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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem Cohen

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.16

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Leonard Cohen prolongava sempre as minhas noites com uma das minhas canções predilectas, Dance me to the end of love, e sempre me paralisava de espanto com o belíssimo friso do poema:

 

Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love

 

Acredito que esta preciosidade não podia ser cantada a não ser por Cohen.  

Apesar de todas as palavras na incrível voz deste cavalheiro terem adquirido um poder sedutor incomparável, é neste pedaço de génio poético entoado por Cohen que a canção parece reflectir uma melancolia redescoberta em toda a sua obra, uma perfeita frase melódica dentro de dois braços finalmente encontrados, com a mais subtil desesperança ou a mais frágil das promessas enluvadas e quebradiças súplicas.

 

Cohen entregava à palavra um traço de incerteza, a mácula quase imperceptível do desassossego, a suspeita da condenação irremediável do abraço dos amantes que se prendem no enredo da melancolia e na vontade desesperada de acreditar que se pertence a alguém.

As canções de Cohen não são apenas e sempre uma declaração de amor, belíssima. São também o esconderijo do medo de o perder.

 

Talvez por isso a minha noite tenha agora acabado antes de lhe ouvir bater o coração prolongado.

 

Foto - George Brassaï

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A Gaffe dos "nomeáveis"

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.16

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É evidente que somos demasiado novas para recordar com detalhe a maravilhosa Sarah Palin, dona de um conservadorismo hipócrita e furado, a atirar para o obsessivo e fundamentalista, que colocava a assustadora hipótese de se tornar a primeira sopeira a ocupar o lugar de vice-presidente dos EU, caso MacCain fosse eleito.

 

Depois da derrota, Sarah Palin recusou-se a devolver o guarda-roupa -  Valentino para cima, - que lhe tinha sido temporariamente cedido. Tendo em conta que a senhora condenou veementemente o desperdício de dinheiros públicos em coisas como a investigação genética da mosca do vinagre, seria de esperar que quisesse poupar uns trocados nos trapinhos. Não é aceitável que se ande a subsidiar neerds que não ultrapassaram a fase do arrancar asas às moscas, mesmo sabendo-se que as pesquisas com o insecto já deram um prémio Nobel a Thomas Hunt Morgan em 1993 e ajudam a entender os mecanismos que levam ao autismo.

 

Pensávamos nós inocentes que Sarah Palin, pequena, toda enfeitada com uma data de Valentinos emprestada, tinha deixado de ameaçar causar danos na bolsa dos costureiros e no cérebro dos cientistas.

A senhora, que não perdeu o seu je ne sais quoi muito sopeiro e patego e todo o aspecto de nunca ter saído do Alaska a não ser para ir fazer umas comprinhas à cidade, ressuscita na lista dos nomeáveis de Trump ao lado de homens claramente racistas e xenófobos, como Newt Gingrich, Rudy Giuliani ou Chris Christie.

 

É natural que se pense que Trump apenas nos fará corar de vergonha alheia e que os dispositivos democráticos atenuarão os seus impulsivos e brutos desmandos. Ajuda a aceitar que um país que reelegeu Obama possa, súbita e praticamente sem explicação, entregar o voto ao seu contrário. Uma panaceia.   

É natural que se reconheça a derrota clamorosa da imprensa global, das baralhadas empresas de sondagens e mesmo a de Obama e que se assista a um estranho comportamento dos meio de comunicação social, falada e escrita, que anuncia a sua própria estupefacção. É mais fácil clamar contra as alarvidades explícitas e descaradamente assumidas de Trump do que enfrentarmos os muros que, sentados nos sofás dos nossos comodismos muito míopes, vamos vendo erguer - o de Munique tem quatro metros de altura e é justificado com a necessidade de evitar a poluição sonora causada pelos jovens refugiados. É mais seguro temer o que sentimos aparentemente longínquo, tentando, neste terror de papel, anestesiar o que nos agarra e castra, ao nosso lado.

Trump há muito que se instalou na Europa, só que os europeus sabem usar a faca e o garfo, que não se cospe para o chão quando há gente a ver e que não se apalpam as senhoras em público.

 

Talvez não seja assim tão estranho e inusual a ligeireza com que tentamos disfarçar a chegada ao poder de uma enorme turpe de canalhas, de sacanas e de parolos mentais. Olhamos para Trump escandalizados, finalmente escandalizados, com a brutalidade que encarna e que abranda a consciência emudecida daquela que é a nossa e acreditamos muito aliviados que, apesar de tudo, Sarah Palin não fala francês como Marine le Pen. 

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