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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe numa fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

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Tenho lido com particular atenção as opiniões que vão surgindo relativas à foto vencedora do World Press Photo onde o assassínio do embaixador russo é captado alguns momentos após ter sido cometido.

Humildemente reconheço que os discursos que a foto vai provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde é nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos.    

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

A foto premiada não obedece a estes pressupostos. Segundo o autor foi um acaso. Acreditou mesmo ser apenas uma performance a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Esta alteração acaba por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-ia, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação do instante surge ainda contaminada pelo construído, torna-se demasiado intencional, porque está imbuída da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acaba por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. A foto não nos desorganiza, porque se reduz a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

A foto do assassinato do embaixador russo espanta porque parece estranha, paradoxalmente calma, porque está privada da nossa explicação privada, usa a linguagem - que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso ainda tem a presença do fotógrafo.  

 

É literal.

Introduz-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.    

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