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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe aracnofóbica

rabiscado pela Gaffe, em 08.12.16

Cardio

Matei uma aranha.

Pequena, mas gorducha, presa por um fio ao meu sapato.

Ainda pensei salvar a pobre colocando-a em lugar seguro, mas imaginei-a adulta, gigantesca, gorda, peluda, de pernas musculadas, olhos negros, fixos, e quelíceras ameaçadoras, pousada na minha almofada à espera do meu acordar e de me ver esbardalhada no tecto, aos gritos.

 

Matei-a.

 

Depois senti remorsos e um ligeiro receio oriental de karmas pouco lisonjeiros, mas o assassínio estava cometido e há muito que deixou de haver hipóteses de se repetir o episódio de Lázaro.

Como diria um amigo: andar, que se faz tarde.

 

Este macabro episódio faz-me saltar à ideia a forma como por vezes aniquilamos os inícios, sobretudo os que se esboçam quando encontramos alguém significativo pelos caminhos que resguardamos dos outros.

Normalmente receamos o estado adulto de uma relação que implica uma serenidade e confiança que nos habitua ao silêncio mútuo sem qualquer constrangimento ou então temos medo que envelheça, eternamente adolescente, massacrando-nos os dias com emoções que os estudiosos dizem ser primárias e que identificamos como ciúmes, posse ou desconfiança com alicerces no inseguro, na instabilidade emocional ou na imaturidade pura e dura.  

 

O nosso coração tem o desagradável vício de bater afastado da lógica e, muitas vezes, quando o amor se levanta, a razão fica de joelhos.

 

O receio de ficarmos em coma induzido, sem qualquer controlo da vida que deixamos entretanto de sentir como nossa, porque acaba pertença do indivíduo que detém a máquina sem conhecer os ditames do nosso Testamento Vital, provoca a agressão ao que começamos a experimentar. Temos medo, não só de sofrer a anulação do que somos, mas também de sentir que a certeza do fim está implícita em tudo o que tem começo.

 

Estes receios, aliados a tantos outros que estão apensos a cada um de nós, não sendo comuns à multidão, transformam-se no sapato que esmaga a gentil aranha ainda bebé.

A fera peluda e negra que imaginamos pousada nas travesseiras com que almofadamos a vida é por antecipação morta ou, quando surge presa ao sapato de gente com um coração melhor que o meu, deportada, ainda que apenas ameaça imaginária.

Somos quase sempre cagarolas. Sentimentalmente aracnofóbicos.  

 

No entanto, e para se vingar, a vida entrega-nos o paradoxo de ao mesmo tempo desejarmos que a dura nudez da razão ilumine a ténue teia do irreal que vai prendendo os nomes que esvoaçam nos nossos corações.  

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