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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de olhos fechados

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.17

Se correr as portadas e impedir que a luz se atreva a começar, se me sentar quieta na cadeira do meu quarto e pousar as mãos cruzadas nos joelhos, fico como se fechasse os olhos nas pontes de Paris ou como se tivesse perto a Capela do Senhor da Pedra onde a areia servia de bruxedo e havia uma concha partida no parapeito da infância. Um amuleto.

A minha idade é aquela que deixei ali, coberta pela poeira que fazia o vento levantado e as pontes de Paris são os meus olhos fechados.

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A Gaffe a abanar

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.17

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Mais cedo ou mais tarde, abanamos e sucumbimos à gravidade.

 

Se numa praia paradisíaca levantamos a mão para protegermos os olhos e existe uma brisa que nos refresca a tez, a idade faz com que o nosso braço pareça a bandeira vermelha desfraldada ao vento.

Se decidirmos escolher uma posição sexual diferente da do missionário, a idade faz com que os preocupemos em seleccionar aquela em que o parceiro nunca fica num ângulo inferior ao nosso, porque arriscamos a que o pobre nos veja tudo a cair.

A encorpada e gloriosa águia que tatuamos na coxa da nossa juventude, parece agora um frango encarquilhado pelas estrias e depenado pela casca de laranja que nos resta depois de sugado o sumo e mesmo os gomos aparentam desidratação.

 

Já não cruzamos a perna com a desenvoltura de outrora, chicoteando o ar e matando de inveja as acrobatas do Cirque du Soleil. A idade permite apenas que encostemos uma coxa à outra, a perninha esquerda a sustentar a amiga periclitante, com o rabo enfiado na poltrona e o joelho que tentamos levantar encostado às mamas.

Já não flutuamos pelas avenidas, de vestido quadrinho Vichy, muito Bardot, a fazer esvoaçar a nossa agilidade e silhueta. A idade faz-nos abanar por todo o lado. Faz com que pensemos que estamos cravadas numa daquelas cadeiras vibratórias ligadas a uma velocidade relaxada ou que temos incrustado e avariado o único sexo que ainda vamos tendo e que funciona a pilhas.     

 

Por muito que afirmemos que é mentira, a idade transforma, quer o nosso lazer, quer a nossa vida sexual, em preocupação.

 

As preocupações envelhecem.

 

Raparigas entradotas, ergam-se e libertem-se!

 

Retirem do baú os vossos biquínis exíguos, repletos de lantejoulas e, mesmo que desapareçam metidos nas estrias, ousem enfrentar as ondas com eles encaixados, porque o Verão, até o nosso, não pára de se repetir.

Desfilem de Vichy pelas avenidas. Afinal é vossa a glória de ter feito do padrão a coqueluche e ninguém como vos sabe vesti-lo.

Arrasem guarda-fatos e usem o que de mais estranho lá se encontra. A vossa vida é uma extraordinária colecção de cores, um inacreditável jogo de texturas, um impressionante acervo de formatos. A história de quem sóis conta-se toda assim, ao mesmo tempo.

Seduzi todos os homens que quiserdes! Afinal, a vossa experiência é uma mais-valia e sabeis perfeitamente que é uma monumental perda de tempo esperar que seja o romance a estender-nos na cama. Os percalços que porventura encontrará a vossa sedução podem ser minimizados se escolherdes um seminarista de província, ingénuo e angelical. Mrs. Robinson sempre foi uma das mulheres mais desejadas por todos os adolescentes espigados.

 

Podemos abanar no fim da refeição, mas é na mesa do jantar que foi servido que devemos saborear comme il faut a sobremesa.

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