Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no evento

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.16

1.jpg

Realizou-se, perto do meu apartamento, uma espécie de dinamização cultural toda moderna.

 

Não a podemos confundir com uma acção de produção cultural. É louvável e acredito que evoluirá de forma considerável, expandindo o seu alcance, libertando-se, se caso for esse o seu objectivo, da habitual feirinha de artesanato urbano, banal em qualquer estação e apeadeiro de Verão.

Há, no entanto, uma condição comum a um dinamizador cultural e a um produtor de cultura. Ambas as situações terão de obedecer a um parâmetro implícito na própria definição, noção ou em qualquer conceito de Cultura que seleccionemos. Se o que se realizou reivindica um destes estatutos e se pretende afirmar-se como elemento activo na projecção e enriquecimento de uma determinada comunidade, por muito restrita que seja, terá sempre de orientar as suas acções sob a alçada de um denominador comum: o respeito pelo outro.

 

A capacidade daquilo que foi dinamizado por um grupo de jovens de alterar, tornando mais dinâmica e evolutiva a pacatez possivelmente exagerada de determinada rua, provocando ou apenas possibilitando uma faceta lúdica até aqui inactiva, obrigando-a, dentro das limitações compreensíveis, a ouvir, ver e sentir o que até ao momento ignorava ou esquecia, quebra-se e torna-se medíocre e estreita, quando este objectivo se confunde com uma demonstração de irresponsabilidade cultural, consequência dos actos de desrespeito pelo outro, consubstanciados no abandono desleixado e porco de final de festa adolescente que ignora por completo que um indivíduo pode ser até completamente indiferente ao que se passa no local onde habita  - isto sou eu, dizem eles, - não perdendo por isso o direito a ser respeitado, a emitir opinião ou a reivindicar sossego, civismo, silêncio e a não ser insultado com uma data imensa de lixo que não foi recolhido pelos catraios que o produziram.

 

dinamização cultural, esta e qualquer outra, tem obrigação de se preocupar com a porcaria que larga no fim da sua actividade, incorrendo, se não o fizer, naquela espécie de iniciativas que visam apenas fazer sorrir a sobranceria muito pouco cultural dos miúdos que se divertem numa ilusão de cultura e que acreditam, de forma enganadoramente ousada e bastante adolescente, que trazem ao povo o Santo Graal, entregando as consequências menos dignas ou nocivas desta iluminação a outras entidades.

 

Não há, em nenhuma circunstância, qualquer justificação para o desrespeito. Dinamizar determinado espaço não iliba o actor da acção de cuidar da pegada que fica posteriormente ao acto.

 

O lixo abandonado no final desta treta com sabor a hippie é, sem sombra de dúvida, o menosprezo por aqueles que, em princípio, são os destinatários deste mesmo evento e torna uma atitude cultural numa medíocre demonstração de uma espécie de estreita consciência cívica, de eufórico caos adolescente que, em nome de uma pretensa dinamização cultural, escondem um deleite egoísta e exibicionista que incorre no erro de se considerar ilibado das responsabilidades geradas pelas suas manifestações.

O lixo, desconsideração, desatenção, desdém e desprezo que ficam depois do palco encerrar, apodrece mesmo em cima deste tipo de iniciativa.

 

Resumindo:

Este é um post lixado que me faz apetecer desatar à estalada a qualquer coisa que dinamize desta forma seja o que for.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe a envelhecer

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.16

A Gaffe estabeleceu que o seu envelhecimento seria de cinco em cinco anos, ou seja, fez 20, 25, 30, fará 35, 40 e por aí fora, se chegar a idade tão provecta.

As idades intermédias não contam. São períodos de aprendizagem que apenas se solidifica se entre eles deixarmos intervalos de tempo razoáveis.

 

Posto isto, fica claro que a Gaffe não tem a idade certa para se tornar uma eremita - coisa em que se transformará aos 85, - mas também já não consigue andar por aí a abanar pevides por entre a multidão.

 

Está naquilo a que se poderá chamar limbo, que, segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, é um lugar fora dos limites do Céu onde se vive a plena felicidade natural, mas privado da visão beatífica de Deus. O Céu estará, de acordo com esta linha de pensamento e com a de Judy Garland, algures no início e no fim do arco-íris. O entremeado é o limbo e não dá direito a ida ao cinema nem à visão de faces beatíficas.

 

Isto de envelhecer aos soluços tem que se lhe diga. O tempo custa a passar e sobe-nos à garganta a sensação do vácuo existencial sempre que nos perguntam a idade. No entanto, aprendemos, nos intervalos da chuva, a perceber que o que é aborrecido não é passar a vida a soluçar, é arranjarmos uma embalagem de lenços de papel em condições, para limpar o muco e as lágrimas - de choro e de riso - que nos encharcam o chão que vamos pisando.

 

A nossa vidinha nunca é tão boa, nem tão má como pensamos. Vivemos nos intervalos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD