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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe acordou assim

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.17

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Creio que adquiri o direito de fazer o mesmo que as meninas com o cérebro feito de papa cor-de-rosa e declarar com a maior desvergonha:

 

 - Hoje acordei assim!

 

Acordei com um desejo imenso de me abrirem a porta da sumptuosidade, entrar a rastejar um Valentino, rumo ao jacto privado, logo ali na esquina, e pedir algo a um garboso, e sobretudo jovem, motorista, esperando de olhar assassino que o rapagão não me ofereça - apenas - as bolinhas rugosas e encarquilhadas, embrulhadas em papel risonho e enrugado.

 

Há diferenças substanciais em relação ao anúncio, como se percebe.

 

Na foto - Pierce-Arrow Convertible Sedan com carroçaria de LeBaron - 1931

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Gavetas:

A D. Dulce

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.17

Eu gosto muito da D. Dulce Pontes. Ontem vi na televisão que a D. Dulce lançou um novo CD que os velhos já tinha lançado e fiquei muito espantado, porque a D. Dulce faz CD todos estragados. O senhor Vitorino que é um homem que tem reuniões às Segundas e Quintas-feiras ao fim do dia com a minha irmã Idalina deu-lhe um e disse-lhe olha Idalina hoje não trouxe queijo mas dou-te este CD muito bom que me deram lá nas obras. Eu até fiquei muito contente porque sou obrigado a comer os queijos do senhor Vitorino que diz que fazem muito bem aos ares mas que cheiram muito mal porque são da serra e os pastores são muito pobres e não conseguem dinheiro para comprar luvas para amassar as tetas das cabras e então usam nas mãos as peúgas de lã que tiram aos fins-de-semana para as pastoras as poderem lavar. O CD que o senhor Vitorino deu à Idalina estava mal porque avariou a aparelhagem e a culpa não foi da aparelhagem que até tem um botão que diz play em inglês. Isso não adiantou nada porque quando a minha irmã meteu o CD o aparelho começou aos gritos muito estranhos que até parecia que estavam a enfiar um cacto no cu da D. Dulce. O meu primo Zeca disse ó Idalina ó bruta tu não vês que é a mulher que canta assim. O meu primo Zeca não pode dizer nada porque só gosta da dona Mariza Rodrigues que já morreu e está metida na parede dum apartamento muito grande e importante em Lisboa. A D. Mariza Rodrigues tinha o cabelo branco dos desgostos que apanhava quando andava no fado e com carrapichas que é uma mistura de carrapato e das coisas que não posso escrever aqui porque levo uma pantufada da minha professora que me leva os dentes e que é muito injusta porque não faz mal usar os nomes científicos que os médicos dão à pila. Eu não tenho culpa da D. Mariza Rodrigues ter carrapichas no cabelo que foram feitas por um cabeleireiro bicha com cuspo. O cuspo das pessoas bichas é muito peganhento e pegajoso vá lá a gente saber porquê e dá para fazer essas coisas que dão muito trabalho e que fazem as pessoas bichas adoecerem e ficarem muito distraídas e muito cansadas. O Senhor Padre Alfredo disse que as pessoas bichas precisavam de tratamento num campo e de se concentrarem mais. O meu primo Zeca disse que as pessoas bichas não podem meter um supositório sem o segurarem com um alfinete porque cai. Ora eu acho que gente assim precisa de ajuda como eu que mamei agora uma traulitada da minha professora porque a D. Mariza não se chama Rodrigues e quem se chama Rodrigues é outra senhora chamada Amália que não morreu porque o meu primo Zeca disse que ela não morre e que abre os braços e levanta a cabeça para ver se os pássaros não lhe borram a cena e que diz obrigada obrigada obrigada agora o povo agora o povo agora o povo e a gente canta que se desunha em vez da senhora D. Rodrigues que ganha um pipa de massa com aquilo e depois compra cortinados muito grandes que também servem de vestidos mas mais bonitos do que os da D. Dulce que são todos uns sacos de merda e que a fazem gorda e a parecer um daqueles bonecos gigantes que havia naquele país que agora é dos americanos e que uns homens deitaram abaixo para fazer bonequinhos mais pequenos e vender aos chineses que fazem aparelhagens iguais à da Idalina e que gostam muito de ouvir a D. Teresa Salgueiro que era uma freira que cantava sempre a mesma coisa na missa. O senhor papa número 16 antes deste mandou-a para a China quando descobriu que ela não era culogista e gostava de incendiar vacas e depois comer. A D. Teresa pelo menos não faz caretas como a D. Dulce. Parece que não é um cacto que lhe enfiaram no cu é coisa mais fina tipo apito. A D. Teresa usa umas mantas pretas com penduricalhos nas pontas e tem também um cabeleireiro muito doente que não sabe que o cabelo é uma coisa que cresce pela massa cinzenta do cérebro e que até pode encravar e crescer para dentro e fazer as pessoas carecas. Eu gosto muito da D. Dulce Pontes.

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A Gaffe em silêncio

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.17
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A hora em que não ouço este meu Porto.

 

Próxima do alvorecer, a hora do deserto interrompe as ruas e passa como um vadio com o silêncio nos bolsos. Nessa hora, o mar não tem queixume e dele apenas sinto as mudas ondulações das desbotadas ondas. É a hora das palavras por dizer. Chegam nos bolsos do vadio que passa, junto aos silêncios, e ficam presas nos frouxos candeeiros como frutos ou pedaços de gente bêbada, escura, que adormece.

 

Invento o meu ruído nessa hora. O que me faz ouvir o que nas outras horas emudece. Abro a porta da varanda e debruço-me nos bolsos dos vadios, dos que usam o silêncio como frutos ou travos de gente pendurada nos vagos candeeiros, e deixo que as palavras sigam deslumbradas como se tivessem nascido há pouco tempo e pasmadas se infiltrassem nos rochedos.

 

A minha hora muda é o silêncio dentro dos vadios e uma mulher com cabelos soltos, nua, a flutuar no rio.

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