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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe repreendida

rabiscado pela Gaffe, em 06.01.17

Quincy Currie.jpg

 

A Gaffe recebeu um comentário indignadíssimo assinado por uma senhora que se sente, nessa qualidade, ofendida e lesada, apenas porque esta rapariga descuidada não cuida da postura que o feminino deve assumir perante o mundo e se atreve a exibir fotografias de homens quase nus que só contribuem para a humilhação, a frustração e a baixa autoestima da maioria das mulheres, reconhecidamente incapazes de encontrar e - numa alusão clara a Saint-Exupéry -, cativar exemplares como os que vão aparecendo nestas avenidas.

 

Seguidamente declara a Gaffe instigadora do sexo pelo sexo, quando, como mulher formada e culta, deveria saber que um homem nu em cada esquina é rua aberta para a decadência feminina - isto, claro, se a esquina não for a de um beco sem saída, ou a que faz ângulo com um clube gay, intui a Gaffe.

 

Termina a senhora chamando a atenção para a atitude de ofensa ao feminismo e à luta das mulheres pela igualdade liberta dos grilhões - tendo em conta a condenação do teor das fotos, provavelmente a senhora quereria grafar outro vocábulo – do machismo a que esta rapariga tem vindo a dar cobertura.

Numa linguagem sempre cuidada, mas sempre unida ao grande raspanete, a senhora revoltada refere a lavagem do masculino que é apanágio do que por aqui desanda e acusa esta pobre rapariga indefesa de estar a sabotar a seriedade, o decoro, a nobreza e a integridade moral que nos deve inspirar e merecer o corpo humano, seja ele de que formato for.

 

Uma chapada.

 

A Gaffe chorou imenso arrependida de ter publicado fotografias de homens bons de se cair para o lado que eles quiserem, em vez das do marido da queixosa.

A Gaffe concorda. Nem tudo são rosas nestas avenidas. Às vezes passam pilas. Cobertas e acauteladas, mas sim, há pilas que se adivinham e de que sabemos que gostamos porque estão apensas a homens lindíssimos que mesmo fora das fotografias o continuam a ser.  

 

Evidentemente que a Gaffe não mantém a postura que uma mulher deve assumir. Esta rapariga, como diz Marco Paulo, é uma lady na mesa, mas só sabe Belzebu do que é capaz de fazer com o restante mobiliário e assume que pertence à maldita minoria de mulheres que não respeitam o sentir das outras, porque é perfeitamente capaz de fisgar  um matulão igual aos que se publicam, sem ponta de solidariedade para com as que ficam sem ele, embora pense que não é assim tão difícil tendo em consideração que não há homens irresistíveis, mas apenas mulheres que não sabem resistir.  

 

A Gaffe não tem uma postura – tem várias, porque já leu o KamaSutra -, e acredita que a autoestima de uma mulher não é influenciada - nem inflacionada -, pelo facto de ter conquistado um matulão divinal, porque suspeita que é exactamente uma bela e enraizada autoestima feminina que o atrai. Elevar os padrões da nossa autoestima através da aquisição e exposição de um potentado masculino, equivale a ler Gustavo Santos e consubstancia uma das mais medíocres atitudes machistas que uma mulher consegue encarnar.

 

Para além da ausência de uma postura, a Gaffe não tem compostura, porque suspeita que é muito desvalorizado o sexo pelo sexo ou, como já foi dito, o sexo mágico, aquele que se faz e se desaparece. Provavelmente a senhora indignada escreve cuesia erótica onde o dicionário de rimas ajuda a encontrar palavras que terminam em ar - e no ar - e textos cuéticos encimados pela fotografia - onde o amor está indubitavelmente presente - de um casal nu, engalfinhado de tal modo que é difícil perceber onde começa um e termina a outra; onde um simulacro de sexo, feito com muitíssimo amor, se deixa iluminar, fotografar, expor e visualizar apenas com o intuito de nos atingir o coração. O sexo pelo sexo é apenas um arredor do amor e muitas vezes são os arredores que interessam. A Gaffe não se importa que a considerem uma ninfa, mas não é maníaca e o crivo, ou o filtro, que usa para seleccionar os homens é tão apertado como a caixa craniana da senhora indisposta - o que, será bom de ver, o torna quase compacto e de dificílimo escoamento.

 

Há no entanto um ponto que gera na Gaffe a mais veemente discordância com a senhora agravada.  

A Gaffe não faz lavagem do masculino e embora não entenda com a profundura exigida o significado da acusação, quer deixar claro que aos homens que por aqui se publicam não lhes é exigido um banho prévio. A prova consta da foto que ilustra este longo rabisco. O rapagão da imagem, como se vê, não está convencido da eficácia do desodorizante que usa.  

 

A Gaffe resolve por fim, num claro sinal de reconhecimento, oferecer à senhora apoquentada uma pequena mostra de homens muitíssimo interessantes retirados de um quotidiano mais cultural que por certo agradará à comentadora. Aconselha a senhora a sentar-se, a cravar as unhas nos braços da cadeira, a amordaçar-se e a evitar uma exposição prolongada a esta pequena amostra que pode, pela repetição, provocar-lhe epilepsia.

 

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São rapagões oriundos do universo do bailado. Muita postura, portanto. Devem ser olhados apenas como profissionais da companhia belga Thierry Smits e não tentar adivinhar-lhes as pilas - que a Gaffe já teve o prazer de ver, porque dançam muitas vezes todos nus.

 

Na foto - Quincy Currie por Tatchatrin Choeychom

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