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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anelar

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.17

avôs

Acredito que os usos e costumes ancestrais, os rituais sem memória dos começos, os cultos, as tradições, os ritos e as cerimónias, quando circunscritas a um grupo específico colocado no interior de um outro de largo espectro e de vasta abrangência, fornecem, ao grupo minoritário, uma coesão inusual, solidificam a sensação de pertença, colmatam ou atenuam de modo que me transcende a ausência de um dos seus membros, fomentam a solidariedade entre pares, atenuam a sensação de desenraizamento que assola os mais isolados e criam identificações essenciais ao crescimento de cada um dos indivíduos.

 

Por acreditar piamente nestes seus factores preventivos, curativos e catárticos, cumpro sem qualquer indecisão, todos os rituais, todos os ritos e cerimónias, obedeço a todos os usos e a todos os costumes que se foram solidificando através do tempo e que a mim chegam inalterados e sei, num saber sem experiência feito, que o equilíbrio do universo - do meu universo -, deles depende.     

 

Esta minha gente tem no acervo da memória gestos antigos que traduzem de forma ritualizada - muitas vezes sacralizada e tantas vezes demasiado orgulhosa - a importância vital de pertença e a noção de raiz, essencial quer à construção do presente, quer à do futuro. Por norma, esta memória é encarnada num objecto, ou num conjunto de procedimentos, atitudes, comportamentos ou inevitabilidades - porventura anacrónicos - construídos pelo tempo da ilógica, que se vão repetindo depois de aprendidos de modo inconsciente, ou por imitação.  

 

No conjunto dos objectos cujo capital simbólico é incomensurável, existe um anel.  

Um grosso, pesado e grande aro de ouro limpo, boleado como uma aliança sem a ser, porque adelgaça e estreita no correr da curvatura para que não seja perdida a ergonomia.   

 

Não é, de modo algum, um símbolo de poder, embora seja doado a quem o tem por direito. É a união de várias uniões.

Pertence naturalmente à matriarca que o usa ao lado da aliança matrimonial.

Usa-o até à morte.

Findo o seu tempo, o anel e a aliança onde está gravado o nome do consorte, são retirados e entregues a um velho ourives de Gondomar - ou ao filho, ao neto, ao bisneto, ou ao neto do bisneto - que os fundem numa perplexidade sempre renovada, para produzir no mesmo molde uma peça em tudo igual à destruída, mas que tem dentro agora a aliança com um nome masculino no interior. O anel não atinge dimensões incomportáveis, porque é dele retirada a mesma proporção de ouro que lhe foi acrescentada, produzindo-se com ela uma gota de um colar.

 

Este proceder honra os homens que pertenceram à história da minha família, torna inolvidáveis as uniões havidas e representa, não o poder absoluto da matriarca, mas de certa forma as emoções contidas no passado, o amor que trespassou uma família inteira e o seu capital simbólico é desmesurado.     

 

Pertencia, como não podia deixar de ser, à minha irmã.

Ofereceu-mo no dia do meu aniversário com uma dedicatória manuscrita à pressa:

 

Porque tu és a guardiã das emoções.

 

No meu anelar direito trago agora o peso de vários corações.

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Gavetas:

A Gaffe num futuro composto

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.17

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Depois de ter verificado, nos instantes anteriores à piscadela de olho de José Rodrigues dos Santos, se estou compostinha, com um pijama inócuo, de perninhas fechadas e botão apertadito, sem qualquer expressão que permita supor intenções mais marotas e ter confirmado que não estava prostrada no sofá numa pose susceptível de despertar a libido do cavalheiro ou parecer que no fim do telejornal nos encontramos para ardentes trocas de informações de carácter mais manual, deparo-me com uma certeza que me deixa perplexa.

 

A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

 

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. O assassino ensanguentado, com a cabeça da vítima debaixo do braço e a reivindicar a autoria do crime como um desalmado do Daesh, poderá ter sido o mesmo que a Patrícia Vanessa terá filmado a esquartejar o cadáver - que terá sido morto antes de ser supostamente cadáver -, alegadamente com o telemóvel, da suposta varanda que terá vista privilegiada para o ocorrido. O senhor com o equipamento que poderá estar em uso na GNR - chama-se especial atenção para o modo como a farda lhe assenta lindamente -, banhado em lágrimas a jurar que o carro esfrangalhado que ali está foi o que se estampou contra um poste - num alegado acidente que poderá ter causado uma vítima supostamente sem gravidade que pode ter sido levada para o Hospital -, poderá ser a Princesa Diana que terá muita experiência nestas ocorrências.  

 

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência - e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.

 

Seguindo esta linha de prática jornalística tão em voga, decido ilustrar estes rabiscos com uma imagem que alegadamente não tem nada a ver com o que está escrito. Poderá ter sido por não ter encontrado outra melhor, poderá ser por supostamente ter havido um desencontro com a mais adequada e poderá ser que não, podendo ter sido por considerar que se piscar um olho no final deste fraseado, o que escrevo se torne confirmado.

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A Gaffe de Abril

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.17

 

Às vezes, de tão cegos com o pó que se levanta pelo caminho, ficamos presos ao lugar de onde pensamos ter saído há muito tempo.

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A Gaffe incorrecta

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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- Tu não tens absolutamente nenhuma consciência social, nem vestígios da política!

 

A bala foi disparada pela boca armada em idiota de uma versão masculina da Ana Drago, mais volumosa, mais carnal e bem mais alta.

Discutia-se com resoluto calor a decisão de se erguer de novo uma outra guerra para parar uma guerra em trânsito e insurgia-se o povo, nas reunidas mesas do pequeno-almoço, contra o domínio pardo dos Senhores da Morte, matilha de Richelieu nos reposteiros do poder.

 

Embora tenha soado a mofo, muito portas-que-Abril-abriu, muito CGTP Intersindical, muito período azul de Picasso, o chavão disparado contra a Gaffe encontrou eco nos meandros e nos corredores da sua alma.

 

A Gaffe não tem Consciência Social.

 

Trinta segundos depois do início do debate tinha já deixado de ouvir e desviado a sua atenção para os peitorais do garboso interlocutor que, na sua frente, se adivinhavam na alvura da camisa e tinha dado início a especulações de carácter muito pouco político.

 

Concede. A indiferença da Gaffe é escandalosa.    

       

Norte e Sul, Israel e Palestina, Cristão e Muçulmano, África e América Latina, Putin e Trump, Le Pen e Macron, Ghandi e os Impérios, hemisférios tortos, subvertidos climas, extinções previstas, catástrofes erguidas no terror da cinza, furacões e ondas de miséria abjecta, canhões e cogumelos venenosos, sarampo e malária, Amazónia em ferida, favelas e cabanas transalpinas e mesmo as mais perigosas das antenas de telemóveis ou de senhores de fato, são coisas de somenos para ela. Não pensa nelas. Não lhe dilaceram o dormir.

 

Culpada! Refugo da humanidade em chaga! Pária! Escória!

 

Humilde e indiferente insecto renegado, oriental bichinho, apanha o lixo breve que à sua entrada tomba, limpa o umbral da sua dócil porta e vagarosamente cuida das roseiras.

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A Gaffe de preto

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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O preto - que como os peritos referem é a soma de todas as cores -, seduzindo existencialistas jamais deixou de fascinar os que não reconhecem Sartre.

 

As mulheres deixam no preto o rasto do perfume de uma intriga ou de um enigma. Os homens dão corpo a esse enigma e intrigantemente deixam num risco desse aroma a atracção que vem do perigo.

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A Gaffe poeirenta

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.17

A Gaffe poeirenta

 

Foi com Raul Brandão - tão arredado dos cânones literários! - que me apercebi da magnitude do mistério que um texto pode conter.

 

Lia A Morte do Palhaço e em cada página que era lida dava conta, quase sem disso ter consciência, das infinitas arquitecturas das palavras e deixei-me deslumbrar pelos edifícios que se formavam e erguiam incessantemente num jogo polissémico que se multiplicava por frases nunca lidas até ali.

 

Foi com Raul Brandão que entendi que talvez seja a consciência da mutabilidade da frase e da sua capacidade de se unir a outras num encadear eterno, como até ali nunca foi história, que me fez acreditar que não basta soletrar rabiscos, que não basta perceber o mecanismo da língua, que não chega termos a capacidade de colar um vocábulo à frente de um outro, para que um texto nos atordoe.

 

Não basta.

 

Acredito que reconhecer um escritor se faz nas catacumbas da alma, talvez muito antes da obra ser sujeita ao escrutínio do bisturi da análise literária.

 

É esmagador o poder do escriba capaz de - com palavras gastas e velhas como a morte -, construir paisagens originais, absolutamente desconhecidas pelos outros, nunca vistas, nunca lidas, nunca sentidas da forma que nos é oferecida como quem nos entrega a surpreendente simplicidade do movimento eterno, a espantosa floração do único.

 

Talvez seja isto que me faz acreditar que apenas o conhecimento profundíssimo dos livros nos faz perceber que não passamos, quase todos, de pequenos tontos, ingénuos, iludidos, a usar as mesmas pedrinhas de poeira, umas atrás das outras, tentando que os espaços minguados que ocupamos tenham chão. Usamos coisas velhas para acabar como partimos, envelhecidos e de mãos vazias, porque a poeira se esgueirou por entre os dedos.

 

Apenas os que usam o que velho o tempo foi fazendo, fazendo do que o tempo fez velhice o esplendoroso encontro com a surpresa, acabam a escrever.

São escritores.

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A Gaffe da Duda

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.17

2.jpgA vida, nos últimos dias, não tem considerado necessário parar de me surpreender.

 

Primeiro foi uma máquina que cozinha sem nos maçar e com muito pouca ou nenhuma interferência nossa, agora é um blog que descobri nas minhas parcas andanças por estes caminhos e que me deixou siderada.

 

O blog pertence - tudo indica e não encontro razões de peso para suspeitar o contrário - a uma menina que não parece ultrapassar os dez anos. A Eduarda é a mais jovem e mais recente fashion adviser do burgo e se abandonasse as poses que considera as melhores para uma aproximação às meninas mais crescidas e com mais maminhas, assumindo uma imagem mais criança-Benetton, estou segura que a Zara Kids encontraria matéria suficiente para equacionar um patrocínio.

 

Os textos que acompanham as fotografias, apesar de previsíveis, são escorreitos, bem articulados, bem construídos e não ofendem com lapsos morfológicos, tropeções na sintaxe, ou mesmo com os deslizes que se compreendem - embora custem a aceitar - numa menina que mal entrou na pré-adolescência. São textos bastante maduros para a idade e encontram-se na linha dos produzidos por um qualquer blog de moda deste burgo e arredores - há um que é melhor.

 

As imagens denunciam um fotógrafo adulto pelos ângulos de captação e pela aparente qualidade que revelam.

 

Estes dados reunidos permitem saudar esta menina e esperar que a petiza mostre rapidamente aos papás o trabalho que encetou no difícil e labiríntico e culturalmente rico universo das fashion adviser e recordar aos adultos que a coadjuvam de forma tão profissional que se Eduarda rules, rules não se sabe para onde e rules demasiado depressa.  

 

Um beijinho, Eduarda.

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A Gaffe bimba

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.17

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Admito que não sou uma fada do lar. Não tenho mãos da dita e jamais serei capaz de organizar uma despensa ou elaborar mapas Excel de contas poupança, ou com listas de compras em supermercados apinhados onde se atropelam carrinhos guiados por senhoras irritadas, cansadas de beliscar a fruta.

 

Entrego parte do meu reino por uma chegada a casa imaculada, com mesa posta e roupa lavada, mesmo correndo o risco – agradável e muito conveniente – de não ser considerada um bom partido pelos cavalheiros que pensam que a imagem idílica do doce lar contém uma doida esgrouviada capaz de se multiplicar obedecendo à tradicional aliança mãe-esposa-amante-dona-de-casa-empregada e mais que não se diz por ser verdade.

 

Nunca compreendi as mulheres que dedicam uma parte substancial do seu tempo à cozinha, não nutrindo por ela uma paixão arrasadora. Gostava, mas não consigo entender as criaturas que não ligando uma pevide à culinária - e mesmo depois da brutalidade do quotidiano -, se misturam com a cozinha que sabem que as vai esturricando, envelhecendo e desolando, apenas porque é assim a vida, apenas porque não admitem que, apesar do amor que dedicam à confecção do frango na púcara, chegam exaustas à mesa onde servem a iguaria ao senhor do feudo que entretanto foi comprar cigarros, ou aos meninos que passaram a tarde a jogar Playstation. Provavelmente têm a alegria de fotografar as diversas fases do cozinhado e pespegar com os fascículos no Instagram, elogiando no twitter o marido que descascou as batatitas.

 

Não compreendo as mulheres que trazem apenso um fogão, nem fogões que trazem mulheres apensas.

 

Talvez seja porque detesto cozinhar.

Erros meus, má fortuna, amor ardente por outras coisas que me rasgam o avental. 

 

Por isso comprei uma Bimby.

O rapagão merece...

 

A maquineta é um fenómeno!

  

Como não represento a empresa alemã e como evito aprender o que quer que seja relacionado com tachos e panelas, não sei exactamente o que a máquina não faz, mas fixei um pormenor que me deixou siderada. O monstro divinal tem ligação à internet, capta as receitas que escolhermos no site, envia uma lista com os ingredientes para o telemóvel e permite uma programação semanal das refeições, indicando em cada dia que passa os ingredientes que temos de ter à nossa disposição para os catapultar para dentro do milagre.

 

Só lamento que o rapagão tenha ficado um bocadito desiludido por não ter de voltar a passar horas a fio a elaborar pratos extraordinários que fazem corar de vergonha as avozinhas - dele e do Capuchinho - e esta rapariga desleixada.

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A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe não se esquece

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.17

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A Gaffe num affaire

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.17

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De joelho no chão, na minha frente, o rapagão tenta apertar o cordão do seu sapatinho de camurça castanha, enquanto, de cabeça erguida, me relata os pequeninos bibelots do dia de ontem.

 

Subitamente, o rapaz da manutenção abre a porta onde me tentava apoiar e entra distraído a cumprimentar as pernas à nova estagiária.

 

Para evitar maior confronto, maior choque ou grave atropelamento, vai de peito aberto de encontro às minhas costas. Com o impacto dou um passo em frente e sinto a cara do rapaz, já de cordão enlaçado, enfiada nas minhas pernas a balbuciar desculpas.

 

Embora prefira a expressão affaire à trois, tenho que admitir que para a surpresa de um ménage, o acaso é sempre o quarto convidado.  

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A Gaffe intérprete

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.17

A Gaffe descobriu há um tempo - tem andado sem ele - que existem cavalheiros pagos regiamente que afirmam dominar a leitura da linguagem corporal das gentes que vão observando, sendo capazes em consequência de interpretar o que realmente as vítimas incautas querem dizer ou fazer. São peritos na ciência dos maneirismos e tiques de todos os que tentam esquivar-se do escrutínio das massas, manipulando o que declaram, esquecendo que são atraiçoados pelo cotovelo mal colocado, pelo erguer da sobrancelha esquerda, pelo cruzar dos braços, ou pelo espreitar o parceiro através do erguer da pupila acima das lentes.

Uns mágicos capazes de afirmar que o sisudo gestor do potentado está a fugir ao fisco, porque olha com placidez as unhas quando nega o facto e - porque arranha os pecadilhos com muita subtileza -, tem escondida uma fortuna nas Caimão.

 

A Gaffe decidiu experimentar este tão interessante universo e concluiu que a verdade é como Deus. Está nos detalhes.

 

Após registos vários em Excel e cálculo estatístico demoníaco, a Gaffe encontra-se apta a fornecer, através da leitura de duas expressões faciais dos rapagões, o modo como desvendar as masculinas asneiras que pretendem ocultar da nossa linha de acção correctiva.

 

I

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Partiu a jarra da dinastia Ming que nos ofereceram no aniversário e tentou colá-la com UHU, ou Super Cola 3; escondeu-nos o comando da televisão, porque vai ser transmitido o jogo Benfica-Sporting e sabe que escolhemos sempre a Paula Moura Pinheiro e as séries escandinavas do canal 2; usou todo o nosso creme depilatório nas axilas e deixou-o sem tampinha, tombado ao fundo do armário com o bocadinho que sobrou a manchar a superfície, e espera que acreditemos que foi lapso nosso colocá-lo ali sem estar fechado, ou esbardalhou a cerveja no sofá e sentou ali o gato para que pensemos que a culpa é nossa por não abrimos a porta ao bicho - eu bem dizia que um gato não era boa ideia - para o bicho fazer xixi.  

 

II

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Foi descoberto.

E temos sempre razão.

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A Gaffe da Playgirl

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.17

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 É delicioso encontrar numa qualquer esquina da vida - mais espaçosa, dada a dimensão do rapaz - um garboso e prometedor coelhinho friorento.

 

Por muito que soubermos resistir, seremos sempre tentadas a afagar e a mimar a orelhuda e fofinha criatura e, segundo um dito popular pela Gaffe adaptado, quem os nossos mima, a nossa boca adoça.

 

Há portanto sempre a hipótese de levarmos connosco, pelo beicinho mimado, o orelhudo animal.

 

Thom Browne - Outono/Inverno 2017

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A Gaffe finalista

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.17

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Juntar um grupo grande de jovens símios misturados com o LSD do Sul de Espanha permite observar a oscilação frequente entre a indigência e a debilidade cerebral e separar estas duas ocorrências que tantas vezes se confundem, mas é uma atitude cansativa, tendo em consideração que acabamos a rever comportamentos similares todas as vezes que a situação se verifica.

 

Não é de estranhar o acontecido num hotel espanhol arrasado por adolescentes num final de carreira.

 

É recorrente embora desta vez não tenha havido, como há dois anos, notícia de violação nos corredores. Os jovens símios limitaram-se a reclamar contra o albergue e contra o alegado incumprimento de contrato com actos um bocadinho mais rebeldes que se compreendem tendo em consideração que não estão num retiro espiritual em Fátima - como referiu de modo tão risonho uma senhora que faz parte da direcção da Confederação de Pais, seja lá o que isso for.

 

O que choca é a indignação da mamã da Confederação perante o modo como foram tratados os querubins após terem despejado mobiliário na piscina, riscado paredes e portas, esbardalhado matéria suja por onde passaram e escacado o que conseguiram apanhar, e aquela espécie de justificação escandalosa que recorre ao facto de ser espectável que os meninos e as meninas, que não estão num retiro espiritual, vandalizem o que lhes aparece na frente, por não estarem sobre o escrutínio parental.  

 

O que choca é ouvir o papá reclamar contra o sistema de ensino que provoca uma desresponsabilização das Escolas no que concerne à educação cívica dos seus alunos, tendo por tal de ser considerada ré neste caso que não passa de, sublinha, uma reacção ao mau serviço de quartos de um hotel que não percebeu que não iria receber peregrinos, mas idiotas, cretinos, imbecis e potenciais hooligans - normalmente coincidem, mas neste caso há que tentar distinguir algumas fases de destruição cerebral.

 

O que choca é ouvir o responsável pela agência de viagens declarar que minutos antes da chegada ao maldito hotel fez uma palestra que durou dois minutos alertando os meninos e as meninas para o perigo que é destruírem os extintores de incêndio, sabendo que o fogo que os marotos lançam aos cortinados não pode ser dominado vomitando o álcool que consomem e que a culpa das pequenas irritações destes príncipes é da muda das toalhas que não se foi fazendo.

 

O que choca é perceber que à mamã da direcção da Confederação de Pais, ou ao papá da condenação das Escolas, se juntam outros tais tentando ilibar as crias sem entenderem que ao mesmo tempo dão o nó na venda que colocam nos olhos e que até agora tem estado presa pelo alfinete de uma visão selectiva.

 

Apesar de tudo, que rejubilem as Associações Académicas mais tradicionais. Existe a garantia que terão nos próximos anos as praxes asseguradas.

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A Gaffe enigmática

rabiscado pela Gaffe, em 07.04.17

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Duas mulheres a dormir numa valeta.

 

Que horas são?

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