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Ilustração - Fernando Vicente


Tema livre

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

Eu gosto muito do tema livre. Para dizer a verdade só gosto um bocado porque nunca sei o que tenho de dizer. Da última vez que a minha professora me disse que o tema era livre eu pensei que se podia copiar. Copiei o título de um livro que se chamava o iluminismo estrangeirado na obra do Cavaleiro de Oliveira que estava na secretária da minha professora para ela poder pousar o copo e a garrafa de água sem deixar marcas na madeira que dá mau aspecto e parece mal. Quando o senhor Sócrates nos veio entregar o Magalhães a minha professora até teve de se sentar na secretária para ninguém ver a rodela que o copo deixou na madeira. O Magalhães é um senhor que nos deu um computador parecido com a malinha da minha prima Idalina. A minha prima tirou um curso de manicura à noite e faz as unhas a uns velhos que até são muito bons clientes. Vão lá casa duas vezes por semana porque as unhas são umas coisas que crescem muito de um dia para o outro e devem ser cortadas rente porque senão os senhores são obrigados a vir às escondidas com vergonha das unhacas que ficam iguais às da minha professora que quase me arrancava os olhos quando descobriu que eu tinha copiado o título do livro. Nem se preocupou em ler o resto que era muito bom e falava no Cavaleiro de Oliveira que é o um senhor que morreu já múmia e que fazia filmes com a Soraya Chaves que já foi namorada do senhor Padre Amaro. Depois arrependeu-se e foi para Nova York estudar muito teatro. Já estava cansada de mostrar as mamas. Queria ver se conseguia mostrar menos coisas e dizer mais palavras. Coitada parece que aquilo correu mal só por causa dos professores que não sabiam falar português e gostavam de mamas. A senhora Soraya Chaves tem cara de gostar muito de hipismo que é um desporto que os hippies praticam e que exige uma cara de quem está sempre com pedra nos rins ou que enfiou no nariz o pó que a senhora que apresenta os sorteios da Santa Casa usa para encarquilhar e parecer morta há já uma semana. A gente percebe que é só a fingir porque ela até está muito bem para a idade como a minha professora que ninguém diz que é uma velha que já devia ter morrido e que não leu a minha redacção até ao fim porque me disse que eu devia respeitar os mortos que fizeram tanto pela nação e deixar de ser ingrato e rezar rezar rezar para que Nossa Senhora de Fátima nos ilumine que sabe iluminar as pessoas muito bem. Tem uma pilha na carteira porque no sítio onde moravam os pastorinhos não havia electricidade. Só lâmpadas muito fraquitas. Eu não falei de morto nenhum a não ser que ela estivesse a pensar que eu estava a falar do Senhor Oliveira que era um empreiteiro patrão do meu primo Zeca que trabalha nas obras da Covilhã que até foram primeiro desenhadas pelo Senhor Sócrates no computador que lhe deu o Magalhães que tem um programa chamado paint. Só se fosse por isso. O senhor Oliveira morreu num acidente de aviação porque uns pássaros se agarraram as rodas para ir de boleia. Aquilo deu para o torto porque o avião era uma avioneta sem força para aguentar a passarada e só havia um charquito para pousar nas emergências que era o charquito onde depois se fez o Freeport porque com os passarinhos mortos já não havia lá nada para guardar a não ser umas bichas sem importância que foram todas lá para dentro e que agora estão desempregadas porque o povo gosta de peixe e armou uma cavala só porque aquilo não demorou nadinha a ter autorização para se fazer. É uma vergonha porque se demorasse também reclamavam. O povo nunca está contente a não ser com o desgosto dos outros e não percebeu que o Senhor Sócrates fez aquilo a correr para esquecer os passarinhos que morreram no desastre agarrados as rodas da avioneta. Nem se queria lembrar daquela tragédia e quis fazer uma coisa parecida com o que estão a fazer em Nova York onde a Soraya Chaves mostrou as mamas. A minha prima Idalina disse que gostava de fazer como ela e estudar ainda mais para fazer umas unhas aos trolhas que lá trabalham porque pelo menos tinha uns andaimes em condições para se encostar e não a porcaria nojenta dos andarilhos dos velhos. Eu gosto muito do tema livre.

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A Gaffe numa fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

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Tenho lido com particular atenção as opiniões que vão surgindo relativas à foto vencedora do World Press Photo onde o assassínio do embaixador russo é captado alguns momentos após ter sido cometido.

Humildemente reconheço que os discursos que a foto vai provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde é nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos.    

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

A foto premiada não obedece a estes pressupostos. Segundo o autor foi um acaso. Acreditou mesmo ser apenas uma performance a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Esta alteração acaba por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-ia, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação do instante surge ainda contaminada pelo construído, torna-se demasiado intencional, porque está imbuída da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acaba por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. A foto não nos desorganiza, porque se reduz a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

A foto do assassinato do embaixador russo espanta porque parece estranha, paradoxalmente calma, porque está privada da nossa explicação privada, usa a linguagem - que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso ainda tem a presença do fotógrafo.  

 

É literal.

Introduz-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.    

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