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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com pronúncia do Norte

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.16

Dolores Del Rio.jpgSem pedigree, sem cartas de recomendação, sem árvore genealógica para poder levantar a patita, sem vacinas e sem chip, o cachorrinho chegou embrulhado num cobertor macio com peixinhos estampados.

O amor à primeira vista é um facto incontornável. A paixão por aquelas patas grossas, pelo focinho gelado, pelos olhos tristes, pelas orelhitas tombadas, pela neve manchada por rodelas toscas de castanho dourado, é imediata e assolapa-nos o coração que parece ter sido invadido pela onda de um tsunami de ternura.

Vem triste e assustado e com saudades, mas, beijoqueiro, adopta a minha mãe que não resiste a uma entrega tamanha.

 

Não tem nome.

 

A discussão estala, incendeia-se como rede social. Os palpites são como fogo de artifício na romaria da aldeia. Não há quem trave os amuos de quem vê rejeitada a sua escolha, multiplicam-se as portas que batem dentro de irritações patetas e esbardalha-se a paciência desta rapariga que sabe desde o início das tormentas o nome do maravilhoso pequenino.  

AVEC

É como se diz no Porto cão, em francês.

 

Na foto - Dolores del Rio

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Gavetas:

A Gaffe na sala das senhoras

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.16

1.90.jpg

A sala é minuciosamente feminina. Permaneceu imutável. Dali partiam as decisões que governavam a casa no tempo contínuo de mulheres. Com chávenas de chá e bolachas quentes de manteiga, as senhoras riscavam os destinos dos homens e nos bastidores eram bordadas as rotas e os trilhos que desenhavam no Douro as escadarias de terra.

É mantida intacta.

É a minha sala preferida. Limpa com um desvelo exagerado e quase doentio. Perfeitos todos os minúsculos detalhes, todos os insuspeitos cantos e recantos, todos os vértices e angulares esquinas, todas as boleadas superfícies dos objectos e os mais ínfimos, invisíveis, pormenores.

Nunca aquela sala permitiu ser masculina.

 

Lembro-me que entrei à procura da minha irmã que a reconheceu como o cérebro da casa e se aproxima da sensação de poder que ainda lá dentro lateja.

 

Vi-a.

 

Estava de costas para mim, imóvel, voltada para a janela.

Tentei sair sem fazer barulho. Sei que não devo estilhaçar os silêncios escolhidos por aquela mulher que sempre os teve múltiplos. Foi no instante em que rodei o corpo, em que senti que ia conseguir apagar na sala a minha entrada, que a ouvi de manso, sem se mover ainda:

- Às vezes não sei quem sou.

Fiquei parada e muda. A sala enorme e eu tão breve e tão pequena.

- Às vezes não sei quem sou - insiste - nem sequer sei que imagem tens de mim.

Continua de costas para mim e eu calada e queda. Vejo-lhe o cabelo liso e loiro e amordaçado por um gancho largo e inusual, as calças justas presas nas botas pretas com orla de couro castanho, o casaco de fazenda parda com reforços ovais nos cotovelos e o aflorar quase imperceptível do lenço castanho amarrado ao pescoço.

 

Que imagem tenho eu dela, se perto dela nem de mim eu sei?

É imutável como aquela sala e ao mesmo tempo a pedra contra os vidros.

É o contraste brutal, um confronto aberto com os espaços, a imagem que me chega desta mulher. Como se fosse pedra arremessada contra a superfície dos cristais, como se fosse um paradoxo, desarmonia e erro. Incerta em cada canto, em cada sítio. Errada em cada sala que ela invade.

Ali, de costas voltadas para mim, destrói propositada o feminino que a envolve. Destruirá da mesma forma outros espaços, porque é nela que os espaços se resumem. É por ela que os vemos, que os sentimos, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio, como se nada houvesse ou tudo fosse nela.

Há gente assim. Quase perfeita. 

 

- Às vezes não sei quem sou.

 

Ouvi-lhe o lamento na sala das senhoras, imóvel, de costas voltadas para mim e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz chegava de outras eras, repetida.

 

Mas a sala é minuciosamente feminina. Tudo está certo. A casa cuidará da sua dona.

 

Imagem - Nicolaes Eliaszoon Pickenoy Retrato de Jovem Mulher (detalhe), 1632

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