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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe aDAMAda

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

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Os D.A.M.A. são um pequeno sucedâneo pretensioso das extintas boy bands, sem as suas vantagens - normalmente eram constituídas por rapagões em excelente forma física e conscientes das suas limitações musicais -, mas com todos os seus defeitos.

É provável que não mereçam um olhar e um ouvido que demorem mais do que uma cançoneta e poderá causar alguma perplexidade vê-los por estas Avenidas pouco melodiosas, mas a polémica totó que foi gerada por terem reagido de uma forma muito pouco educada - vamos ser benevolentes com os putos - à correcção de um erro ortográfico, a indignação da mais que provável adolescente responsável pela salvação da gramática, o consequente pedido de desculpa e a posterior exibição, por parte dos meninos, de um humor pateta pousado nesta ocorrência, deixa-nos terreno livre para libertar a nota.

 

Os D.A.M.A. pedem desculpa à moçoila em pranto - que lhes era devota e que resolve num assomo morfológico corrigir-lhes o ’tásse -, depois de a terem enfiado no grupo dos haters, achincalhando desta forma a imensa admiração, o brutal entusiasmo, a maior dedicação que a ofendida choramingas lhes dispensava. Divertidíssimos, os D.A.M.A. decidem agora apresentar desculpas também a Camões, mesmo sendo possível que não saibam o que é uma Epopeia e estejam a anos-luz da ironia e do sarcasmo.

 

Esta caricatura representa a inversão, ou a negação do que deveria estar assimilado. O talento, a mestria, a proficiência, a competência, a perícia – nem sempre sinónimos – estão na proporção directa da humildade. A genialidade é siamesa da capacidade de se reconhecer as falhas e da amarga consciência da responsabilidade que se assume quando falhar pode induzir em erro uma multidão – mesmo a que é constituída por adolescentes tontas. Os talentos - assim como os sábios e os génios -, são invariavelmente simpáticos, de uma humildade tímida que seduz e sempre dispostos a fazer tombar os olhos de vergonha perante um alerta de erro.

 

Fica desta forma explicada a minha desavergonhada arrogância e maldita antipatia.

 

É evidente que os D.A.M.A. não se podem incluir no grupo dos humildes ou no dos envergonhados, porque talvez não sejam mais do que um temporário vestígio de um musicalidade mais do que banal, replicado por outras bandas fit que surgem para adornar festivais de adolescentes espigados - tive o cuidado de os ouvir -, mas mesmo assim é de lamentar que superem o facto de forma sobranceira e enfatuada e que não tenham percebido que Camões não é um baterista.   

 

Ilustração - Joseph C. Leyendecker

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A Gaffe de Tennessee Williams

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

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Ouço dizer algures que a vida traçada a regra e esquadro, a sucessão de dias programados, o quotidiano previsível, ou a coerência das horas seguidas, apesar de produzirem a sensação de segurança, desfazem o deslumbre e o espanto, como se nos voos fossem as tesouras que se fecham em lâminas de óbvio.

 

Não sei. É provável que sim.

 

Daqui, ouço o mar a preencher a noite da iguana. Há uma lua pousada na pele da água. Uma lua límpida, que recusa o arrasto da maré. Na orla da Avenida, um homem corre em tronco nu. Tatuado. Musculado. Bonito. Corre compassado de calções azuis. Suponho que feliz. Quando o coração bate controlado, a felicidade ainda que banal pulsa com ele. Há uma mulher ao longe à espera do autocarro. Veste uma saia escarlate e parece nesta distância nocturna uma bandeira de uma qualquer revolução que não explodiu. Uma saia contida, apesar do grito. Passa por mim o cão pequeno, branco, com manchas ocre a pintalgar-lhe o pêlo. Presa pela trela tem a dona, senhora dos seus cinquenta de arrepiada cabeleira que encima uma blusinha fresca. Vejo-a a comprar fruta nas manhãs. Compra a fruta da manhã que chega presa à trela da noite anterior, depois de espetar a unha envernizada na casca da laranja matinal. Um rapaz, pendurado na mão de uma mulher embevecida, atravessa a rua. Ela tem os olhos pretos e cabelos tingidos de uma cor indefinida. Sorri. Tem dentes brancos, luminosos. Certos. Dentes da idade dele. Tão certos como o vestido justo, cor de açafrão. Ele tem especiarias no corpo. Pimenta e noz-moscada, cravo-da-Índia e canela. Beija-a, já deste lado da rua. Ela deixa-se beijar, no outro lado do mundo. Um velho perfura o paredão que o separa das ondas parcas e breves. Senta-se depois num banco de madeira e fica parado, parco e longo como um dia que morre sem se ter visto uma saia vermelha, ou um vestido cor de açafrão, ou calções azuis a correr sobre ele.

 

Quando chegar a casa, descalço-me e pouso os pés nus nas tábuas do soalho. O meu soalho é a minha noite no princípio. É nele que começa o meu espanto, o meu deslumbramento com as cores das noites certas das Iguanas.

 

na foto - Joan Miró   

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