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Ilustração - Fernando Vicente


Os sinais de pontuação

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.17

Esta semana estou muito contente porque a minha professora nos está a ensinar os sinais de pontuação e disse que os sinais de pontuação servem para a gente respirar quando lê que até as baleias sobem à tona para apanhar ar que eu até fiquei muito espantado porque pensava que as baleias vinham à tona para mijar que as baleias fazem xixi pela testa. Só sei o ponto final que é muito fácil. A gente mete a ponta da caneta no papel e carrega um bocadinho. As renitências … também gosto porque só é preciso bater três vezes na folha com o bico da caneta e parece que até temos muito mais para dizer só que não podemos e fica assim um mistério. Eu gosto dos sinais de pontuação porque são como os desenhos que a gente faz e eu gosto de desenhar e de contas. Fiz uma vez um desenho da minha família que a senhora professora até colou na parede por estar tão bonito. Não era como o do Firmino que é um colega meu que vive numa casa com muitas escadas porque ele aparece sempre com nódoas negras que a gente vê na ginástica e diz que caiu por ali abaixo. Não sei se gosto do Firmino porque ele não brinca com a gente nem joga a bola e fica encostado à árvore que há no recreio a olhar para a frente muito calado e não tem fisga. Uma vez o Firmino fez xixi nos calções. Também não aprende nada que até a minha professora está sempre a dizer-lhe que se ele continua a ser calceteiro não tem futuro que é uma coisa muito à frente. Eu acho que ninguém gosta de um menino que não tem fisga nem futuro por isso não é pecado. O Firmino é parecido com um ponto de interrogação e não sabe desenhar nada porque quando a senhora professora nos mandou desenhar a nossa família o Firmino desenhou um gato. Eu gosto muito dos sinais de pontuação.      

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A Gaffe neo-realista

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.17

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João Miguel Tavares não me inspira qualquer tipo de simpatia, mas esse facto não me impede que esteja disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção.

Foi exactamente com esta disposição que o apanhei - a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia -, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.

O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.

 

É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes frequentam.

 

A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.

 

Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -,  e as personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma realidade menos amena e menos acolchoada.

 

Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de João Miguel Tavares, que o considera horrível, - assim, à toa, só porque assim é engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de educação que censuraram valter hugo mãe.

 

Ilustração - Mirko Hanák         

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