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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com cera

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.16

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Se há espinhos que me esbardalham os nervos, um deles é mania de sermos sinceros.

 

- Eu sou sincera: o teu cabelo parece que andou na II Guerra e que ainda não sabe que a tragédia acabou.

- Eu sou sincero: o teu gabinete parece um ninho de ratos.

 

Quem vos pede sinceridade se não há nada agradável para dizer?! Não sejam sinceros nessas alturas. Calem-se. Podeis acreditar que não existe nada de transcendente naquilo que pensais acerca do universo e que também não há nada no universo que se interesse grandemente pelo que pensais.

A vossa sinceridade é dispensável, porque ninguém dá um pico por ela.

 

O mesmo se aplica em relação ao devemos tentar ser sempre nós próprios  - há quem diga nós mesmos, mas as expressões são equivalentes se o objectivo for irritar-me. Seria um consolo se Estaline tentasse ser outra coisa que não ele próprio. Seria bem mais sossegado se Jack o Estripador tentasse não ser ele mesmo de vez em quando.

 

Eu sou sincera: fico enervada quando sou eu própria e muitíssimo mais quando sou eu mesma.

 

Nota de rodapé - A palavra sincera pertence ao Renascimento. A estátua de mármore com fissuras levava cera, disfarçando os erros. A perfeita era sin cera.

Achei engraçado referir.

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A Gaffe infantil

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.16

 

Há dias ouvi contar um episódio que me comoveu.

Um puto minúsculo passeia pela mão do pai e encontra, a dormir num banco de jardim, um rapazito sem-abrigo. Pergunta ao pai se o podem levar para casa.

O homem explica-lhe a impossibilidade de acolher o rapaz. São justificações que qualquer adulto encontra para validar a negação. Vão desde o facto de se não saber se a criança tem pais, até à possibilidade de o miúdo recusar. Acabam todas por ser embaraçosas e vergonhosas perante os contra-argumentos do filho - se dorme na rua, não tem pais, há uma cama vaga em casa, é melhor dormir num colchão do que em cima de madeira e é fácil ter um pequeno amigo novo dentro de casa que não provocará rombos significativos no orçamento burguês.

 

Não interessa o final desta quase parábola.

 

O que me comoveu foi o facto de ter percebido que é a infância que tem as soluções mais simples, mais eficazes e mais correctas para os conflitos e dilemas que se vão erguendo e aglomerando com o avançar do tempo.

Nada se tornaria mais equilibrado se uma visão infantil partilhasse a procura da resolução dos buracos negros socias e das guerrilhas de consciências adultas.

Confesso que no que diz respeito à petizada, não sou pessoana, mas reconheço que é nestas criaturas que se encontra a maior simplicidade ou a mais eficiente e eficaz das soluções.

 

Crescer, amadurecer, adultecer, tornam-nos labirintos de desculpas.

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