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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de pechisbeque

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.16

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A Gaffe teme a aproximação da época da Paz, do Amor e das luzinhas tremelicando nas suas Avenidas desejosas de neve para poder cantarolar Bing Crosby, porque sabe que com todas as cançonetas entoadas pelo coro de Santo Amaro de Oeiras chegam as senhoras - lamentavelmente são raros os cavalheiros, tendo em conta o rapagão da imagem a tentar impingir o vasilhame - que nos esbardalham a paciência com coisinhas mimosas que elaboram no aconchego do lar, tudo feito à mão, tudo muito reciclado, tudo muito imaginativo, tudo muito fofinho e tudo muito porcaria.

 

Abancam no passeio das quermesses, mesinha montada e coberta com toalhinha bordada a ponto de cruz, espapaçam nos cantinhos da net fotos foleiras com legendas fofas e dizem que são artesãs e que a tralha que produzem com rolos de papel higiénico e cacos colados é artesanato.

 

Por muito sofrimento que possa causar, não são artesãs. São pechisbequeiras. Manufacturam pechisbeques.

 

O artesanato contém no âmago uma sabedoria inimitável - velha tantas vezes, - e impossível de se expandir e multiplicar como um piolho. É impossível ser separada do artista que lhe entrega a excepcional marca que o identifica, o torna único e reconhecível, tornando-se capaz de representar determinada colectividade. A joalharia, a teclagem, a cerâmica ou a cestaria são susceptíveis de se aproximar dos conceitos de Arte, porque incluem características específicas essenciais à mais objectiva e exigente análise de teor artístico.

 

Artesãs são, por exemplo, Rosa Ramalho, Júlia Côta, Júlia Ramalho ou Fernanda Braga, se quisermos escolher apenas oito mãos femininas. Pechisbequeira é a senhora que elabora esmerados macaquinhos porta-chaves de tricot.

 

Seria excelente que se percebesse em definitivo que considerar artesã uma pechisbequeira é o mesmo que considerar artesanato aquilo a que a moçoila saída de uma adolescência espigada faz - imbuída do desejo de permanecer por desflorar até ao casamento, - num recanto de uma noite mais esconsa, alapando-se no bando de trás da carripana do namorado, dedicando algum tempinho a trabalhos manuais. Por muito que custe aceitar - e não custa nada - a rapariga não é artesã, nem demasiado virgem. Faz pechisbeques.

 

Após ter passeado por aqui, longa e penosamente, a Gaffe acaba por embater com a douta MJ que em duas pinceladas certeiras resume o que demorou tanto tempo a rabiscar aqui. Diz esta rapariga - que a Gaffe adora, - que é moderno usar lixo para fazer decorações. O facto de ser pretensamente decorativo o que se produz, não deixa de ser lixo.

Após ter lido esta sábia sentença, a Gaffe acaba por concluir que esteve este tempo todo a rabiscar um pechibesque, mas admite - valha-nos isso - que o facto não a transforma em artesã. 

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