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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vencedora

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.17

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Às vezes o nosso melhor argumento de defesa, é precisamente a forma como somos atacados.  

 

Greta Garbo - The Mysterious Lady - 1928

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A Gaffe emocional

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.17

Peter Lippmann

 

O dia atira-se contra as paredes e faz do tempo que passa um trapo que se esquece no côncavo das horas mortas.

 

Estou cansada e penso que hoje todas as minhas emoções foram dispostas como naturezas-mortas. Alguém, externo ao meu sentir, assim as quis e assim foram entregues.

 

São emoções sem a minha alma dentro.

 

Fotografia - Peter Lippmann

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Gavetas:

A Gaffe mortal

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.17

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A dor tem uma propensão democrática. Não é rapariga de distinções, ou moça preconceituosa e dada a selecção de classes.

Chega, instala-se e vai tricotando o tempo, indiferente ao modo como a tratamos. É de nula importância se lhe servimos um chá e biscoitos de fino trato, ou se a alimentamos a chouriço e broa com azeitonas. Cada um a trata como quer ou pode e a ela pouco importa. 

 

Sempre me foi ensinado a tratar a dor com silêncios. Alguns a durar muito. Aprendi, por exemplo, que o luto, essa habituação à ausência de alguém, exige uma solenidade que não se compadece com declarações a pingar lirismos que ilustram o quanto se finge que se acredita que aquele que morre, não morreu, que permanece no ar que se respira e que foi dele, ou nos crisântemos que crescem para adornar sepulturas, ou nas rabanadas do Natal.

 

Mesmo quando me diziam que ninguém morre, frisavam, ainda que de modo subtil, que as metáforas que eram usadas para mo dizerem, não passavam disso. Metáforas. Algumas eram magníficas, mas traziam na cauda dos pinchos das palavras a certeza da morte. Irreparável.

 

Morre-se. Morrem-nos.

 

Aprendi - muitas vezes com dureza - a não acreditar nas lamúrias, nas choradeiras líricas, nas evocações diaristas da dor pregadas nos monitores com florinhas orvalhadas de lágrimas ou nas colagens básicas da memória do morto às árvores que rolam os ramos no vento que passa com a voz do ausente.

 

Ai, flores do verde pino.

 

Admito que pode ser um exercício de catarse este produzir de treta poética e que a ele sucumbi algumas vezes. Há no entanto em mim uma certa consciência da morte como ocorrência lógica que não permite que a neguemos com prolongamentos metafóricos.

 

Nada continua após a morte de alguém. Nada permite declarar que o que nos morre continua vivo nas coisinhas que o recordam. É demasiado pobre. Demasiado pouco. Demasiado indigno. Morrer merece mais.

 

No pescoço da minha irmã pousa o colar que foi da minha avó. É agora o colar da minha irmã. Nada mais. As sardinheiras de Espanha que o meu avô cuidava, são agora minhas e da minha responsabilidade. A vida da minha avó não está prolongada no colar e a do meu avô não continua a crescer no jardim e a memória só precisa de incentivo quando se atenua. 

 

Às vezes descubro que existe um buraco negro e fundo no meu peito que a morte deles continua a cavar ininterruptamente, mas aprendi os silêncios que lhes devo e a dignidade de os saber mortos.

Fui a neta deles. Sinto-o em cada movimento que faço, em cada decisão que tomo e em cada passo que dou e mesmo assim a vida é minha e nela nenhum passarinho ou raminho de hortelã que ouço ou corto, faz soar o canto do Proust das tardes da minha avó ou me traz o sabor a limpo do colo do meu avô. 

 

Quando eu morrer, não batam em latas.

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A Gaffe de mãos partidas

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.17

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Já não levanta os olhos como outrora.

Agora as pálpebras pesam como se arrastassem os que perdeu pelo caminho. O silêncio aguçou-o, ou a luz que recusa.

Agora é como uma coisa que usa, um órgão, um sinal, uma máscara ou uma luva preta. A resignação cresceu como um bicho cego, mas já não raspa o chão com os pés, como se tivesse garras.
Agora está nos olhos mal abertos.

Acompanhei-o à porta. Olhou-me de frente, recuou e abraçou-me como nunca o tinha feito, nunca assim de ferro.
O abraço tinha lágrimas nos dedos.

Vai morrer em breve.

Tinha decidido procurar-lhe a esperança, mas breve descobri que ela não constava do registo.

 

Fico esmagada perante as poderosas asas que perdemos quando ao longe, mesmo quando o longe é bem mais longe do que aquilo que pensamos, vemos tropeçar no fim os que desistem.
Deixamos de encontrar os nossos braços prontos para agarrar a queda daqueles que nos entram pelo coração adentro, mesmo ao longe que é bem mais longe do que aquilo que quisemos.

Temos mãos partidas.  

 

Fotografia - Weichuan Liu

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A Gaffe num teatro antigo

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.17

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Lembro-me, já lá vão alguns anos, antes de voarmos pela Rua de Cedofeita todas as tardes em bando tresloucado de pardais, de pararmos no Piolho, café destinado a uma certa boémia quase decadente que atirava bolas de sabão aos muros da vida com a facilidade dos imaturos. Nesses fins de tarde, estalando gargalhadas e tilintando copos, víamos passar uma rapariga que nos intrigava, espalhando no ar os devaneios que se prendiam ao seu sorriso solar.

 

Lembro-me que usava peças desencontradas, oriundos de universos díspares, muitas vezes contraditórios. Tules de palcos barrocos, chapéus de Al Capone, rendas Sevilhanas presas nos dedos, blusas de românticas paragens, fitas de veludo nocturnas de Chopin, sapatos de rapaz que estuda em Oxford e lenços que eram pássaros a passar.

 

A intrigante figura de menina-puzzle provocava os mais diversos dislates nos rapazes e alguns remoques tontos na boca das meninas.

 

Deixei de a ver.

 

Como no tempo já passado do velho café das ilusões banais, vejo-a ainda a esvoaçar com as nuvens frágeis dos enredos que só ela sabia unir com a luminosidade do sorriso transparente.

 

Um belíssimo passar no Dia Mundial do Teatro

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Gavetas:

A Gaffe à escuta

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.17

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Não é fácil abrir durante a noite ao mar a porta de uma varanda.

Não basta que nos aproximemos da vidraça com a lentidão que nos parece de um aguçado azul apenas porque lá fora só existem os traços cinzentos, babados de branco esbatido, do dorso das ondas rasas. Não basta tocar no puxador. Não basta curvar a palma da mão e sem esforço fazer deslizar o vidro sobre as calhas, com o som de uma gaivota a rasar a copa das ondas. Não basta acercarmo-nos do vento escuro como o breu que não tem som. Não basta perceber que lentamente o marulhar ao longe se aproxima repleto de raízes.  Não basta que aos nossos pés nus assomem as agulhas do frio liquído que alastra devagar até tocar as nossas mãos vazias.

 

Não basta.

 

Durante a noite, não abrimos a porta da varanda ao mar se não adivinharmos o som das gaivotas que pairam sobre a copa das ondas, porque abrir ao mar a porta de uma varanda nocturna é um acto solene e a solenidade exige silêncio, ou a serenidade do planar das gaivotas.

Abrir ao mar uma porta nocturna é como assomarmos ao coração de alguém, como se fossemos capazes de fazer deslizar o que nos separa dessas ondas.

 

Não é fácil abir a porta do coração de alguém sem primeiro ouvir uma gaivota a bater nos vidros.   

 

Na foto - Greta Garbo por Harry Benson

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A Gaffe por entre os vidros

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.17

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Os sons da chuva entram pelo impossível laqueado das janelas.

Atravessam os vidros, as minhas pálpebras e entram no interior dos meus olhos. Sons visíveis.

Lembram flores. Flores que se abrem num espaço que dura apenas o tempo de assomo do meu espanto à janela.

 

Daqui vejo o mar. Parece um mimo. Mudo. A gesticular em modos de afogado.

Descubro que por entre as minhas janelas intransponíveis há intercepções de águas de línguas diferentes e é neste maravilhar que me emudece que pouso as minhas mãos e lavo os olhos.  

 

Fotografia - Sara Facio

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A Gaffe de Dijsselbloem

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.17

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A Gaffe não fica irritada com o eurodeputado polaco que acredita que as mulheres são menos inteligentes e mais fracas se comparadas com homens, devendo ganhar menos por isso. O senhor polaco é a prova viva do que foi ouvido. Um homem que é capaz de afiançar e abalizar esta corrente de pensamento, muito mais activa do que se pode aferir, não é nada parvo, nada imbecil, não é nada velho e demonstra ser capaz de raciocínios que apenas ombreiam com o seu corpo musculado vigoroso, forte, dominador e imponente.

A Gaffe abençoa o eurodeputado polaco, porque é ele que iliba e eleva ao cume da genialidade a mulher mais imbecil que consigamos encontrar.

 

Com Jeroen Dijsselbloem a Gaffe tem de admitir que ficou amuada e aconselha-o a ler este maravilhoso pedacinho de ironia. 

 

O menino holandês que usa fatinhos apertadinhos, que deixam o rabinho redondinho a espreitar, que usa uns óculos muito hipster pousados no rosto redondinho e encaracoladito e que se ajoelha para ouvir o dono, mostrou que  sabe como os países do Sul da Europa são canalhas, bebedolas, mulherengos e pedinchões a viver da disponibilidade caridosa do Norte europeu.

 

Uns safados.

 

A Gaffe considera que Dijsselbloem devia levar tautau no rabinho - não com muita força, vá! - com uma chibata empunhada por um casal vestido de látex, com mascarilhas de Zorro, tacões agulha - os dois -, mamilos apertados por molas de estendal e portugueses - não há nada como um casal de bons, velhos e divertidos portugueses bêbados para compor esta imagem -, depois de ser sodomizado com as tampas das canetas com que falsificou o currículo - embora o menino já tenha experienciado coisa pior, tendo em conta o resultado das eleições holandesas.

 

Dijsselbloem esqueceu o futebol e os milagres.

Imperdoável.

Mulheres, copos, bola e milagres. Eis como caracterizar correctamente os países do Sul da Europa.

 

Os dois meninos europeus, mesmo provenientes de países diametralmente opostos, são encarnações da Europa a duas velocidades que converge num ponto demasiado perigoso para ser encarado como um pormenor de somenos importância:

 

O preconceito.

 

É este um dos alfinetes cravados na pele frágil da União e um dos que vai sangrando devagar e sem se dar conta a tão desejada e publicitada coesão europeia, permitindo equacionar uma Europa retalhada em dois territórios. A região-desenrasca e demarcada dos pobres chico-espertos e a região benemérita dos ricos sacrificados que fazem crer à primeira que é bêbada e frequenta prostíbulos, exactamente da mesma forma como a fez acreditar que vivia acima das suas possibilidades. Repetindo até entranhar o que lhe é conveniente e o que permite salvar potentados financeiros do colapso trafulha.

 

O menino polaco e o menino holandês podem unir trapinhos. Afinal, pensam da mesma forma e só se estraga esta europa.

 

Ilustração - Gerhard Haderer

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A Gaffe coincidente

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

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Foi exactamente numa tarde em que a minha avó se mantinha ocupada discutindo com todos a propósito da falta de limpeza do jardim, repleto de silvas capazes de estraçalhar os dedos mais calejados, que arrastei o quadro - que me parecia gigantesco - para o cubículo.

 

Não foi tarefa simples.

 

A casa andava nervosa com o alarido da minha avó e ninguém se preocupava comigo, ocupados que estavam em mastigar maldições e a mascar insultos. A minha mãe, no andar de cima, próxima das beladonas, ausente mais uma outra vez e a minha irmã, lá fora no jardim, tinha tido a bondade de começar a brincar com o único miúdo que aguentava a sua maldade. Os dois pareciam entender-se. O rapaz gesticulava mimando uma mudez idiota e ela sorria e pulava e corria junto das silvas que tinham despontado na fúria da avó, exactamente porque a neta, num dos raros momentos em que se divertia, corria o risco de ser arranhada.

 

A minha preocupação não se ligava ao perigo de ser descoberta no meio do meu crime. Tinha mais a ver com o modo de arrastar o quadro pesado que se revelava muito mais custoso do que eu julgava. A resistência que me oferecia acicatava-me o ódio e enfurecia-me a vontade de o massacrar. Representava uma mulher oitocentista, mas longe de Watteau, tal os tons escuros, sombrios, obscuros, poderosos e quase sinistros. Os braços nada maleáveis pareciam um incómodo e o vestido rígido não permitia imaginar um movimento que o vestisse. A tela, descoberta por acaso, permanecia encosta à parede da sala grande à espera de ser avaliada.  

 

A maneira mais fácil foi arrastar o quadro pelo soalho. Para o retirar e fazer com que chegasse ao cubículo, tinha de atravessar a sala grande que funciona como centro da casa por ser nela que se abrem as outras divisões e todas as escadas. O soalho é de tábuas grossas e grandes, velhas e irregulares, enceradas quinzenalmente sob a vigilância da mulher mais velha. A tela, no exacto ponto em que as pintadas fitas de cetim trepavam pelo vestido, ficou subitamente presa algures. A criatura resistia e não havia tempo a perder. Num puxão violento as fitas foram arrancadas, separadas do vestido por um rasgão medonho.

 

A tremer tentei salvar-lhe o tecido, mas o cetim tinha ficado irremediavelmente estraçalhado. Um golpe pingava fios e havia um arrepanhar da tela parecido com uma ferida mal cicatrizada. Já aflita, continuei a arrastar a minha vítima.

 

Quando consegui enfiar o quadro no cubículo senti uma sorrateira vontade de chorar a espreitar-me a garganta e a fugir-me pelos olhos. Sabia que o crime que tinha cometido dificilmente teria perdão e começava a temer as consequências. Um friso de luz coada atravessava a cara da mulher pintada, tocando-lhe na orelha, caminhando por uma das maças do rosto, seguindo tangente a uma das asas do nariz, esboroando-se na parede logo depois de lhe roçar o início do lábio superior. Foi então que retirei do bolso o lápis grosso das contas da cozinha que me haviam dado por pequeno, e segui com a grafite romba o caminho da luz. A senhora olhava-me, dentro da penumbra, impotente e humilhada. As pestanas quase buliram enquanto o traço se ia desenhando unido à fronteira que agora era marcada nítida entre a luminosidade e a sombra, mas mais nada interferiu no meu crime. Seria perfeito se, depois de ter recuperado a respiração e tomado consciência de que era obrigada a fazer o trajecto de volta, a portinhola do cubículo não se escancarasse e não tivesse sido agarrada de forma violenta pela minha avó.

 

Pousou-me no chão sem qualquer palavra, encostou-me a um canto e retirou o quadro do buraco. Os seus olhos aguçados cravaram-se no risco e eu já sentia as paredes abanadas pelo medo e alfinetes por toda a minha pele, a minha avó rodopiou com a tela presa no braço, afastando com o braço livre as mulheres esbaforidas que a seguiam, atravessou a sala e desapareceu.

 

Fiquei quieta. Já não sabia se o que corria pela minha cara era a vontade de chorar que havia sentido durante toda a cena. Sentia que se me movesse as paredes viriam contra mim, apertando-me até sufocar e no entanto via a sala crescer desmesuradamente, encher-se de espaço e de ar que, de tanto, me asfixiava.

 

Nada estava acabado. A atitude da minha avó estava incompleta. Esperava o final. Vê-la surgir já sem o fardo e fazer da minha vida um trapo sujo. O tempo de espera ajudou-me a preparar a morte. Controlei o ar e as paredes e estava heróica quando a porta da frente, a que dava para o exterior, se abriu com um barulho de inferno. Por ali dentro entrou a minha mãe e percebi que o mundo tinha acabado naquele exacto instante. Pela mão trazia a minha irmã. Senti vibrar o ar em redor delas. Havia picos a rodar as silhuetas e perigo no queixo erguido e nas narinas dilatadas da minha mãe. Entraram como duas bruxas. Uma maior, outra a voltear arrastada. Foi quando ultrapassaram a soleira, deixando a contraluz, que me apercebi que havia outro erro. Não era eu o destino da fúria. Os olhos da minha mãe atravessaram-me, mas continuaram a busca. Foi a minha irmã, que se debatia a tentar partir a tenaz dos dedos da mãe, que me fez compreender a razão da minha aparente impunidade. Tinha na cara um largo, negro, sujo risco traçado a carvão. Mais grosso que as minhas estradas feitas na terra do quintal para ligar formigueiros, o risco nascia na orelha, caminhava por uma das maçãs do rosto, seguia tangente a uma das asas do nariz e esboroava-se no início do lábio superior manchado de sangue.

 

O miúdo que com ela brincava no quintal, e que havia sido o responsável pelo desenho e pela ferida, esgotada a paciência com que devia ser tratada a companheira, foi banido para todo o sempre.

 

Encontrei-o largos riscos depois, numa mostra de arte naïf.

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Gavetas:

A Gaffe e as lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

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Todas temos, nas mais matreiras das esquinas da nossa alma, prontas a saltar e a jogar à macaca, lolitas tão ou mais perigosas que a original.
 

Somos pérfidas, perversas, maliciosas e, quase por instinto, reconhecemos que a mais pueril das inocências se pode transformar numa lâmina que não vai apenas escanhoar o esperado. Ignorar as lolitas que espreitam, espertas, picantes, o momento exacto em que podem fazer silvar o chicote de uma das mais implacáveis formas de sedução, é arriscar demais, de olhos vendados.

       

O poder que subjaz a uma consciente inocência, tangente a uma infantilidade controlada, transforma uma mulher num crime. É inodora, incolor e não traz sal à superfície, mas não é seguro, para um rapaz desprevenido, entrar nesta aparente transparência. Mergulha, solto e leve, refrescado e calmo e duas braçadas depois, há sangue na água.

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A Gaffe subtil

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.17

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 Há pequenos toques, de frágil subtileza, que transformam o jogo duro no mais suave dos encontros.

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A Gaffe com o longe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.17

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A sanha reformadora da minha irmã atrasa a minha partida planeada há tempos.

Reforma, reestrutura, reorganiza, redecora, arrasa e refaz o meu antigo apartamento, vazio desde que eu quebrei, já lá vão anos.

 

Não é conveniente arrastar uma fragilidade para o lugar exacto onde outra foi atingida, estilhaçada e assolada.  


Aguardo com a placidez dos mansos, dos que ruminam a paciência nos prados do sossego.  


A minha espera é como um gato gordo e indiferente. Dorme entre os afagos que despreza e sorrateiramente destrói as almofadas.  

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Gavetas:

A Gaffe voadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.17

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Em tempo que já lá vão, era eu menina e moça, levada de casa de meus pais, introduziu-se-me na cabeça a ideia peregrina de abandonar tudo o que tinha iniciado e planeado levar a cabo e a bom porto e me transformar em comissária de bordo.

 

Com altura suficiente para esmagar rivais prováveis, magríssima, porque o choque alimentar e o jat lag gastronómico, me tinham arrancado o apetite voraz que sempre me caracterizou, e ruiva até à mais ínfima sarda, acreditei ter hipóteses de ser seleccionada pela Emirates Airlines num processo que decorria num dos hotéis mais famosos do Porto.

 

Do alto dos meus vinte e poucos anos, entrei sozinha e segura, de calças e de caracóis soltos na sensação de futilidade do acto, que se vinha tornando a cada passo que dava na alcatifa fofa uma tolice monumental a que não era indiferente um piquinho de desafio em relação à opinião – desfavorável, como se esperava - que não se tinham cansado de me ceder sem gastos.

 

Fui seleccionada.

Não foi grande vitória. Num rio de Barbies bastava nadar até à margem e não chocar com os Kens.

 

Deveria estar presente dois dias depois, manhã cedo, no mesmo hotel, mas desta vez com o cabelo apanhado, saia travada e tacões dispostos a humilhar o Evereste.  Esta pose estereotipada que assumi com prazer, prova que muitas vezes a submissão ao imaginário provavelmente machista não significa um abdicar da dignidade feminina, desde que cumpra os objectivos a que uma mulher se propõe.

                                                                                                         

A noção de vanidade e de vacuidade da minha candidatura foi crescendo ao lado da minha vontade de vencer o que se tinha tornado apenas um desafio sem consequências práticas.

 

Na manhã aprazada, a minha irmã aceitou adereçar-me. Condescendente, elaborou o uniforme, cumprindo as exigências descritas, e prendeu no meu pescoço o colar que me permitiria comprar o avião.   

 

- Usa-o - refilou, quando protestei. - Tens de os convencer que ser … aquilo é a tua verdadeira vocação e não um emprego mal pago que te permite andar de cabeça no ar.

 

Muito Grace Kelly, anui à vontade da minha irmã.

Seria transportada por ela que não queria perder uma pitada da minha provável humilhação.

 

Lembro-me que o trânsito - naquela manhã como em todas as outras -, nos obrigou a sair com uma antecedência significativa, que foi perdendo vantagem à medida que nos aproximávamos do destino que nos fez parar à porta do hotel sem qualquer respeito pelo fado.

Foi nesse instantinho que acordaram em mim a pirosa, a ranhosa, a pateta e a totó, sem que fossem travadas pela sobranceria da mana que olhava de soslaio pelo retrovisor o condutor que se tinha atrevido a buzinar e a barafustar contra o impedimento loiro e altivo que se tinha assestado no caminho e que agora empunhava o rímel pronto a perfurar os olhos ao condutor irritado.

 

O casaquinho?! Levo ou não levo? Ai, que levo. Ai, deixa-mo vestir. Ai, que me fica mal. Ai, que tenho de o tirar. Ai, que não me parece bem. Ai, que levo? Ai, que não levo? Ai, que dizes? Ai, que pareço uma catequista! Ai, e se não o levasse? Ai, que pareço uma ninfomaníaca sem ele! Ai, que vou mesmo assim. Ai, tu não achas que o devia levar vestido? Ai, levá-lo no braço é suburbano!

 

- Não vás. Estás com um atraso de um minuto. Manda o casaco.

 

Mas fui.

Desatei a correr esgaivotada, de tacões a tentar escapar dos interstícios das pedras e a tropeçar depois no pelinho do soalho, de saia a apertar-me a correria, de colar a dar-a-dar e com o soutien a saltar-me pela boca.

 

Cheguei três miseráveis minutos depois da hora estabelecida e a minha fulgurante carreira de comissária de bordo terminou ali, porque - disseram eles - tinha atrasado a partida do avião.

 

Passados anos sobre esta minha leviandade aeronáutica, se não continuo a atrasar os aviões, é porque vou de barco.

 

Imagem - McClelland Barclay

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A Gaffe ensacada

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.17

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É extraordinariamente difícil para um rapaz aguentar, impune, as calças cuja cintura descaída se alia ao um cós profundo, avantajado e quase infinito.

Não há paciência para tanto pano e para as inevitáveis suposições escatológicas que são permitidas pelas fraldas que parece estar a usar.

 

A absoluta necessidade de se possuir um corpanzil digno de registo e a urgência de se estar guarnecido de umas pernas com comprimento assinalável, obriga a cuidados acrescidos quando se escolhe este desenho.

 

A ousadia, na ausência do apoio físico requerido, torna-se inconsciente e tonta, fazendo crer que vos deslocais, rapazes, apenas com a parte superior do corpo. Tendo em conta que quem esta escolha faz, sem grandes pernas para o salto, não tem cérebro, concluímos rapidamente que apenas se move o vosso tronco. Um tronco que se mexe pode ser agradável em várias circunstâncias, mas confesso que assusta quando o vemos na rua, com dois pés.

 

O problema complica-se imenso quando a inexistência de cérebro se reflecte na escolha dos complementos para esta peça. A harmonia do conjunto é embargada com uma agilidade inesperada e torna-se desesperante ver entrar pelos nossos olhos sacos largos de variadíssimas texturas, tramas e padrões, contendo pouca coisa susceptível de figurar no nosso repositório principal.

 

- O ideal não anda sem ter pernas - diria Chanel se cá estivesse.

- Sem pernas, o ideal é não tentar andar -  digo eu que sou da aldeia.

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A Gaffe em narrativa simétrica

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.17

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O que torna uma mulher reconhecível no meio de uma multidão de extraordinária beleza?  

 

Os estudiosos declaram que é a simetria. Um rosto absolutamente simétrico possui a capacidade de ser considerado belo em todos os lugares e em todos os tempos. Atravessa as civilizações e nelas deixa marcas indeléveis, consegue aglomerar em seu redor a generalizada opinião que eleva as suas formas à condição de excelência e produz invariavelmente a unanimidade em relação à formosura que possui.

 

Eventualmente será assim.

 

No entanto, um querido amigo tem uma teoria diferente.

 

O que torna impossível uma mulher ser ignorada pode não ser a simetria do rosto, que de perfeita é incontornável, mas a história que o rodeia. A deslumbrante capacidade de prender o olhar, não a forma correcta do nariz ou o langor dos olhos iguais, quase duplicados e reflectidos por milagre, ou a harmonia constante das maçãs do rosto, mas a possibilidade de reter histórias ou a faculdade de despertar enredos no imaginário do mais comum dos mortais.

 

A beleza indestrutível é um misto de narrativas por escrever. Acorda o talento inventivo de cada um de nós e permite-nos a adivinha, o jogo, a fantasia, o devaneio e a ilusão de podermos alcançar a quimera que vamos sem saber construindo a partir do que não lemos.

 

A simetria auxilia a beleza, mas é o poder que a mulher retém de provocar histórias que faz dela única e a torna impossível de ignorar.

 

Imagem - Rachel Ruysch (Séc. XVII)

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