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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no balneário

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.16

ginásio.gifA Gaffe foi convidada para um jantar de negócios com o mano.

 

Não foi a sua primeira escolha, mas a enxaqueca da irmã – mais enxa do que outra coisa – impediu-a de se fazer presente e de endrominar um casal de idosos ingleses que decidiram recuperar um casarão no Douro e fazer de conta que são viticultores.

 

Estaciona o carro perto do ginásio onde o rapagão completava coisas que fazem suar imenso e espera.

Espera até lhe começar a doer o cashmere trench coat – estamos a falar de ingleses, convém treinar -, que usa depois de chantagear a dona. Sente-se enregelada, já que se recusa a ligar o aquecimento do carro, porque para além de ficar enjoada não sabe onde, nestes carros moderníssimos, o tubo do calor desemboca e receia respirar qualquer coisa desagradável … ou coisa que o valha.

Sai atordoada pela impaciência, já com o bâton misturado com a espuma da fúria e tenta empurrar a porta de entrada no ginásio com o glamour que sobreviveu à intempérie.   

 

 - Ah! ... Ainda está a fazer a aula.

 

Deve ser dito que fazer a aula é das expressões mais irritantes que a Gaffe conhece. Aliás, fazer o que quer que seja incomoda-a muito. Descalça a luva, toca no cabelo que para pentear em banana custou mais do que duas horas de desespero ao seu querido Miguel, traça o casaco com um ar de diva ofendidíssima e recomenda:

- Não se importa de ir lá dentro recolher os ingredientes. O homem já fez a aula, garanto-lhe.  

A mulher, de unhas de gel e fato de treino, com um carrapito oxigenado ligado directamente ao cérebro por onde emitia ondas electromagnéticas que se sentiram hostis, vociferou:

- Entre você se está com pressa.

Foi um erro pensar que a Gaffe desistia perante a ameaça de testosterona aos pinchos e a fazer alongamentos.

 

Entrou fazendo os possíveis por parecer Ava Gardner.

 

Uma doentia humidade quente atacou a leveza dos seus passos. O seu cabelo domado ganhou vida e num instante sentiu-o a encaracolar, a encarapinhar, como a juba da Barbie que a sua infância levou para o banho decidindo depois, para a secar, usar um secador na potência máxima; o seu casaco colou-se ao corpo com a pressão atmosférica e quem visse diria que pilotava um caça a uma velocidade hipersónica, porque sentia a cara toda distorcida. Escorregou no pavimento, mas esse pormenor ficou agarrado às paredes.        

Recompos-se. Uma rapariga experiente sabe que entrar em pânico faz suar e é fatal.

 

Abriu finalmente a porta que lhe daria acesso à sala onde a besta bufava.

Deu consigo no balneário.

 

O que viu não é aconselhável uma rapariga de boas famílias. Não é propriamente recomendável - mesmo não sendo desagradável de todo -, uma menina ter uma data de pilinhas espantadas a olhar para ela, que nem sequer tem à mão uns óculos escuros.

 

Uma situação absolutamente embaraçosa para os rapazes.

  

No meio do nevoeiro e depois de uma análise breve, mas muito profícua, do meio ambiente - enunciará em breve as conclusões a que chegou -, avista o maninho também com a pilinha a olhar para si e finalmente compreende o clube de fãs que este rapaz conseguiu povoar. 

Se Ava Gardner não hesita, esta rapariga também não. Avançou determinada, sorriu polidamente para os conhecidos e para as desconhecidas, agarrou no saco do mano com a desenvoltura das ginastas, voltou a sorrir e:

- Convém que te despaches. Eu já levo o saco para poupar tempo. 

Não foi brilhante, mas também não se pode exigir Shakespeare nas situação em que se contracena com pilinhas.

Saiu quase a desmaiar e a abanar-se toda com a luvinha e a suspeitar que desta vez o calor que sentia não era o do ginásio.

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A Gaffe não faz a mínima ideia

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.16

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Mais irritante ainda do que a sacramental pergunta masculina que abre o frigorífico disparada:

-  sabes onde puseram o queijo?! - quando o queijo está ao lado da manteiga, a enfiar-se nos olhos do homem que conseguiu encontrar os mais inesperados microrganismos, mas que é cego quando se trata da mais banal das bolas vermelhas limianas sossegadinha a faiscar como um alarme dos bombeiros, é a toalha de banho molhada pousada no chão ou, pior, em cima da cama.

 

A primeira situação resolve-se com a resposta que pode ser usada em todas as dúvidas existências que o rapaz decide partilhar connosco:

- Não faço a mínima ideia.

 

A segunda torna-se ligeiramente mais complicada.

 

A tolha, por muitas voltas que demos, permanecerá atirada a um canto ou a encharcar o colchão.

Há naturalmente que arquitectar modos de solucionar o problema.

O mais simples é deixar apodrecer o caso. O cheiro a mofo terá repercussões no nariz do rapazinho e, cedo ou tarde, seremos confrontadas com a pergunta habitual:

- Sabes onde puseram aquelas coisinhas que se queimam para perfumar o ambiente?

- Não faço a mínima ideia.

 

Caso as coisinhas nos tenham enjoado da primeira vez que foram queimadas e as tenhamos assassinado e escondido os cadáveres, é aconselhável optar por um método mais rápido. Assim, basta que deixemos a toalha ao abandono até percebermos que o criminoso se prepara para o banhinho seguinte.

Retiramos e escondemos a de rosto e enfiamos na máquina de lavar a negligenciada. Deve permanecer a do bidé, caso exista.

Afastamo-nos até ouvirmos tremelicar:

- Sabes onde puseram a toalha de banho?

- Não faço a mínima ideia.

 

Aguardamos pacientemente até surgir à nossa frente um pintainho com as peninhas todas molhadas, a tremer de frio, com um paninho exíguo a tentar proteger o nome do fotógrafo que captou a imagem que escolhi para encabeçar o post.

É evidente que, se escolhermos esta solução, corremos o risco de termos de lidar com a demissão da senhora que nos vem ajudar a ligar a máquina onde vai rodar o que faz falta ao prevaricador, de traumatizar as amiguinhas da nossa sobrinha fofinha que vieram para a festinha do pijama ou, nos casos mais graves, de ficarmos espantadas quando nos apercebemos como a toalha do bidé é grande.

 

Repetimos a façanha as vezes que forem necessárias e teremos no final uma pausa repleta de tranquilidade. Pelo menos até ao momento em que despertamos a ouvir das profundezas cavas da sanita:

- Sabes onde puseram os rolos de papel higiénico?

Rummy Rumfelt - foto de R. J. Pila

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