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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe KATRAPUMBA

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.17

shits.jpgConvenceram-me e eu fui.

Não devia.

 

Empurram as minhas razões para dentro de uma t-shirt com um passarito estampado e enfiaram as minhas desculpas numas calças largas de algodão fresco desmazelado.  

 

Arrastaram-me.

 

Devia ter fugido no momento em que se distraíram a escolher o KATRAPUMBA. Havia algumas variantes e o tempo dispensado à atenta selecção permitia escapar pelas frinchas da concentração alheia, se conseguisse desatar a correr. Infelizmente não corro, nem atrás do autocarro.

 

A aula provavelmente era de Zumba, mas podia ser de Kizomba, Bumba, Rumba, Tumba, ou mesmo um ritual primitivo de celebração das divindades pagãs, todas juntas, melífluas e trovejantes.

 

À minha volta apenas mamas desarvoradas, a balançar mesmo apertadas; uma senhora que se espancava com as dela; um homem que segurava as dele enquanto deixava o resto oscilar; pernas e pés pelo ar, a ameaçar disparar as sapatilhas; gente a abanar, a pinchar, aos pulos; pilas todas contentes aos saltos prontas a atingir os olhos dos parceiros; rabos ensandecidos mascarados de Zorro; fios dentais nos dentes de trás e TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA, a música que só de ouvir já emagrece.

 

No estrado, uma jovem, tão jovem, que jovem era, vestida de wonder-woman, com um micro encastrado e mamilos de fora do fato protector, tentava sobrepor-se àquela sublevação de incendiados, incentivando as filas tresloucadas.

 

- ‘BORA LÁ, PESSOAL! UM-DOIS-TRÊS PARA FRENTE! TRÊS-DOIS-UM, LATERAL!!!

 

Estarrecida, enfiada cá atrás, entre uma senhora desfeita em banha, quase frita, quase a asfixiar e prontinha a sofrer uma apoplexia, e um balde de suor que tinha sido um cavalheiro, tentava manter a sanidade, abanando o rabiosque e protegendo as maminhas, no espaço que me cabia em sorte.

                                                    

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA-TUMBA-TUMBA...

 

- ‘BORA LÁ, PÊSSUAU! TUDO JÓIA? NUM DÁ MOLEEEEZA, NÂUUU!

 

A mulher é brasileira.

 

Não! Ela explica.

 

- NÃO QUERO OFENDER OS BRAZUCAS DA MINHA AULA! SOU ASSIM. DE VEZ EM QUANDO É ISTO! PRONÚNCIA BRASILEIRA PARA DAR FORÇA. TAMBÉM FAÇO A DE VIJEU E A DO PUARTUUUU!!!!

 

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA…

 

E finaliza:

 

- EU SOU COMO O EÇA E OS SEUS HOMÓNIMOS. ‘BORA LÁ, PESSOAL!

 

KATRAPUMBA.

 

O que me salvou foi o Salvador Sobral que terminou a aula. Para descontrair que o moço é pacato.

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