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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

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Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

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A Gaffe KATRAPUMBA

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.17

shits.jpgConvenceram-me e eu fui.

Não devia.

 

Empurram as minhas razões para dentro de uma t-shirt com um passarito estampado e enfiaram as minhas desculpas numas calças largas de algodão fresco desmazelado.  

 

Arrastaram-me.

 

Devia ter fugido no momento em que se distraíram a escolher o KATRAPUMBA. Havia algumas variantes e o tempo dispensado à atenta selecção permitia escapar pelas frinchas da concentração alheia, se conseguisse desatar a correr. Infelizmente não corro, nem atrás do autocarro.

 

A aula provavelmente era de Zumba, mas podia ser de Kizomba, Bumba, Rumba, Tumba, ou mesmo um ritual primitivo de celebração das divindades pagãs, todas juntas, melífluas e trovejantes.

 

À minha volta apenas mamas desarvoradas, a balançar mesmo apertadas; uma senhora que se espancava com as dela; um homem que segurava as dele enquanto deixava o resto oscilar; pernas e pés pelo ar, a ameaçar disparar as sapatilhas; gente a abanar, a pinchar, aos pulos; pilas todas contentes aos saltos prontas a atingir os olhos dos parceiros; rabos ensandecidos mascarados de Zorro; fios dentais nos dentes de trás e TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA, a música que só de ouvir já emagrece.

 

No estrado, uma jovem, tão jovem, que jovem era, vestida de wonder-woman, com um micro encastrado e mamilos de fora do fato protector, tentava sobrepor-se àquela sublevação de incendiados, incentivando as filas tresloucadas.

 

- ‘BORA LÁ, PESSOAL! UM-DOIS-TRÊS PARA FRENTE! TRÊS-DOIS-UM, LATERAL!!!

 

Estarrecida, enfiada cá atrás, entre uma senhora desfeita em banha, quase frita, quase a asfixiar e prontinha a sofrer uma apoplexia, e um balde de suor que tinha sido um cavalheiro, tentava manter a sanidade, abanando o rabiosque e protegendo as maminhas, no espaço que me cabia em sorte.

                                                    

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA-TUMBA-TUMBA...

 

- ‘BORA LÁ, PÊSSUAU! TUDO JÓIA? NUM DÁ MOLEEEEZA, NÂUUU!

 

A mulher é brasileira.

 

Não! Ela explica.

 

- NÃO QUERO OFENDER OS BRAZUCAS DA MINHA AULA! SOU ASSIM. DE VEZ EM QUANDO É ISTO! PRONÚNCIA BRASILEIRA PARA DAR FORÇA. TAMBÉM FAÇO A DE VIJEU E A DO PUARTUUUU!!!!

 

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA…

 

E finaliza:

 

- EU SOU COMO O EÇA E OS SEUS HOMÓNIMOS. ‘BORA LÁ, PESSOAL!

 

KATRAPUMBA.

 

O que me salvou foi o Salvador Sobral que terminou a aula. Para descontrair que o moço é pacato.

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Gavetas:

A Gaffe nos carrinhos de choque

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.17

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Nestes dias conturbadíssimos em que o trânsito é absolutamente demoníaco e onde a conquista de um lugar de estacionamento é um desiderato capaz de nos despertar instintos assassinos, a Gaffe aplaude a Direcção Geral do Património Cultural e o Ministério da Cultura que concederam ao Salão Internacional do Veículo Eléctrico, Híbrido e da Mobilidade Inteligente o espaço interior do Museu Nacional dos Coches.

 

Podemos ter o prazer de ver agora esbardalhado ao lado do Coche da Coroação de Lisboa - uma das obras-primas encomendadas por D. João V para o triunfal cortejo da Embaixada ao Papa Clemente XI - o carrinho modernaço provavelmente publicitado por umas mamas rolantes.

 

A DGPC devia colocar a hipótese de ceder as instalações do Museu Nacional de Arte Antiga a Manuel Godinho. No final da pena de prisão o senhor estaria qualificado para encabeçar o Ministério da Cultura.

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A Gaffe tetra

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.17

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A Gaffe não sabe muito bem o que se está a festejar, mas com adeptos destes justificam-se todos os folguedos, sobretudo quando se nos depara uma trilogia de cuecas com apontamentos vintage, de cortes muito interessantes e aberturas estratégicas - características que a colocam num patamar bastante elevado daquilo a que costumamos classificar como sexy.

 

E se, minhas queridas, os três nos parecem muito iguais, há sempre a possibilidade de os classificar pelo comprimento … da barba, por exemplo.

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A Gaffe dos três émes

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.17

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A Gaffe leu há dias o texto de um senhor muito indignado que se amotinava contra o culto da futilidade e da desumanidade mais fria em detrimento da solidariedade global e da revolta contra os dramas tenebrosos que assolam o planeta.

Escrevia o senhor que nos movemos todos com o combustível do irrisório, do banal, do superficial, do fútil e do mais leviano, preocupando-nos apenas com o passageiro, com a ementa que nos torna fit e se temos reserva feita nas instâncias de luxo onde vamos passar férias. Os espoliados, os pobres, os restolhos do planeta, a miséria, a fome, o descalabro e a desolação, estão afastados dos nossos olhos e expulsos do nosso coração. O descrédito na humanidade era tamanho que chegaram duas breves lágrimas aos olhos da Gaffe, apenas recuperadas porque esta rapariga percebeu que quando o senhor alapa o rabo no banquinho e tecla esta denúncia, se salvam os povos da Nigéria, o carrapiço da Nova Zelândia em vias de extinção e a fome no planeta recua atemorizada.

Abençoados os posts deste senhor que deixam a Gaffe esmagada com a vergonha do que vai escrever em seguida.

 

Pois que é fútil.

 

A Gaffe percebeu que o país assumiu a trilogia dos émes, afastando-se da tradicional - Fado, Fátima e Futebol -, embora permaneçam alguns resquícios desta anterior, por exemplo, na colagem de Centeno a Ronaldo que o Ministro das Finanças alemão elaborou num surto de ciúmes e de inveja por se ter apercebido que Centeno tinha pernas para andar.   

 

Portugal evoluiu. É agora o país dos três émes que percorrem desenfreados todas as redes sociais e invadem todos os recantos e esquinas da vida portuguesa. Uma aceleração alfabética que a Gaffe não hesita em referir, procurando algum rigor nas suas enunciações.

 

Melania Trump  

                                   

A primeira-dama possivelmente prova que não vale a pena casar por alguns tostões. Embora sejam o aborrecimento e o dinheiro que mais casamentos fazem depois do amor, não é de todo aconselhada a via das finanças. Pedi-los emprestados sai sempre mais barato. Prova em simultâneo que as mulheres possuem uma vantagem sobre os homens: se não conseguem uma coisa sendo íntegras, conseguem-na sendo tolas.

 

É injusto chibatar a senhora apenas porque percebeu que se tinha a possibilidade de viajar em primeira não podia permitir que outra o fizesse, e é altamente penalizador esmagar-lhe a eventual distinção por não parecer acompanhada por alguns neurónios.

Melania possui uma espécie menor de elegância - a forçada. É uma mulher elegante à força. Desde que se mantenha calada, sem se mover muito, de perninhas juntas e mãos cruzadas, disfarça a total ausência de carisma e de charme - característica essencial à elegância genuína - e é palerma rasgar-lhe o maravilhoso D&G que usou para pedir ao Papa que lhe benzesse o terço.

Se a fotografia oficial do encontro dos Trump com o Papa tem um je ne sais quoi de família Adams, a responsabilidade tem de ser repartida com as trombas divinais, o trombil abençoado, as fuças santas de Sua Santidade.  

Melania não causou dano. Não sabe. É bonita e basta.

                                                                                                                                                    

Madonna

 

A Gaffe não encontra inconveniente em se perseguir uma estrela. Relembra que há já algum tempito uns senhores de muitas boas famílias seguiram uma e encontraram o Salvador, que é, com toda a gente desatou a saber, um rapaz amoroso, herói nacional, muito despojado e também de boas famílias - a irmã, apesar de fanhosa, é uma Braamcamp. Ele não, porque é simples, genuíno, descontraído, não dá importância ao dinheiro e, na linha do post do senhor que a Gaffe referiu no início, preocupa-se com os refugiados.

Perseguir Madonna é portanto encontrar a salvação.

Bem-haja.

Convém no entanto proteger a mulher da fúria do senhor do post, não vá dar-se uma tragédia e passarmos a ser parvos inúteis, porque não revelamos a nossa dor, a nossa solidariedade e o nosso espírito de sacrifício, no FaceBook com um belíssimo Pray For Madonna com as cores do arco-íris.  

 

Maria Capaz

 

A Gaffe só conhece Rita Ferro Rodrigues e conhece-a aos gritos alarves, às gargalhadas insanas, a endrominar mulheres velhinhas insistindo a cada minuto - as velhas têm dificuldade em ouvir e esquecem tudo, não é?! - para que façam uma chamada de valor acrescentado. Afinal, são mulheres livres do peso opressor do macho - mesmo que não, já não se lembram de como é tê-lo em cima.   

 

Embora compreenda que também os velhos deviam ser obrigados a aplicar uma parte da reforma na dinamização da economia - afinal nos lares têm cama, mesa e roupa lavada! – e que já não se lembram de nada, esquecendo-se com uma rapidez irritante do número do telefone que a Ritinha grita, a Gaffe pensa que devia ser interditada aos velhinhos brancos a participação no forrobodó, durante um período de tempo razoável e porventura pequeno, porque eles morrem muito. Assim, só porque sim.

Só mulatos para cima… e pretos … dizem que os pretos são potentes … e rijos … e que duram imenso … e que têm uma pila grande … e os culturistas da imagem ... estão bronzeados, não conta ... 

 

É apenas uma proposta, mas a Gaffe apela à inteligência acutilante e sempre criativa da Maria Capaz que a considerará um achado do mesmo calibre daquelas que propõe.

 

Posto isto, a Gaffe culpabiliza-se pela futilidade de tudo o que foi dito e vai reler o post do senhor revoltado do início do mundo, usando-o - o post, não o senhor que não é desses -  como chibata para se castigar.

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A Gaffe de Samuel Úria

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.17

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Não sou fã da música de Samuel Úria. A culpa é toda minha. O meu espectro musical é pindérico e se realmente existe é da responsabilidade de esforçados amigos que insistem em preencher a minha inépcia musical encharcando-a com o que consideram de estupenda qualidade.

Mesmo assim, acabo a entregar importância à letra ou ao poema que é musicado, descurando por completo a melodia que o acompanha.

 

Exceptuando Wagner e Rachmaninov, apenas porque o meu avô os ouvia incessantemente, a música nunca fez parte das minhas horas, porque tenho o vício de as preencher com pessoas. 

Sou uma rapariga sem banda sonora.

 

É previsto, em consequência, não falar de Samuel Úria.

Há no entanto umas preciosidades que Samuel Úria nos entrega de quando em vez e que me conquistaram no primeiro encontro. 

 

As crónicas.

 

Podem ser encontradas na página sapo.pt - opinião & blogs - e são sempre extraordinárias, inteligentes, oportunas, povoadas de ligações que surpreendem, imprevisíveis, inesperadas, contundentes, articuladas de um modo fascinante que impelem o leitor a deslizar no texto sem qualquer atrito, fluindo até ao fim que nos parece sempre deixar saudades.

 

Samuel Úria é exímio neste registo e domina por completo a difícil arte de comunicar sem parecer que fica verde com o esforço, ou que nos deixa da mesma cor ao lê-lo.

 

O rapaz pode musicar as crónicas que escreve. Eu vou ouvir e comprar o CD.

 

Na foto - Gene Tierney

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A Gaffe de última hora

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.17

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Madonna andou a cavalo numa praia em Portugal!

O cavalo estará na próxima semana no "Alta Definição".

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Gavetas:

A Gaffe noticía

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.17

Mariana Mortágua, ontem, evitando trincar os microfones, declarou num tom de voz sussurrado para reforçar a ameaça, que o Bloco de Esquerda não vai tolerar uma nova usurpação de fotografias icónicas por parte da Juventude Centrista. Bastou o abjecto uso da foto de Salgueiro Maia sem que o autor desse autorização para se recortar e colorir o militar de Abril, esbardalhando-o num cartaz foleiro.

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 Mariana Mortágua previne que se a Juventude Centrista usar a foto apensa como argumento contra a adopção por casais do mesmo sexo, - que dá nisto, refere Isilda Pegado -, apresenta uma moção de censura ao Governo - que permite o escândalo consubstanciado na exploração de crianças que são transformadas em macacos de voodoo envernizados e disfarçados de pompom de chinelinho num quarto manhoso, apenas para desviar a atenção da ausência de meias nos adultos que as controlam - e por arrasto pede a demissão do presidente da CPCJ que não se apercebeu do evidente. A criança devia - há que entregar o boneco ao pantomineiro da tribo - ter chegado acompanhada por isto:

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Mariana Mortágua, em nota de rodapé, declarou também ser frontalmente contra as calças de apanhar amêijoas que de tão apertadas esmagam as amêijoas de quem as usa, porque dão a curto prazo um esticão ao SNS que se vê obrigado a tratar, mesmo sendo genéricas, imensas pilas comprimidas.

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Terminando a sua intervenção Mariana Mortágua envia uma dura mensagem ao Governo, alertando-a para sangria de talentos que continua sem travão, como ilustra o caso emigrado de Sara Sampaio - que entra em red carpet com um pára-brisas incorporado, muito à frente -, e avisa que o Bloco de Esquerda já sabe, por exemplo, que Madonna só está em Portugal para adoptar o Salvador Sobral.

 

 

Nota da redacção - Não é notícia falsa. São factos alternativos.

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Gavetas:

A Gaffe nos Globos de Ouro

rabiscado pela Gaffe, em 22.05.17

Perdoa-lhes, Senhora! Elas não sabem o que fazem.

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Gavetas:

A Gaffe destaca

rabiscado pela Gaffe, em 19.05.17

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É evidente que hoje não podia deixar de encarnar uma finalista do eurofestival e a fazer explodir uma quantidade enlouquecida de fogo-de-artifício, a fazer um chinfrim monumental e com uma data de bailarinos nus aos pinchos, chamar a música e apontar os holofotes para um pequeno caso sério que hoje está de parabéns.

 

Rapariga, todos os destaques que existirem hoje são teus.

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A Gaffe em equipa

rabiscado pela Gaffe, em 18.05.17

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 Se não podes ajudar, estorva.

O que importa é participar. 

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A Gaffe emparelhada

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.17

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 Está explicado o brutal sucesso e o inesperado impacto de Salvador Sobral!

 

Segundo a imprensa coscuvilheira, Salvador Sobral tem uma soberba paixão e nem sequer precisa de amar pelos dois.  

 

Jenna Thiam, como não podia nunca deixar de ser - dado as badaladas características do namorado que incluem o talento, a sensibilidade, a expressividade, a inteligência e o bom-gosto -, é ...

RUIVA

 

A prova insofismável!

Quer se queira, ou não se queira, atrás de um salvador existe sempre uma ruiva.  

 

na foto - Jenna Thiam

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A Gaffe cro-magnon

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.17

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Não é segredo eu gostar de barbas.

 

Os homens deviam usar barba por obrigação e deviam ser encarcerados no vagão do cacilheiro de Joana Vasconcelos, algemados a Joana Vasconcelos e a ouvir Margarida Rebelo Pinto a ler um dos seus cumances, se não cumprissem o estipulado por Lei.

 

Provavelmente esta minha predisposição pilosa está ligada ao facto de todos os homens importantes da minha vida terem usado, ou usarem, barba e daí também haver à minha disposição e apreciação imensos tamanhos de barba que vão desde a lixa número três, até a uma intimidadora barba branca de cavaleiro medieval - embora não tenha memória de ter a presença do exemplar ostentado por Salvador Sobral.

 

É claro como água que usar barba não significa trocar os minutos matinais usados para um escanhoar em condições, por uma escapadela ao Facebook enquanto o pão torra e o café se faz - por norma os homens barbudos não são fãs de pequenos-almoços repletos daquilo a que chamam mariconices.

 

Usar barba é muito mais trabalhoso do que arrastar, todas as manhãs - em tronco nu, de toalha felpuda traçada na cinta, pés descalços sobre o ladrilho frio, axilas por depilar, peitorais retesados, pernas dignas da estatuária grega se o mármore fosse peludo, cabelo desalinhado e ainda a pingar nas costas, umbigo a interromper uma espinha de pelinho penteado e duas covinhas mesmo logo acima do rabiosque - e vamos lá tentar retomar a lucidez e voltar ao assunto -, uma lâmina pelo queixo.

 

Usar barba é assumir que é necessário obter um tempo realmente longo para despender no desenho, na lavagem, na hidratação, no condicionamento, no amaciar, no perfumar, no escovar, no pentear e sobretudo no aparar da dita.

 

Usar barba não é sinónimo de ter apensa ao queixo uma homenagem à Amazónia com bichos raros lá dentro. Nestes casos miseráveis, uma rapariga sente sempre muito a falta de um Centro Comercial bem desbastado onde o único animal visível é a pantera da Cartier e, lembrem-se rapazes, que acordar ao lado de um gigantesco pirilampo mágico electrocutado não povoa as nossas fantasias.   

 

Estas considerações devem-se apenas ao facto do rapagão ter tombado no jantar - depois de um exílio de quase três semanas no meio do Minho -, com uma barba descomunal.

Atrasado, ainda por cima! Se já lá estivesse, sentadinho à mesa, ninguém notava que estava vestido como se tivesse chegado de uma visita aos pobrezinhos, ao lado de Assunção Cristas, e evitava ser picado pela minha irmã:

- Tiveste dificuldade em estacionar a vaca.

Vai hoje directo - que não se atreva a tomar primeiro o pequeno-almoço -, ao António, jovem e competentíssimo barbeiro, que de armas em punho cuidará de encontrar os olhos deste brutamontes por entre o matagal cerrado e negro e decepará pelo menos metade do seu allure cro-magnon.

 

Rapazes, entreguem os queixos barbudos pelo menos duas vezes por mês a um profissional capaz de vos transformar em valentes príncipes de outras eras, sem pêlos nas orelhas e de nuca rapada. Acreditem, meus queridos, que o self-made man neste caso específico é um fracasso. Um orangotango que ao depilar-se se esqueceu que também deve atacar os pêlos que não vê.

 

Na foto - Marlon Brando

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Gavetas:

A Gaffe de galochas

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.17

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A Gaffe usa galochas.

Pretas, justas à barriguinha da perna, com uma ligação perfeita aos jeans - de cor uniforme, não vá parecer que andou nas obras -, e camisa muito masculina, larga, com um xadrez de inspiração escocesa, com um nó na cinta.

A Gaffe usa galochas para visitar os pobrezinhos nos bairros sociais e os mais desfavorecidos que vivem na lama e no esterco.

Nas visitas aos sem-abrigos, a Gaffe acrescenta um agasalho muito discreto, de caxemira de cor sóbria e respeitosa e botas de campanha. Os jeans são os mesmos, para não parecer que se varia muito e frisar que não são apenas eles, os pobres, que insistem em dizer que a moda é só aquilo que nos fica bem. Às vezes um tailleur vintage, ou um simples cobertor Galliano de 2010 que nos assenta na perfeição, é o que basta para nos actualizar imediatamente.

 

Atenção: Os sem-abrigo só existem de noite e não fica nada mal acrescentar ao outfit um capacete com uma pilha incorporada.

 

Nada é mais agradável do que saber que Assunção Cristas comunga deste elegante saber estar, lendo as suas oportunas declarações que nos revelam que, tal como a Gaffe, calça muitas vezes botas e enfia umas calças muito práticas, prontificando-se desta forma a calcar o cocó que os pobres fazem na rua, nos seus momentos mais globalizantes que os aproximam da cultura mais rude dos indianos.     

A Gaffe fica contente ao perceber que se pode cruzar com Assunção Cristas nestas visitas purificadoras, muito jeitosas e que nos deixam livres para optarmos por um guarda-roupa mais descomprometido e relaxante, contrário ao que tantas vezes nos é imposto pelas convenções sociais e que nos faz parecer saídas das fotografias de um século passado. O lazer que nos traz a possibilidade de usarmos o mais descomplexado, o mais jovial e descontraído, é muito descurado neste país que também esquece, paradoxalmente, que uma mulher de saia travada dificilmente cumpre o seu dever, como nos alerta Gonçalo da Câmara Pereira.

 

Como é evidente, a Gaffe concorda com Câmara Pereira. Uma saia travada prende imensos movimentos - muitas vezes os melhores - e é também desaconselhada quando a mulher assiste a uma tourada, depois de cumpridos os seus deveres domésticos. Uma rapariga senta-se naqueles estrados muito baixos, fica indecorosa e é evidente que pode causar alguma distracção na testosterona da arena. Uma saia travada é muito mais indicada a uma noite de fado, depois de cumpridos os nossos deveres domésticos - nunca é exagero repetir.

 

É uma alegria ver que Gonçalo da Câmara Pereira se une a Assunção Cristas na corrida à Câmara de Lisboa! Finalmente a capital tem a hipótese de se ver governada por um dueto saído de uma opereta, com um guarda-roupa irrepreensível.

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A Gaffe de Salvador

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.17


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Pela primeira vez sinto que devo fazer um esforço para controlar o uso dos adjectivos, tornar-me parca nos avérbios e emegracer a verborreia.

Afinal, este post fala de Salvador Sobral e de Amar Pelos Dois e é um bocadinho tolo desatar a coleccionar o lado pomposo das palavras, quando todos os cromos estão já repetidos.

É inútl também tecer considerações rebuscadas, ou retirar ilações precipitadas, iguais àquela que na ausência de género na letra da canção encontrou uma subliminar indicação de apoio à diversidade de escolhas que o amor tem ao dispor.

 

A letra - convém reter que existe a letra de uma canção, assim como existe um poema que é cantado e que estas duas possibilidades nem sempre coincidem - é lindíssima, estabelece uma cumplicidade cativante com o arranjo musical e está interpretada por uma voz belísssima, comovente e expressiva que atingiu em cheio a sensibilidade de países que não precisaram de a entender para se renderem à união do timbre mágico de Salvador, à harmonia, à inteligência e a sensibilidade da melodia.

 

O less is more foi aqui perfeito.

 

Há no entanto, para além de tudo o que foi já dito - e muito bem dito - por outros que não eu, um dado que me deixa curiosa.

A canção extravasou os territórios bem delimitados do Eurofestival e provocou reacções efusivas, entusiastas e entusiasmadas, quer por parte de gente que tem lugar cativo no patamar maior da música global – Caetano, ou Scott Matthew, por exemplo -, quer por parte de quem não é habitual nestas andanças - J. K. Rowling, ou Meryl Streep que já declararam a sua paixão pela voz de Salvador.

Aposto que Judy Garland também se renderia a esta canção.

 

Estou certa que arrisco rabiscar mais uma teoria tola que se pode unir às tantas outras que aparecem nestes casos, mas apetece-me dizer que Salvador e Amar Pelos Dois sobrevoou alguns dos arquétipos que - como é destino deles -, são comuns a toda a gente. Salvador com a melodia que encarnou aproximou-se dos nossos denominadores comuns e, muito mais do que a letra cantada ou o arranjo que a vestiu, foi a voz de cada palavra, a voz que a voz de Salvador entregou a cada uma das palavras, que fez com que as árvores do cenário se tornassem realmente elemento primordial e coadjuvassem a interpretação.  

Talvez tenha sido este breve voo sobre o ninho de cucos que partilhamos todos sem mesmo saber, que fez com que Salvador Sobral se tenha tornado realmente a celebração da diversidade, unindo tudo.    

 

Mas é evidente que posso apenas estar ainda comovida e tudo se acabar na Quarta-feira, mas se ouvir Nem Eu, ou pasmar com esta extraordinária versão da canção vencedora, penso exactamente o mesmo.

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