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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe esvoaçante

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17

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No Amor é imprescindível atar com um fio de aço a claridade à sombra. A força com que surge a Primavera é a mesma que acompanha o voar das borboletas.

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A Gaffe "turistificada"

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17
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Num tempo que já lá vai, descíamos os Clérigos para visitar, no Largo dos Lóis, a velhíssima livraria onde misturado com bolor encontrávamos o antipático e bafiento empregado que quase nos expulsava à força de perdigotos; procurávamos botões antiquíssimos na retrosaria em frente, as rendas desbotadas, os entremeios, as linhas coloridas que comprávamos apenas por capricho; visitávamos o velho ferro-velho que tinha, pintado à mão, no vidro da montra, o presunçoso título de Antiquário e que vendia alfinetes de peito e chávenas de chá inglesas como se fossem relíquias arrancadas a memórias com séculos e tomávamos chá na leitaria ao lado, levadas ao céu pela fatia de bolo de mármore que não dispensávamos.

 

Não convém afastarmo-nos durante muito tempo dos lugares que nos foram queridos. As metamorfoses por eles sofridas devem ser por nós acompanhadas para não nos abocanharem de repente.

 

Levaram-me a visitar o requalificado e reabilitado quarteirão das Cardosas. Há tanto tempo a não via e que saudades, Deus meu!

 

Entro na Disneylândia!

 

Das ruas repletas de casario com um traçado arquitectónico único e plural, ficaram apenas as cascas agora uniformizadas das casas antigas. O facto de não ter existido a preocupação em reabilitar lenta, penosa e pensadamente, caso a caso, prédio a prédio, casa a casa, deu origem a um aglomerado de edifícios turistificados.

 

Esta Baixa do Porto reabilitada anuncia através de um patético slogan imobiliário o público a que se destina: Jovens casais, criativos, jovens intelectuais e novos pensadores. O preço do mais exíguo apartamento deste complexo Disney é dez vezes maior do que aquilo que o público-alvo ganharia em duas ou três décadas, se, com uma esperança do tamanho destes preços, os jovens filósofos, os novos artistas saídos das Belas-Artes e dos Conservatórios ou os novatos letrados, conseguissem hoje arranjar um emprego, mesmo um que lhes dificultasse ou impedisse o exercício das suas qualificações.

 

A actual reabilitação da Baixa portuense corre o risco de se tornar apenas uma turistificação de uma zona histórica, muito city users, muito cidade dos eventos, onde pulula o consumo gourmet com peças de artesanato de Carrazeda de Ansiães, compradas ao custo da chuva, expostas em vitrinas Philippe Starck a preços que permitem supor que compramos também a obra do designer e a cafés onde há estantes com livros com a lombada contra a parede, porque a paleta dos brancos, bejes, dos marfins e pérola das páginas fechadas que se mostram, condiz com a decoração acastanhada e não faz tanto ruído como se visíveis fossem os títulos das obras.

 

Business is business, mas tem de haver mais vidas.  

 

Turistificar não é o mesmo que reabilitar. A primeira cirurgia transforma uma cidade num imenso parque temático, a segunda, obriga a que cada caso, cada prédio, cada casa, cada esquina e cada recanto regenerado, seja capaz de continuar a produzir memórias, conservando aquelas que deles já temos e que dentro deles fomos construindo.

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