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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com perguntas

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.17

Suponho que quando Lobo Antunes declara que o que se deve esperar de um livro é que nos modifique a vida, não se refere apenas àqueles de cujo abalo temos consciência, mas também aos que de modo imperceptível nos vão moldando a vida.

 

É evidente que sentimos as dores de uma metamorfose íntima quando nos encontramos com o Cavaleiro da Triste Figura, ou quando tocamos os sete andamentos de Proust, ou ainda quando o desassossego nos entra devagar pelo cantos escuros da alma, mas são as mais subtis alterações que se operam aquando do embate com obras mais discretas que alicerçam as que ocorrem quando o encontro se dá com as mais nítidas.  

 

Há uma espécie de fusão entre a maturidade de um homem e a fragilidade titubeante de uma criança no livro que me encontrou e que produz alterações sucessivas de cada vez que o abro.

 

São setenta e quatro pequenas perguntas que permitem que sejam escritas sete vezes setenta e quatro eternidades.   

 

Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

 

Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?

Porque é que as árvores escondem 
o esplendor das suas raízes?

Haverá algo mais triste no mundo 
que um comboio imóvel na chuva?

 

Porque se suicidam as folhas 
quando se sentem amarelas?


O Livro das Perguntas - Pablo Neruda

 

Ouvi Garcia Márquez dizer que um livro deve conter tudo o que quer dizer no primeiro parágrafo. O primeiro parágrafo tem de render o leitor.

 

No Livro das Perguntas todos os poemas são primeiros parágrafos. 

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