Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe adornada

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.16

As mulheres adornam-se desde tempos imemoriais. Os objectivos são inúmeros e as razões variadíssimas. Ciclos de fertilidade, etapas de crescimento e de maturidade, ritos iniciáticos ou ondas de sedução, religiosa ou pagã, tornaram o corpo, preferencialmente o feminino, num palco de excelência.

 

Neste metamorfosear de fascínios, a arrogância masculina chamou a si a possibilidade de o adorno ser a homenagem da mulher que se objectifica através do somatório de atavios, marcas, signos, enfeites ou adereços, submetendo-se à capacidade de domínio do macho, contrariando a mais habitual forma de seduzir das outras espécies em que é o macho que se enfeita.

 

Na esmagadora maioria das vezes, esta certeza é um dos masculinos momentos de ilusão, porque não tem em conta que se nós, raparigas, sobre o corpo colocamos os mais extraordinários signos de beleza, fazemo-lo sobretudo porque a nossa pele exige que nela sejam depostas todas as jóias que inventamos.

 

Adornamo-nos sobretudo para nós. O resto são despojos. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na sombra do rio

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.16

banco.jpgPor entre as árvores, os limoeiros vergados estalam com o peso do perfume.

A seu tempo explodirão mimosas nas alamedas e as sardinheiras de Espanha nas margens da cisterna.

As hortênsias azuis, enxofre e cobalto, rebentarão redondas, gigantescas nos sopés da escadaria principal.

Os jarros, de imaculada cor, copos virgens, adormecidos na presença alva do sossego.

As rosas tornarão agarradas as videiras. Possíveis de imolar na vez das uvas. Sinais de alerta rubros e bravios.

As beladonas decadentes nos frisos de granito da janela. Mortas, as flores e as portadas, as tombadas guilhotinas das janelas.

As cores invadirão a casa, reféns do vento, cativas, secretas dentro da sombra do rio que as ignora.

 

Depois as árvores.

 

As que preservam os braços invadidos por lâminas verdes e castanhas e as outras, de uma nudez retorcida que angustia.

Ao longe, mesmo ao fundo do caminho, os dois teixos medonhos, centenários, mergulham as sombras na planície da água que inverte a paisagem, invertendo os tempos, os compassos de espera em cada batida do meu coração.

 

À janela do meu quarto, a luz vem frouxa. Trepa coada pelo rio que avisto. Há água nas pedras e nos sinistros braços dos anjos corrompidos de asas mergulhadas no lago onde peixes vermelhos mordem os segundos.

 

Esta é a romântica peçonha, a ogiva do desterro e o inexplicável aninhar do esplendor sombrio.

Este é o lugar do tempo à espera, inexoravelmente recolhida, inalterável, transformada em terra.

 

Existe junto à água deste rio um banco de jardim abandonado. Diz a gente que era ali o lugar onde passava o tempo longe, o rapaz esguio, de linho, pés descalços, de palavras raras, sem sorriso.

Sentava as tardes nas sombras, sorvia a frescura como dele fosse a luminosidade húmida das águas e fazia rolar por entre os dedos o destino da terra, como é rolado um terço e ele uma oração repetida em surdina.

O banco de jardim deixou de o ver há muito.

A água às vezes toca-lhe a madeira. Nessas alturas das marés de um rio, o banco do jardim abandonado volta a sentir a lonjura triste do rapaz que passou pela vida como se a vida fosse sombra num jardim ou a oração rolante deste rio.

 

No entanto, por entre as outras árvores, os limoeiros tombam de perfume.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD