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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe mortal

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.17

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A dor tem uma propensão democrática. Não é rapariga de distinções, ou moça preconceituosa e dada a selecção de classes.

Chega, instala-se e vai tricotando o tempo, indiferente ao modo como a tratamos. É de nula importância se lhe servimos um chá e biscoitos de fino trato, ou se a alimentamos a chouriço e broa com azeitonas. Cada um a trata como quer ou pode e a ela pouco importa. 

 

Sempre me foi ensinado a tratar a dor com silêncios. Alguns a durar muito. Aprendi, por exemplo, que o luto, essa habituação à ausência de alguém, exige uma solenidade que não se compadece com declarações a pingar lirismos que ilustram o quanto se finge que se acredita que aquele que morre, não morreu, que permanece no ar que se respira e que foi dele, ou nos crisântemos que crescem para adornar sepulturas, ou nas rabanadas do Natal.

 

Mesmo quando me diziam que ninguém morre, frisavam, ainda que de modo subtil, que as metáforas que eram usadas para mo dizerem, não passavam disso. Metáforas. Algumas eram magníficas, mas traziam na cauda dos pinchos das palavras a certeza da morte. Irreparável.

 

Morre-se. Morrem-nos.

 

Aprendi - muitas vezes com dureza - a não acreditar nas lamúrias, nas choradeiras líricas, nas evocações diaristas da dor pregadas nos monitores com florinhas orvalhadas de lágrimas ou nas colagens básicas da memória do morto às árvores que rolam os ramos no vento que passa com a voz do ausente.

 

Ai, flores do verde pino.

 

Admito que pode ser um exercício de catarse este produzir de treta poética e que a ele sucumbi algumas vezes. Há no entanto em mim uma certa consciência da morte como ocorrência lógica que não permite que a neguemos com prolongamentos metafóricos.

 

Nada continua após a morte de alguém. Nada permite declarar que o que nos morre continua vivo nas coisinhas que o recordam. É demasiado pobre. Demasiado pouco. Demasiado indigno. Morrer merece mais.

 

No pescoço da minha irmã pousa o colar que foi da minha avó. É agora o colar da minha irmã. Nada mais. As sardinheiras de Espanha que o meu avô cuidava, são agora minhas e da minha responsabilidade. A vida da minha avó não está prolongada no colar e a do meu avô não continua a crescer no jardim e a memória só precisa de incentivo quando se atenua. 

 

Às vezes descubro que existe um buraco negro e fundo no meu peito que a morte deles continua a cavar ininterruptamente, mas aprendi os silêncios que lhes devo e a dignidade de os saber mortos.

Fui a neta deles. Sinto-o em cada movimento que faço, em cada decisão que tomo e em cada passo que dou e mesmo assim a vida é minha e nela nenhum passarinho ou raminho de hortelã que ouço ou corto, faz soar o canto do Proust das tardes da minha avó ou me traz o sabor a limpo do colo do meu avô. 

 

Quando eu morrer, não batam em latas.

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