mais cruéis dos outros e comprova que a única tarde bucólica que vale a pena é aquela que é passada em frente a um quadro de Poussin.

 

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