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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em Março

rabiscado pela Gaffe, em 28.02.17

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O corpo deitado do meu amante vi-o esta manhã.
Na planície do terceiro mês.

Um lírio aberto.

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As polémicas

rabiscado pela Gaffe, em 28.02.17

Eu não sei muito bem o que são polémicas porque ainda sou pequeno e não conheço muitas palavras difíceis. Mesmo as que conheço às vezes só sei dizer as letras. Eu acho que tem a ver com desenhos mal feitos e com o Teatro do senhor Filipe la Féria que também se chama Teatro Polémico. Eu por acaso não gosto porque não tem pessoas nuas. Até era fácil ter. Eu fui ver com os meus pais um teatro chamado Mai Fair Lade que também é do senhor Filipe La Féria que é muito rico e tem muitos teatros e o meu pai disse que merda daquela os bombeiros daqui também fazem. Basta arranjar um candeeiro grande e umas escadas em caracol e ensinar a Idalina a fazer de rica porque parola ela não precisava que já é e até se punha nua se fosse preciso. O meu pai não pode dizer nada porque não estudou como eu que já vou apanhar um soco porque a minha professora está a dizer que o Teatro do Senhor Filipe La Féria afinal não se chama Polémico e que se chama uma coisa que se lhe varreu da cabeça. Eu agora não posso apagar nada porque a minha borracha está nas últimas e tenho de poupar que já gastei o lápis de cor amarelo a pintar o sol. Por falar nisso lembrei-me agora das polémicas das caricaturas e acho que devem ser desenhos mal feitos e com números de telefone porque dão porrada. O meu primo Zeca também levou uma carga de porrada do meu tio no ano passado quando fez um desenho da minha prima e escreveu a Idalina é puta e pôs o número de telefone dela nas paredes da cagadeira que agora se chama duplo Vê Cê desde que o Presidente da Junta mandou uma fotografia ao senhor Costa com as sanitas todas partidas. Eu vi o senhor Costa na televisão uma vez mas não ligo muito a concursos com o senhor Passos Coelho a apresentar. Só sei que foi o senhor Costa com o dinheiro que ganhou nesse concurso que mandou para cá sanitas novas que o meu primo Zeca andou a meter nos buracos antes de levar porrada. Quando lhe bateram ele ficou com um osso do ombro partido e já não fez mais nada porque era um osso que vai direitinho ao cérebro e quando a gente o parte pronto já não pode meter sanitas e só grita. O meu primo Zeca fez um chinfrim desgraçado a dizer que lhe tinham cortado a liberdade de expressão mas se calhar é a liberdade que às vezes se exprime mal e depois dá em porrada como os árabes da televisão que andam a queimar panos e a atirar coisas às pessoas que até parecem o senhor Doutor Mário Nogueira mas que não são árabes nem são o senhor Doutor mário Nogueira. São mas é senhores disfarçados porque eu sei que os árabes só andam de panos de cozinha na cabeça e lençóis cosidos. não queimam a roupa. As senhoras árabes andam com gaze nas mamas e na boca por causa dos dentes podres que na Arábia não há muitas escovas. Eu sei isto porque no Carnaval a minha prima Idalina disse ao Zeca olha eu vou vestida de árabe tu vê se me arranjas umas gazes lá no hospital onde vais fazer os tratamentos. O meu primo Zeca vai fazer tratamentos por causa da tareia que mamou à custa do desenho que fez da minha prima no duplo Vê Cê. Até foi injusto porque a minha prima Idalina passou a receber muitas mais chamadas a sair mais e até já foi ao dentista tratar dos dentes porque com eles podres fica-se com uma voz esquisita ao telefone. Eu gosto muito de polémicas.

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A D. Fátima Lopes

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.17

A D. Fátima Lopes é uma senhora muito rica e presidente do sindicato duma coisa chamada estilistas que se preocupa muito com as cores das roupas que se usam e com as carteiras que levamos de férias ou quando queremos fugir à polícia depois de as levarmos. A polícia já prendeu os senhores que gostavam de andar com os sacos azuis dos cachopos que encontravam no Continente. O Continente é uma terra do senhor Paulo Azevedo que só veste coisas caras e com cores bonitas. A minha prima Idalina diz que é importante a gente ficar preocupada com as cores e disse mesmo que havia um senhor rei chamado Napoleão que tinha um casaquinho vermelho para não se notar o sangue quando ia à guerra. Há também o senhor engenheiro Sócrates que só veste calças pretas e ainda o senhor abade João das Neves que só usa sacos brancos para combinar com as meias que são iguais às do meu primo Zeca. O meu primo Zeca vai-se casar com a Dalete que agora se escreve D’All Lete por causa dos turistas e se lê Delete por causa dos computadores. O casamento vai ser aqui na escola dentro da sala de trabalhos manuais porque a minha professora diz que se querem fazer casamentos na sala dela ela parte tudo à chapada depois de nos fazer mastigar o giz que isto não é a casa da mãe Joana que é a avó dela e está internada no hospital onde o meu primo Zeca alugou umas camitas para os convidados que são do Alentejo. Os convidados ficam nesta casa na véspera do casamento. Devia ser no quartel porque a Idalina se sentia mais em casa. Já conhecia os guardas todos e até se podiam usar as cornetas e as gaitas dos guardas da fanfarra que a minha prima toca muito bem segundo dizem os que fazem a ronda todas as noites cá por casa e que nunca são os mesmos. Até me causa espécie porque as fanfarras deviam ter sempre as mesmas gaitas. A Idalina tem pouca sorte porque o quartel já está reservado para uma coisa chamada congresso doutra coisa chamada PP e os guardas estão todos prontos com aqueles capacetes dos robôs para que ninguém dê uma traulitada nas senhoras velhinhas que lá vão e que são como a avó da senhora professora que teve um ataque e que fala com a boca torta. Dizem que é para os turistas que chegam do estrangeiro e do Brasil compreenderem. O estrangeiro também é onde a D. Fátima Lopes vai ao cabeleireiro porque é para isso que tem um táxi sempre à porta mesmo mesmo mesmo ao mesmo tempo que a D. Maria José Morgado que é uma pintora muito famosa que vive no Rego. A D. Maria José Morgado manda chamar a D. Fátima Lopes para irem as duas dar uma de mão nos tectos ou apresentar um programa da televisão onde ela é ajudada a vestir pela senhora Fátima Lopes que é prima do senhor Santana Lopes que eu não sei quem é mas que anda por aí lá isso anda mas não que tem nenhum cabeleireiro amigo.  Eu gosto muito da D. Fátima Lopes.

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A Gaffe "atrumpalhada"

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.17

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A Gaffe dá conta que anda demasiado solta.

 

Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, declara aos israelitas, num tweet, a solidariedade do seu país. A terminar mimoso faz surgir a bandeira americana ao lado da bandeira da Nicarágua.

 

Durante a cerimónia dos Óscares o filme vencedor na categoria de melhor filme é anunciado de modo errado causando constrangimentos na turba - embora a queda de Jennifer Lawerence numa das edições anteriores tenha sido mais convincente.

 

Se este segundo deslize foi claramente propositado, animando uma cerimónia que se vai arrastando penosamente aos pedaços e aos trapos, o primeiro chega a surpreender. Mike Pence não é um sósia de Trump. É um animal manhoso e muitíssimo mais experiente, manipulador e perigoso. Se confunde símbolos num tweet de treta é porque quem lhe vai actualizando as redes sociais não é o mesmo estratega que planeia a entrega das estatuetas hollywoodescas.

 

A Gaffe suspeita que o pobre servo americano que confundiu bandeiras em nome de Pence, venceu o mesmo Óscar de melhor filme que foi atribuído ao La La Land, mas que será mesmo assim obrigado a enfiá-lo no lugar que vemos quando alguém decide filmar um mooning.    

 

A Gaffe aborrece-se quando se vê desperdiçada. É muito mais agradável esmiuçar as tolices de Trump, a gravata do Turmp, a cabeleira do Trump ou a assessora do Trump. Pelo menos sabemos que nos divertimos enquanto o homem vai riscando e assinando com marcador preto os atentados a Direitos consagrados.

 

A esquecermos qualquer coisinha, que seja uma que valha realmente a pena. 

 

Ilustração - Ali Kiani Amin

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A Gaffe, arsénico e rendas velhas

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.17

Nem sempre as jóias são o costumado brilho encastoado em metais de fino trato.

 

Há jóias escondidas, presas em papel transparente, dobradas com o rigor e com o cuidado extremo das avós e perdidas nas gavetas maneiristas do móvel esquecido há tanto tempo.

 

Procurem-nas!

 

São preciosidades inigualáveis e com o temor que nos faz suster a respiração, com a vertigem de quem comete um crime, com o arfar de excitação de quem se vê a viver uma paixão que não lhe pertence, voltemos a usar o tempo perdido e que Proust nos perdoe e nos proteja.

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As SMS

rabiscado pela Gaffe, em 25.02.17

Eu gosto muito de SMS. Não sei bem o que é e até perguntei à Idalina que me disse que era uma coisa francesa que os telemóveis apanhavam e que vem sem a gente contar na corrente eléctrica. O meu primo Zeca pôs-se a rir e disse-lhe ó estúpida uma SMS é como um chate que é uma bicha que a gente apanha nos países mais baixos e só lá vai de injecção. Por isso penso que uma SMS é um animal perigoso porque ataca as fichas rentes ao chão. A minha irmã chamou-lhe inocente e cascou-lhe um murro na testa porque o Zeca estava a confundir com o senhor Marques Mendes. Eu é que tenho sorte porque a minha prima Idalina esteve a trabalhar em França nas obras a ajudar os turnos que apanhavam fruta de noite e lida muito bem com a língua e sabe que SMS é a maneira que os senhores que vivem em França dizem Se Mentes Safas-te. Eu acho muito bom sabermos lidar com as línguas e falar um bocadinho de todas. Gostava de ser como o senhor Padre que é muito corajoso porque até mata as bichas daquelas que nos mandam SMS mas que entram só pela parte de trás dos computadores pelos buracos das pénes. As pénes são uns paus de plástico que servem para as pessoas pendurarem num fio e depois se esquecerem onde as meteram e que se apanham muito nos duplos vês cês dos Centros Comerciais que são umas casas muito grandes e cheias de lâmpadas onde há pénes até dar com um pau porque lá entra tudo como na prisão onde esteve o senhor engenheiro. O senhor engenheiro teve sorte  porque lhe deram uma caneta para escrever um livro que depois meteu nas pénes para ninguém ler. Podia meter noutro sítio que a minha prima Idalina disse que sabia onde era e que me pareceu que doía porque o meu primo que esteve na tropa nos serralheiros ou nos artilheiros mecânicos já não sei bem disse que nesse lugar nem uma fava entra. O meu primo passou as favas do Algarve quando lhe fizeram a salada. Por isso penso que deve ser uma saladeira o sítio onde o senhor engenheiro devia meter aquilo ou então era na Santa Casa da Misericórdia porque de lá também sai merda junta com o senhor Santana Lopes que é filho de um Presidente muito antigo que já morreu e que foi substituído pelo senhor Doutor Cavaco que também tinha uma péne espetada no cu. Eu digo sempre a verdade por isso não mando SMS. Quem sabe se foi por isso que a minha professora me espetou uma galheta que quase me arrancava os dentes de cima porque em baixo já não tenho dois que os parti quando caí numas escadas rolantes que subiam sempre que eu queria descer no Centro Comercial onde a Idalina também trabalha perto das lojas onde se vendem cuecas vermelhas e foguetões que são telemóveis que vibram e mandam SMS. Eu gosto muito de SMS.

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A Gaffe capilar

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.17

Claro que há alternativas interessantes às jubas estudadamente desgrenhadas, ao fabuloso emaranhado de caracóis em desleixo premeditado, ao risco do volume ondeado que faz dos homens promessas de aventura.

 

Claro que estas alternativas, que não incluem os esquadrados penteados dos senhores do mundo, devem ser pensadas com rigor acrescido.

 

Se não cuidadas e coadjuvadas por uma imagem requintada, vagamente extravagante, inteligente e apurada, o cabelo masculino por onde deslizou uma camada substancial de gel fixante - brilhantina para os rapazes vintage -, parecerá que foi lambido por uma manada de gnus dispostos a ser triturados pelos crocodilos - imagem tenebrosa, mas inevitável nos documentários televisivos, logo após o canto das baleias.

 

Neste caso, o ideal, meus caros, é a adopção de uma solução drástica e muito eficaz: gel e nudez.

Fica sempre apetitoso.

 

 

Claro que existem alternativas menos convencionais.

Reservo-as para os mais aborrecidos.

 

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Gavetas:

A CGD

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.17

A CGD é uma coisa que eu não sei o que é. Já posso dizer que não sei sem levar uma pantufada da minha professora porque a minha prima Idalina que não é menos que as senhoras do Cerco do Porto disse que se a senhora professora me voltar a assapar vem aqui e parte-lhe a dentadura toda com um martelo pneumático. Por isso espero que a senhora professora esteja atenta a ler esta redacção e tenha mais cuidado porque fica num instantinho sem os dentes de plástico que até são bonitos mas ficam depressa muito amarelos e a cheirar mal. O plástico é uma coisa reciclada e fica a feder aos sítios onde esteve antes de ir para as senhoras de reciclar. Eu sei que reciclar dá muito que fazer porque temos de saber as cores do plástico antes de o meter no lixo e nem sempre conseguimos decorar as cores dos sacos todos do modelo e do continente do senhor Paulo Azevedo. Eu não sei que modelo é mas penso que é a Sofia Aparício. É uma menina muito alta com problemas na boca e nas mamas que incham quando há humidade. Também pode ser outra qualquer que o senhor Paulo Azevedo é muito rico e pode ter mais do que um que não faz mal porque os mete no continente que é a África e ninguém dá conta. A África é muito longe e ninguém vai lá por causa dos mosquitos. Eu até pensava que era por causa das bichas que atacavam quando ficava noite mas o meu primo Zeca disse-me que isso era no Parque Eduardo número sete ou então no Beco do Esparramado que é onde a minha prima  tem o escritório mesmo ao fundo e onde faz muitas horas extraordinárias que são horas que não contam para o Currículo que é o patrão dela e que lhe faz a folha e me dá rebuçados. Eu gosto de rebuçados mas o que queria mesmo era a aparelhagem que vi na loja dos chineses igual ao leitor de CD que o meu primo Zeca comprou na feira. Dizia it’s a SONAE na parte de trás. Na frente tinha uns botões que ligavam à televisão e aparecia a dona Manuela Moura Guedes toda vestida de vermelho com as bochechas todas cheias de comida. Podia ser só defeito do aparelho que a Idalina disse OPÁ it’s a SONAE uma merda isto é mas é fancaria que também é uma marca de electrodomésticos e de pulseiras e brincos que a Idalina usa quando vai para o escritório e que a minha mãe oferece às senhoras quando elas lhe compram trumparueres que são umas coisas estrangeiras que encaixam umas nas outras como nós quando vamos para férias ao Carrapatelo e ficamos na tenda do meu primo que só tem uma assoalhada mas que é muito saudável por causa do ar desde que não se respire muito. Eu gosto muito da CGS.

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A Gaffe e os quarentões

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.17

 

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O que destrói irremediavelmente a imagem de um quarentão - ou cinquentão -, é a condenada frase iniciada pelo no meu tempo eu era, seguida da descrição pormenorizada da apelativa excelente forma física e dos encantos saudosos perdidos para sempre.

Nada melhor para nos fazer acreditar que a memória do cavalheiro é um facto e que, no momento em que o ouvimos, existe apenas a carcaça do passado glorioso. Nada melhor para nos fazer crer que o presente é uma múmia daquilo que se foi no passado.

 

Não é necessariamente verdade e irrita.

 

Um quarentão - ou um cinquentão -, devia ser obrigado por Decreto-Lei a manter silenciada a patética saudade do passado jovial e juvenil.

 

É medíocre o lamento daquele que se proclama envelhecido e podre, sem qualquer hipótese encantatória, incapaz de sedução e isento de charme.

 

Meus caros quarentões - e cinquentões -, o charme é também a inteligência amadurecida que trespassa e flui pelos poros - mais abertos, é certo -, e capaz de fazer pasmar e render a mais renitente das resistências femininas.

A partir deste momento esbofeteio o primeiro rapagão com mais de quarenta anos que choramingue os idos tempos em que era capaz de saltar à vara, sem a vara ou sem se preocupar com a altura em que a dita é colocada.

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O gato do Firmino

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.17

Ontem já estávamos todos na sala e a minha professora viu que faltava o Firmino. A senhora professora mandou-me ir procurá-lo que só lhe damos consumições. Eu encontrei o Firmino na arrecadação onde guardamos a lenha para a salamandra da escola. Estava aninhado aos pés dos cavacos e a chorar muito. Eu sabia porque é que o Firmino estava a chorar. O gato do Firmino morreu. Eu tinha visto o pai do Firmino a metê-lo no caixote de plástico do lixo. O gato era velhinho. Muito velhinho e morreu. As coisas ficam velhinhas e depois morrem. Acontece às pessoas velhinhas e até acontece aos peixes às mães e às mimosas. O gato do Firmino chamava-se Farrusco mas toda a gente lhe chamava gato. Só o Firmino lhe chamava Farrusco porque é teimoso. Se toda a gente chamava gato ao gato é porque o gato se chamava gato. Eu sentei-me ao lado do Firmino e pus-lhe a mão nas costas para lhe segurar os suspensórios. Os suspensórios são coisas fortes que prendem os calções e como o Firmino parecia que estava a desaparecer eu queria segurá-lo e achei que se lhe agarrasse os suspensórios o Firmino não desaparecia. Lembrei-me daquelas ervas muito compridas que vivem nos rios e quando a água passa parece que vão com ela mas não saem do sítio. O Firmino também parecia um dióspireiro porque estava cheio de flores mas com mais nada. Eu não chorei. Tinha umas coisas grandes a doer na garganta que pareciam murros mas não chorei porque não se deve roubar nada a ninguém. Muito menos aos amigos e muito menos as lágrimas. Gostava que toda a gente do mundo toda a gente daqui até à lua se chamasse Farrusco. Não me importava de me chamar Farrusco. Quando tiver um filho chamo-lhe Farrusco e se for uma rapariga chamo-lhe também Farrusco. Até a Ritinha devia chamar-se Farrusco. Era bom que Deus se chamasse Farrusco. Isso é que era bom. Assim o Firmino não chorava porque tinha o gato dele para onde quer que olhasse. O problema é que só o Firmino chamava Farrusco ao Farrusco. Nem eu chamava Farrusco ao gato do Firmino. Eu sei que o Firmino é o meu melhor amigo mas quando ele se levantou bateu-me. Deu-me dois pontapés três estalos e dois murros na cabeça que eu contei. Depois foi-se embora e eu não sei para onde. Foi para casa. Eu acho que vamos sempre para casa quando os outros não sabem para onde vamos. Eu não sou o melhor amigo do Firmino porque acho que o Firmino não tem coisas que são melhor. Eu gostava muito do gato do Firmino.

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A Gaffe fisgada

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.17

 

Se resta alguém que pense que somos feitas de rendas, folhos, organza e tule, de esvoaçante poesia imaculada e virgem, de asas diáfanas envoltas em alvas madrugadas, que tire o cavalinho da chuva.

 

Podemos ser tudo o que se pensa e mais do que isso, mas jamais nos esquecemos de trazer, junto à alvura da inocência e do cristalino esbracejar das nossas asas, a arma que fez tombar Golias.      

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A senhora Inspectora

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.17

Hoje não tenho muito tempo para escrever a minha redacção que a senhora professora mandou-nos para o recreio porque esteve na nossa sala a senhora Inspectora para ler as redacções de toda a gente. A senhora Inspectora nem precisava de cá vir porque lhe mandam as coisas para ela ver em casa e não ter de se incomodar mas ela é uma pessoa muito boa e mesmo não podendo que é doente anda que se farta. A senhora Inspectora era uma pessoa muito alta e muito magra e muito muito muito mas mesmo muito inteligente. Tão inteligente que os miolos pesavam assim como os sacos de batatas que o meu primo Zeca costuma acarretar. O peso era tanto que a senhora Inspectora esparramou-se e ficou atarracada e gorda. Os miolos agora misturam-se com as tripas e a senhora Inspectora vê-se à rasca para separar o que diz da merda que faz. Eu acho que a senhora Inspectora não vai gostar muito das minhas redacções porque eu ainda não sei o que são as vírgulas e a senhora Inspectora disse para quem a quis ouvir e foi pouca gente que as vírgulas são como o alimento dos passarinhos. A gente atira-as ao ar e onde caírem lá ficam à espera dos pombos. Há sempre um que não se engasga. Agora vou brincar que se faz tarde. Eu gosto muito da senhora Inspectora.

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Tema livre

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

Eu gosto muito do tema livre. Para dizer a verdade só gosto um bocado porque nunca sei o que tenho de dizer. Da última vez que a minha professora me disse que o tema era livre eu pensei que se podia copiar. Copiei o título de um livro que se chamava o iluminismo estrangeirado na obra do Cavaleiro de Oliveira que estava na secretária da minha professora para ela poder pousar o copo e a garrafa de água sem deixar marcas na madeira que dá mau aspecto e parece mal. Quando o senhor Sócrates nos veio entregar o Magalhães a minha professora até teve de se sentar na secretária para ninguém ver a rodela que o copo deixou na madeira. O Magalhães é um senhor que nos deu um computador parecido com a malinha da minha prima Idalina. A minha prima tirou um curso de manicura à noite e faz as unhas a uns velhos que até são muito bons clientes. Vão lá casa duas vezes por semana porque as unhas são umas coisas que crescem muito de um dia para o outro e devem ser cortadas rente porque senão os senhores são obrigados a vir às escondidas com vergonha das unhacas que ficam iguais às da minha professora que quase me arrancava os olhos quando descobriu que eu tinha copiado o título do livro. Nem se preocupou em ler o resto que era muito bom e falava no Cavaleiro de Oliveira que é o um senhor que morreu já múmia e que fazia filmes com a Soraya Chaves que já foi namorada do senhor Padre Amaro. Depois arrependeu-se e foi para Nova York estudar muito teatro. Já estava cansada de mostrar as mamas. Queria ver se conseguia mostrar menos coisas e dizer mais palavras. Coitada parece que aquilo correu mal só por causa dos professores que não sabiam falar português e gostavam de mamas. A senhora Soraya Chaves tem cara de gostar muito de hipismo que é um desporto que os hippies praticam e que exige uma cara de quem está sempre com pedra nos rins ou que enfiou no nariz o pó que a senhora que apresenta os sorteios da Santa Casa usa para encarquilhar e parecer morta há já uma semana. A gente percebe que é só a fingir porque ela até está muito bem para a idade como a minha professora que ninguém diz que é uma velha que já devia ter morrido e que não leu a minha redacção até ao fim porque me disse que eu devia respeitar os mortos que fizeram tanto pela nação e deixar de ser ingrato e rezar rezar rezar para que Nossa Senhora de Fátima nos ilumine que sabe iluminar as pessoas muito bem. Tem uma pilha na carteira porque no sítio onde moravam os pastorinhos não havia electricidade. Só lâmpadas muito fraquitas. Eu não falei de morto nenhum a não ser que ela estivesse a pensar que eu estava a falar do Senhor Oliveira que era um empreiteiro patrão do meu primo Zeca que trabalha nas obras da Covilhã que até foram primeiro desenhadas pelo Senhor Sócrates no computador que lhe deu o Magalhães que tem um programa chamado paint. Só se fosse por isso. O senhor Oliveira morreu num acidente de aviação porque uns pássaros se agarraram as rodas para ir de boleia. Aquilo deu para o torto porque o avião era uma avioneta sem força para aguentar a passarada e só havia um charquito para pousar nas emergências que era o charquito onde depois se fez o Freeport porque com os passarinhos mortos já não havia lá nada para guardar a não ser umas bichas sem importância que foram todas lá para dentro e que agora estão desempregadas porque o povo gosta de peixe e armou uma cavala só porque aquilo não demorou nadinha a ter autorização para se fazer. É uma vergonha porque se demorasse também reclamavam. O povo nunca está contente a não ser com o desgosto dos outros e não percebeu que o Senhor Sócrates fez aquilo a correr para esquecer os passarinhos que morreram no desastre agarrados as rodas da avioneta. Nem se queria lembrar daquela tragédia e quis fazer uma coisa parecida com o que estão a fazer em Nova York onde a Soraya Chaves mostrou as mamas. A minha prima Idalina disse que gostava de fazer como ela e estudar ainda mais para fazer umas unhas aos trolhas que lá trabalham porque pelo menos tinha uns andaimes em condições para se encostar e não a porcaria nojenta dos andarilhos dos velhos. Eu gosto muito do tema livre.

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A Gaffe numa fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

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Tenho lido com particular atenção as opiniões que vão surgindo relativas à foto vencedora do World Press Photo onde o assassínio do embaixador russo é captado alguns momentos após ter sido cometido.

Humildemente reconheço que os discursos que a foto vai provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde é nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos.    

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

A foto premiada não obedece a estes pressupostos. Segundo o autor foi um acaso. Acreditou mesmo ser apenas uma performance a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Esta alteração acaba por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-ia, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação do instante surge ainda contaminada pelo construído, torna-se demasiado intencional, porque está imbuída da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acaba por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. A foto não nos desorganiza, porque se reduz a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

A foto do assassinato do embaixador russo espanta porque parece estranha, paradoxalmente calma, porque está privada da nossa explicação privada, usa a linguagem - que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso ainda tem a presença do fotógrafo.  

 

É literal.

Introduz-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.    

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O Papa Francisco

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

Eu gosto muito do senhor Papa Francisco que é um senhor muito velhinho que vive em Roma numa casa muito bonita que tem um tecto pintado à pistola por um trolha que gostava de coisas feitas à mão e que fez pisa-papéis que são um homem nu com uma fisga na mão. Também fez muitos trabalhos de pichelaria porque não é calão como o meu primo Zeca que diz que o senhor Papa antes deste era um nazi de merda. Isso é mentira porque nazi é o nome de uma bisnaga para desentupir o nariz quando estamos constipados. Eu agora não sei se é nazi ou vick mas também não interessa porque os senhores papas não se constipam porque andam sempre dentro de uma cabina telefónica. É gente muito ocupada que recebe muitas chamadas. A minha professora já escreveu ao senhor Papa Francisco. Foi a senhora dona Aura Miguel que é uma freira disfarçada de jornalista que lhe deu a direcção. É muito fácil de decorar porque tem logo o número da porta. Vai logo lá ter. Depois as cartas são metidas nos chumaços que o senhor Papa tem nos ombros que parecem as asas do avião que bateu contra as mamas da minha prima Idalina. Disseram que isso aconteceu e que foi muito mau um avião ter batido contra as torres gémeas se bem que a minha prima não se tenha queixado muito. A minha prima Idalina também já não sente nada de tantas coisas que já lhe bateram contra as mamas. A minha prima disse que mais vale escrever ao senhor engenheiro João das Neves que esse responde logo com palavras muito difíceis a dizer mal das bichas e que pelo menos não anda de capelina como o Papa. Uma capelina é uma coisa que se põe nos pés dos atletas quando correm a maratona e apanham muito sol e ficam presos dos intestinos que até podem ser bichas. Então é preciso tomar o remédio que o senhor Papa dá aos padres para que eles não andem a dar catequese a mais como os senhores da Casa Pia que estão presos há tanto tempo e só queriam ensinar-nos a rezar muito. O remédio mata o bichedo todo porque o bichedo é uma coisa desgraçada que se mete em todo o lado e faz o meu primo Zeca cuspir para o chão e desatar aos murros e a bater com uma matraca num senhor em Viseu que é uma terra muito longe da casa do senhor Papa Francisco mas que ele já conhece porque o papa vê e sabe de tudo como aquela senhora da televisão que nos anda a fazer o mesmo que o pároco da minha freguesia faz ao regente do coro mas com o Calimero e que se chama Maia. Eu gosto muito do Papa Francisco que mora na rua do Bento n.º 16 Roma.

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