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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem pressa

rabiscado pela Gaffe, em 11.11.16

Uma rapariga esperta e cosmopolita odeia correr.

 

A Gaffe não se refere a atletas, como é evidente. Fala das urbanas elegâncias dispostas a sacrificar pontualidades se estas implicam distorcidas corridas pelas avenidas das cidades usando uns deslumbrantes Jimmy Choo.

 

Os rapazes estão libertos desta aversão.

 

Há, no entanto, alguns requisitos a ter em consideração.

Um homem pode sentir-se desesperado com o atraso que traz, esbaforido, esguedelhado, suado e de calcanhares a atingir o rabo, pode ficar arroxeado de tanto apertar o que só ele, exclusivamente ele, pode fazer, pode bater recordes de salto em comprimento para conseguir alcançar o avanço dos ponteiros do relógio, MAS não deve fazer transparecer e fazer-nos perceber o que se está a passar.

 

A pressa, a velocidade com que se luta contra o atraso, devem ser minimalistas.

 

Não se admite sobrecarga de peças inúteis. A viagem é sempre deslocação do essencial, nunca do acumulado.

Daí ser permitido a um rapaz esperto e digno de nos provocar, a nós, raparigas desprevenidas, atrasos incomensuráveis, apenas o uso de peças básicas, minimais, desprovidas de complexos dispositivos que amordaçam quem se quer olimpicamente apressado, fáceis de despir se a aceleração aquece e de apertar se no rosto bate a neve em Nova York.

 

Correr a favor da pontualidade não é o mesmo que sofrer as agruras do náufrago que tenta em desespero salvar manuscritos épicos. É um acto absolutamente racional e, como tal, meus caros, apresentem-se, se não for a horas, capazes de fazer com que se ignore o atraso.     

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