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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe americana

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.16

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A Gaffe ao volante

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.16

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É conta-corrente que os homens compensam o que a natureza lhes negou, com objectos que nos confundem, não só como o tamanho, mas também com o brilho.

 

Sabendo nós que há demasiadas vezes mais fumo do que fogo, podermos esperar diamantes dos rapazes que necessitam de boxers do tamanho S, mas com contas bancárias inversamente proporcionais aos seus atributos, e percorrer as capitais europeias - as que valem a pena ser percorridas, - de cabelo solto e Hermès a esvoaçar - sempre com o cuidado extremo para não imitarmos desagradavelmente Isadora Ducan, - num bólide de outro mundo.

 

Meus queridos, nós, melhor do que ninguém, sabemos que o tamanho conta e, por muito que se diga, a magia não depende só do modo como é, muito embora agilmente, praticada. Por isso, meus caros, encontrem forma de parar à nossa porta com luvas de sonho agarradas ao volante de uma nuvem de metal.

 

Prometemos não reclamar e telefonar às amigas, passando de mão em mão as pequenas mudanças com que nos brindais.

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A Gaffe adocicada

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.16

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Na minha memória há aromas adocicados.

O cheiro das beladonas da minha infância que escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de cheiro já com corpo. No entanto, é uma memória morna que protejo, que mimo e me que faz parar os olhos de repente.


As beladonas a crescer, cor de carne pálida, rosada. Perigosamente a crescer nos canteiros das janelas do andar de cima. Perigosamente afastadas dos parapeitos.

As pedras, o começo dos estames, a parede branca.

 

As minhas mãos miúdas não apanhavam nunca beladonas e o desejo de as ter, de lhes esmagar o caule lancetado, perto da ferida que lhes fez o corte, vinha drogar-me sempre que as via. Subia ao último andar, abria uma janela e deixava que o cheiro quente e enjoativo me lambesse a cara. Mastigava-o depois, como se fosse carne. E debruçava-me. Sentia os pés separados do chão e os músculos da barriga a doer esmagados contra o parapeito. O corpo oscilava e com pequenos solavancos, imperceptíveis impulsos, forçava-o a aproximar-se das flores.

 

Nunca arranquei nenhuma. Surgia sempre alguém, pálido, de dentes cerrados e olhos desmesuradamente abertos, que as cortava por mim, depois de me segurar pela cinta e me colher.

 

O acesso àquele quarto foi-me proibido. Havia ficado sete vezes setenta vezes com a cabeça virada para o abismo, quase a pairar, acima da terra, e não tinha asas. Setenta vezes sete foram os perigos que largaram desfraldados para me assustar. Sete vezes setenta foram os perdões com que me agraciaram, chorando às vezes, agarrados ao meu corpo salvo, gritando outras, abanando os meus ombros pecadores. As beladonas continuavam a rogar por mim. Mal elas floriam e abriam a carne do seu cheiro, o meu corpo oscilava no parapeito das janelas. A proibição inevitável de entrar no quarto do pecado arrastou uma consequência imprevista: a consciência da intransponibilidade dos meus abismos, que, lá dentro, vagamente longe, vagamente nada, transparentes, se iam tornando cada vez mais um acenar breve de vento manso que nos corredores escapa quando se abrem duas portas paralelas.

As beladonas passaram a ser lancetadas sem mim. No jarro da entrada, inchavam de perfume e apodreciam.

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