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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e os homens feios

rabiscado pela Gaffe, em 17.12.16

Tenho um amigo, de uma beleza invejável, cruzamento, demoníaco de belo, de genes latinos com nórdicos, que num dia chuvoso já passado, perante babadas criaturas de todas as espécies - lembro-me que havia um cão hipnotizado pelos olhos cinzentos do rapaz -, desfiou num murmúrio vagamente melancólico, uma das mais extraordinárias frases que eu já ouvi:

- Deve ser bom amar um homem feio.

 

O dito ficou a remoer a minha pobre alma de menina e moça, suavizando, apesar de tudo, o redemoinho infernal que me provocava a visão esplendorosa daquela criatura.

 

Hoje, mais crescida e mais serena, longe da perturbadora imagem do belo rapagão, consigo, ainda que de modo inábil, entender o alcance daquela espécie de confissão tristonha.

 

Creio que deve ser realmente compensador amar um homem feio - desde que não seja o Mário Crespo.

Admito, como toda a rapariga esperta que se preza, não ser a fealdade um dos esteios que suportam a certeza de que o homem nos será fiel ou mais amante. A nossa segurança, autoconfiança, convicção, inteligência, lingerie ou a nossa capacidade de manter ao longe a concorrência, nem que seja ameaçando com garfos ferrugentos os olhos das rivais, são, entre tantos, alguns mais eficazes instrumentos para que se cumpra o estipulado.

 

Há, no entanto, o fascinante efeito Cyrano.

 

As armas do meu melancólico amigo de dias mais chuvosos, estão de tal forma visíveis e palpáveis - enfim, sonhar não custa -, que mesmo que fossemos amadas por ele, sentiríamos em simultâneo que esse amor tinha uma raiz cravada no nosso desejo ensurdecedor de exactamente … sermos amadas por ele.

É que sermos amadas pelo que é belo, faz-nos sentir ainda mais sublimes, mas deixa a repugnante baba da incerteza nos vidros quebradiços das nossas almas pequeninas.

 

Amar um homem feio deve ser bom. Aceito, porque o que se esconde no amor é muito mais do que aquilo que mora nos olhos cinzentos azulados daquela beleza estonteante que num dia chuvoso lamentou o fado e creio que, quando nos apaixonamos por uma criatura feia, nos deitamos na cama que ela nos ajuda a fazer, desde a escolha das traves às dobras dos lençóis.

A solidez das paredes do quarto já é outra questão, porque amar, dizem, é como ter dinheiro. Não traz forçosamente a felicidade como apêndice.

 

Seja como for, a Gaffe, rapariga fútil, desalmada, oca, tonta e irresponsável, mesmo suspeitando que o dinheiro  - e o amor - não a faz necessariamente feliz, prefere soluçar dentro de um Bentley.

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