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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no início

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.17

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Levanto-me cedo. À alameda deste silêncio, chegam as primeiras sombras das tílias rendilhadas.

A luz é uma torre de marfim erguida nos socalcos do início da manhã.

 

Embrulho-me na samarra do Domingos. A samarra que visto como se fosse o sobretudo de Bogart. Encosto o corpo à pedra. A casa é fria, a cal é branca. Há portas dormentes farejando o gelo. Há espelhos descobertos erguidos pela sala com reflexos de socalcos cinzentos e esfumados pela névoa.

 
Erguem-se as vagas brancas deste início plano e o brilho leitoso dos começos sobrevoa a mão do anjo de pedra que toca a superfície do lago.

O silêncio tem cor. Este azul de palidez de mortos que trepa as escadas como um cão ferido.

 Não quero que a manhã suba aos meus dedos e abra crisântemos no meu corpo.

Gostava que tudo fosse azul-escuro e que pelo silêncio ainda calado, viessem falar-me da neve.

 

Ainda é tão cedo.


Senta-te aqui, na pedra, junto a mim. Vieste para me ver, não foi mulher? Conta-me então histórias, como sempre fazes. Habituei-me a ti e já não tremo quando sinto no cabelo as facas dos teus dedos.

Conta-me histórias.

Vamos, velha doida!

Primeiro aquela em que eu sonhava ser menina grande e ter um Norte. Depois a do vadio que apanhava conchas no areal para fazer delas barcos no chafariz da Praça ou mesmo aquela em que um bêbado por desejar a lua se afogou no mar na noite em que ela veio flutuar na água.


Se me contares histórias, velha Tristeza, prometo que adormeço nos teus braços. Prometo que abrando a frequência com que pouso a vida nas tábuas do meu quarto. Prometo deixar que o teu cabelo se misture com os veios da madeira. Prometo parar de ferir os lanhos das manhãs de poalha adormecida da memória. Prometo não tropeçar mais no teu corpo quando avanço pela sala distraída. Prometo deixar-te partir. Deixar-te numa esquina da morte, num sítio qualquer.

Os dias passarão a ser dias de soalho encerado, de madeira impoluta. Dias a passar. Dias inúteis que colarei a estes dias que vivo no lugar daqui e ficarei à espera, sem tempo para mecânicas de qualquer fluído, de olhos sem lágrimas ou palavras que enferrujem as grades que me apetece derrubar.

 

Diz o Domingos que nesta casa chora-se pouco, mas há apenas duas maneiras de transportar a dor. Por dentro ou por fora.

 

Ensinaram-me que a dor não é um derrame de rimas choramingas. Não uiva. Não se arremessa em lamentos de míngua. Não pincha em cemitérios floreados. Não ergue as caravanas de circos saudosos em  enxurrada de lágrimas contadas.

Ensinaram-me que a dor é cuidar sozinha das sardinheiras de Espanha e das hortênsias, dos príncipes de pedra com asas que afloram a superfície das águas, do fio da cisterna e deste rio, relâmpago deitado.

 

A manhã começa. É o início.

Fechar os olhos é olhar depois.

Sinto-me cansada.

Sinto-me tão cansada e este silêncio pesa como chaga.

 

 (1 de Janeiro de 2017, 06.30h)

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