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Ilustração - Fernando Vicente


O Papa Francisco

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

Eu gosto muito do senhor Papa Francisco que é um senhor muito velhinho que vive em Roma numa casa muito bonita que tem um tecto pintado à pistola por um trolha que gostava de coisas feitas à mão e que fez pisa-papéis que são um homem nu com uma fisga na mão. Também fez muitos trabalhos de pichelaria porque não é calão como o meu primo Zeca que diz que o senhor Papa antes deste era um nazi de merda. Isso é mentira porque nazi é o nome de uma bisnaga para desentupir o nariz quando estamos constipados. Eu agora não sei se é nazi ou vick mas também não interessa porque os senhores papas não se constipam porque andam sempre dentro de uma cabina telefónica. É gente muito ocupada que recebe muitas chamadas. A minha professora já escreveu ao senhor Papa Francisco. Foi a senhora dona Aura Miguel que é uma freira disfarçada de jornalista que lhe deu a direcção. É muito fácil de decorar porque tem logo o número da porta. Vai logo lá ter. Depois as cartas são metidas nos chumaços que o senhor Papa tem nos ombros que parecem as asas do avião que bateu contra as mamas da minha prima Idalina. Disseram que isso aconteceu e que foi muito mau um avião ter batido contra as torres gémeas se bem que a minha prima não se tenha queixado muito. A minha prima Idalina também já não sente nada de tantas coisas que já lhe bateram contra as mamas. A minha prima disse que mais vale escrever ao senhor engenheiro João das Neves que esse responde logo com palavras muito difíceis a dizer mal das bichas e que pelo menos não anda de capelina como o Papa. Uma capelina é uma coisa que se põe nos pés dos atletas quando correm a maratona e apanham muito sol e ficam presos dos intestinos que até podem ser bichas. Então é preciso tomar o remédio que o senhor Papa dá aos padres para que eles não andem a dar catequese a mais como os senhores da Casa Pia que estão presos há tanto tempo e só queriam ensinar-nos a rezar muito. O remédio mata o bichedo todo porque o bichedo é uma coisa desgraçada que se mete em todo o lado e faz o meu primo Zeca cuspir para o chão e desatar aos murros e a bater com uma matraca num senhor em Viseu que é uma terra muito longe da casa do senhor Papa Francisco mas que ele já conhece porque o papa vê e sabe de tudo como aquela senhora da televisão que nos anda a fazer o mesmo que o pároco da minha freguesia faz ao regente do coro mas com o Calimero e que se chama Maia. Eu gosto muito do Papa Francisco que mora na rua do Bento n.º 16 Roma.

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A Gaffe não chora em português

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

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Por amor chora-se demais.

 

Pertence à mulher a maior parte das lágrimas. O homem transcende o mito, manifestando, ao contrário do dito, a sua virilidade quando se afasta da censura que o mantém longe das lágrimas e causa o espanto cantado por Piaf - ... Mais vous pleurez, Milord?! ça je l'aurais jamais cru!

 

É abertamente permitido ao feminino o choro de amor e chora-se sempre pela partida e pela ausência - a traição, o ciúme, a não reciprocidade ou outras razões que quisermos aliar ao choro desta natureza, são sempre metamorfoses do abandono. A mulher, sobretudo a portuguesa, foi sempre a sedentária que ouviu dizer às velhas da praia que ele não voltava. O mar, a guerra e a emigração - que é, em última análise e forçando a metáfora, uma mistura dos dois - sempre forneceu versos ao Fado, que é maioritariamente uma história de abandono de uma mulher que chora a partida ou a ausência do homem que ama - tornando-se por isso o reverso do Tango, em que é sempre o homem a lamentar a perda da mulher amada.

 

Choramos copiosamente, desfazemo-nos em lágrimas, rompemos em lágrimas, chegam-nos a lágrimas aos olhos, choramos todas as lágrimas do corpo, soltamos um fio de lágrimas, ficamos de olhos marejados. Choramos de formas diferentes para públicos diferentes. O choro é também um enviesamento que vai submeter o outro à sua própria sensibilidade, solidariedade ou indiferença. Todas as lágrimas são mais do que palavras, mas acabam por salgar uma exposição quase chantagista impressa no vê o que me fizeram! Vê o que fizeram de mim! Chorar exige destinatário.

 

O choro solitário, o chorar para nós, por amor, torna-nos de forma subtil espectadores do nosso sofrimento. Choramos então porque acreditamos – ou para acreditar - que as dores que sentimos não são ilusórias. Oferecemo-nos um interlocutor de excelência e provamos através do corpo que ultrapassamos a palavra que traduz a possível fantasia. Cumprimos as ordens do corpo apaixonado e permitimo-nos chorar. Em nenhuma língua somos capazes de exprimir o que uma lágrima traduz. Se não somos capazes de o dizer, entregamos a voz ao que está para além da linguagem.      

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, a lágrima é a imagem de todas as palavras que quisermos.  

É só fazer as contas.

 

Foto - Henri Cartier-Bresson

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