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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe à escuta

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.17

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Não é fácil abrir durante a noite ao mar a porta de uma varanda.

Não basta que nos aproximemos da vidraça com a lentidão que nos parece de um aguçado azul apenas porque lá fora só existem os traços cinzentos, babados de branco esbatido, do dorso das ondas rasas. Não basta tocar no puxador. Não basta curvar a palma da mão e sem esforço fazer deslizar o vidro sobre as calhas, com o som de uma gaivota a rasar a copa das ondas. Não basta acercarmo-nos do vento escuro como o breu que não tem som. Não basta perceber que lentamente o marulhar ao longe se aproxima repleto de raízes.  Não basta que aos nossos pés nus assomem as agulhas do frio liquído que alastra devagar até tocar as nossas mãos vazias.

 

Não basta.

 

Durante a noite, não abrimos a porta da varanda ao mar se não adivinharmos o som das gaivotas que pairam sobre a copa das ondas, porque abrir ao mar a porta de uma varanda nocturna é um acto solene e a solenidade exige silêncio, ou a serenidade do planar das gaivotas.

Abrir ao mar uma porta nocturna é como assomarmos ao coração de alguém, como se fossemos capazes de fazer deslizar o que nos separa dessas ondas.

 

Não é fácil abir a porta do coração de alguém sem primeiro ouvir uma gaivota a bater nos vidros.   

 

Na foto - Greta Garbo por Harry Benson

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