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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e uma cabana

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.17

 

No imaginário feminino há sempre um cão e uma cabana.

 

Ao contrário dos cenários que se tocam e se intersectam nesta ânsia mais secreta das urbanas raparigas, a ausência do conforto electrónico não é premissa excluída. O desejo inconfessado de uma longínqua, solitária, perdida e bucólica choupana, inclui agora uma eficaz ligação à net. A falta do restante, partindo do princípio que coabitamos com um moçoilo que preenche todos os nossos sonhos - incluindo os mais chuvosos ou intempestivos -, não consubstancia problema grave. O homem, incluído na cabana que fantasiamos, oferece uma panóplia de iguarias, manjares, guloseimas e serviços que nos dispensa qualquer outra minúcia citadina e mesmo o cão é por ele levado a passear, no amanhecer sumptuoso que se repete incansavelmente só para nós.

 

A única cautela a ter relaciona-se com a facilidade com alguns homens se confundem com caniches. 

 

Se devaneamos agora desta forma - ao contrário do sonho no passado - com esta peculiar servidão do Pai Thomas, é talvez porque nos tenham feito crer que o amor não interessa e o que realmente importa são os arredores.

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A Gaffe e Marie Antoinette

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.17

 

Explicou-me um amigo, há mais de dois anos, aquilo a que alguém chamou o Síndrome de Marie Antoinette.

 

Basicamente não passa da inconsciência, da indiferença, do sentido de impunidade, e eventualmente do desconhecimento de alguns - os que padecem deste síndrome - da demolidora força de reacção que provocam naqueles que de forma contínua são espezinhados e espoliados.

 

É um esplêndido nome para um síndrome, tendo em conta que Marie Antoinette, rainha dos franceses, ignorou por completo - e de forma  dir-se-ia inqualificável e impensável, caso não se contextualizem os acontecimentos - a miséria, o estado de indigência, a fome e a fúria do povo de que supostamente era soberano por direito divino.

 

Quando a multidão de esfarrapados e de miseráveis armados arrombaram os portões de Versailles, Sua Majestade veio saudar os súbditos, espantada por os ter ali tão perto, e só entendeu verdadeiramente o que se passava quando se viu privada, de forma muitíssimo real, da coroa que viria apensa à sua cabeça cortada.

 

Nenhuma revolução, a não ser talvez esta, a francesa, teve origem no povo.

 

As revoltas cozinham-se nos corredores ou caves de elites ou grupos com algum significado ou capital cultural, económico, social ou simbólico que atiram um pavio inflamável para as ruas  que, por sua vez, o povo se encarrega de incendiar.

Parece-me claro que há evidentes indícios que levam a crer que o Síndrome de Marie Antoinette se instalou nos que governam hoje o planeta. Distanciados daqueles que dizem orientar e civilizar, olham nos monitores omnipresentes os gráficos que por sua vez lhes orientam as decisões.

Parecem imunes. Sentem-se imunes. Há uma espécie de redoma armada que os protege e nomeiam estas criaturas de modo a legitimar os actos que aconselham as linhas dos gráficos, enquanto fazem mirrar a consciência que acaba nas margens dos monitores.

 

Se há areia na engrenagem, basta oferecer à gentalha a hipótese de novas eleições e a ilusão de que o voto pode democraticamente alterar os sistemas. Os rostos visíveis do aborrecido fracasso, partem de férias, vão estudar filosofia ou são nomeados para governar bancos centrais. Novos títeres aparecem.

 

Não quero particularizar, apesar de o parecer neste instante. Os líderes da actualidade são no fundo burguêses pequenos e os pequenos burgueses são pessoas que fingem muitas vezes os seus complexos, o seu desmesurado egoísmo e ambição sob a aparência de um idealismo que não tem em qualquer conta a realidade e os governadores - por exemplo, do Banco de Portugal - não passam de criaturas que se enfiam, caladas e impávidas, a um cantinho de um dos poucos botes do Titanic, se lhes dizem que a sua imobilidade quase assassina lhes dá a salvação ou o lugar de vice-presidente do Banco Central.

 

Não me interessa, neste caso, tratar de bagatelas.

 

Importa mais perceber que o Síndrome de Antoinette, que parece instalado há longos anos naqueles que não vão ter sequer varanda para acenar ao povo, não usa, como outrora, a desculpa da falta de informação para não reagir. Hoje, os que reinam apercebem-se do trágico espectáculo que provocam e reconhecem o perigo. Soltam os fantasmas que conseguem e erguem os cenários de catástrofe que ajudam a silenciar ou a tentar mirrar as multidões, protegidos pelos títeres que escolheram para sustentar as eleições do povo.

 

No entanto, um factor novo vai abrindo caminho na indignação a que se assiste: A consciência - certeira como um bisturi nas mãos do cirurgião dos reinos d’aquém e d’além-mar - que os povos adquiriram do culpado. Hoje a multidão parece saber onde a raiz da indignação está situada. Pela primeira vez ouve-se a palavra dinheiro, gritada, cuspida e misturada com gás pimenta, amaldiçoada e ameaçada e culpabilizada em todo o lado e apercebemo-nos, com alguma surpresa, que os antigos e armados guerreiros, defensores de bancos e de bolsas e de grupos, de quedas e subidas de petróleos ou de paraísos de sóis que são fiscais, são vistos como alvos de uma espécie de sedução solidária ou de solidária adesão à indignação.

 

As armas podem mudar de mão e, se isso acontecer, o povo será, pela segunda vez, responsável pela sua revolução.

 

Pelo menos, hoje, ameaçam Wall Street e reconhecem a monstruosidade Goldman Sachs. Ninguém vai a Versailles arrancar a cabeça a Carla Bruni, até porque toda a gente sabe que já não mora lá.

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