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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe livresca

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16
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Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado e atado, é apenas importante porque o foi no passado.
 
Vou levar comigo livros velhos de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a mofo.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.

Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, exactamente como os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.

Esse não vai.

Vão os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

 

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

 

Sei que os livros que ficarem se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me deixar para trás os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono.

 

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

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A Gaffe navegante

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16

Nigel Cabourn.jpeg

 

Os homens chegam de vidro do fundo da tarde dos insectos, com sangue de frutos na camisa. Descem os caminhos com a mão na terra. Lavam o silêncio para ser entregue à turva obscuridade dos rapazes feridos. Pousam na madeira a cor dos peixes ou dos olhos rasos no ninho das águas ou na ardência do mordido. Há uma nuvem a escorrer da boca dos homens. O sabor da sombra na boca ou apenas sombra sem boca nenhuma. Os homens chegam ao falar das pedras que rezam a longevidade das raízes. Depois ouvem o rumorejar da maré-alta e do sargaço. Trazem lenços escarlates no vento do parapeito das bússolas. Entregam-se à água e contam as contas que o mar tem nos colares da lua. Trazem ondas nos cabelos e sorrisos vermelhos cobertos pelo vento com saudade do mar.

Na barca dos homens há um peixe com sabor a fruta e rapazes feridos a morder as águas como um remo.
Amanhã o mar será colhido verde por rapazes feridos por escamas.  

 

Foto - Nigel Cabourn por Yves Borgwardt

 

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