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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a blogar

rabiscado pela Gaffe, em 01.11.16

Ladislav Roller.jpg

 

O universo dos blogs - falo de blogs e não de páginas publicitárias - é de tal forma capaz de absorver, ignorando de igual forma, quer os que de vácuo se preenchem, quer os que procuram ter um rumo um bocadinho menos vazio.

                   

Blogar não é mais do que atirar pedrinhas ao lago e vê-las saltitar depois durante uns segundos. As ondas de impacto são de curtíssima duração e há que ter consciência do facto. É antes de mais uma espécie de acto narcísico de terceira categoria, destinado a apenas a ser uma montra mais ou menos exibicionista de quem considera que tem na mão aquilo que interessa realmente a uma razoável quantidade de gente. Perdemos a noção do quanto somos insignificantes e deixamos de perceber que, se temos coisas para dizer que consideramos razoavelmente importantes, mas restritas e destinadas a um público específico e bem estudado, o deveremos fazer tendo esse mesmo público, motivado e vocacionado, na nossa frente e disposto a transformar-se no receptor do que é dito ou, em alternância, um público que sabe de antemão aquilo que vai encontrar nos nossos escritos e deles espera complementos. De outra forma, acabaremos a pardalar, ou seja, a falar para os bonecos que colamos na barra lateral.

Os blogs são apenas poeiras, porque demasiado soltos e temporalmente irrisórios, porque depósitos de palavras efémeras com o tempo de vida igual ao de um post.

Combinações sucessivas e ininterruptas de 0 e de 1. 

 

É estranho, tendo estes pressupostos bem visíveis, verificar que há criaturas que transportam a vida inteira para dentro do blog que fizeram nascer e que criam com desvelo maternal, encarando-o com a maior das seriedades, fornecendo-lhe uma importância desmesurada, capaz de transformar um balir inocente num rugido de leão, defendendo - à custa tantas vezes da decência, da elegância ou da inteligência, - as mais disparatadas teorias ou as mais absurdas das obsessões, disparando mísseis de defesa contra as investidas dos comentários menos amáveis que surgem a macular aquilo que é tido como a vida toda incendiada num ramalhete de frases.

 

                     
A ideia que me surge, para contrabalançar, é desatar aqui a falar de sapatos de tacão agulha. Como o beringela de um Pantone actualizado, usam-se muito agora e jamais serão efémeros. Pertencerão sempre, junto das jóias Chaumet, ao guarda-roupa essencial daquelas mulheres que opostas a mim não têm blog. Arrisco apenas ser contactada pelo Louboutin.

 

Foto - Ladislav Roller - 1939

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