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Ilustração - Fernando Vicente


Os incêndios

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.17

Eu não gosto de incêndios e fico muito triste quando eles aparecem. Tenho muito medo. A minha prima Idalina até nem quis ver quando viu as imagens que as televisões mostravam de gente toda carbonicada. Graças a Deus que há jornalistas que até mostram os mortos para a gente ficar avisada que nos pode acontecer o mesmo e depois ficamos todos ali parados à espera que nos venham levantar que agora não há tempo para merdas queimadas e o que interessa é salvar o que não ardeu. Os bombeiros não chegam para tudo mas é bom mostrar que este país anda todo desorganizado que até deixa mortos por todo o lado sem lhes acudir. Só assim é que uma pessoa dá conta. Os jornalistas dos incêndios usam sapatilhas que são uns pénis com sola que dão para saltitar em cima dos troncos carbonicados e pode parecer que não mas dão um ar muito desportivo de quem não está interessado com o aspecto. Estas sapatilhas também ajudam a dar pulinhos para cima dos carros esturricados que se fossem Volvos só de encontro a um poste é que se desfaziam. Foi pena estes jornalistas não terem estado mesmo ao lado do túnel onde uma princesa se quilhou. Uma pena. Uma reportagem com uma morta da realeza logo ali era bem capaz de convencer as pessoas pobres a não conduzir a altas velocidades dentro dos túneis e a não fazer tuningues. Era bem feito que os jornalistas puxassem um pé a um morto e o arrancassem assim do carbonicado só para nos mostrar que é perigoso uma pessoa andar a fazer de paspalho metido num carro no meio das labaredas depois de saber que as matas estão ali mesmo a pedi-las sem que ninguém lhes acuda há anos. Felizmente temos a D. Cáritas que é uma senhora muito bondosa que já tem uma conta aberta no banco onde a gente pode lá meter dinheiro se quiser ajudar. A D. Cáritas depois dá aos pobres que ficaram sem casa depois dos pobres preencherem os impressos e prometerem que não gastam em droga. A televisão vai fazer uma gala muito grande com foguetes, bombos, uma passadeira branca porque o vermelho lembra o fogo e vestidos compridos e todos brilhantes só porque quer ganhar dinheiro para os carbonicados. Até parece que vamos voltar a ver o cu da Rita Pereira que o meu pai diz que também é um fogareiro. A gala não é para os ingleses mas eu sei que também houve por lá cabonicações e que morreram ainda mais cadáveres que cá mas a Inglaterra é muito longe e não nos chega o fumo por isso basta metermos no feiceboque uma coisa chamada jessui e pormos à frente o que quisermos que já dá. Praiforosincêndiosládelondres também serve desde que a gente ponha umas cruzinhas atrás chamadas astasgues. Eles que são pretos que se entendam, como diz o meu avô que é um judeu nestas coisas. Forreta como não há. Em Inglaterra diz que foi por causa dos revestimentos. Aqui parece que foi também por causa dos reinvestimentos só que em submarinos. A minha prima disse para eu meter um lacinho preto aqui ficava bem e que até aliviava a consciência mas eu acho que quero ter isso pesado.

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A Gaffe com a mãe

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.17

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A fragilidade da minha mãe, a sua quase imaterialidade, foi transformada numa elegância reservada, quase tímida, discreta e tranquila.

É uma elegância que não surpreende. É esperada, visível no primeiro assomo, inevitável como um facto. Uma evidência construída pelos gestos leves, brandos, de uma serenidade possivelmente submissa, mas que nos faz sentir num abrigo com sombras de lilases.

O labor da minha avó teve neste caso um parco sucesso. A minha mãe não é impositiva, não tem nas mãos as capacidades de um líder e o seu modo de se mover, pacífico e quase demasiado silencioso, impedem que domine e controle a alcateia imensa que à sua volta ronda.

Às vezes, no jardim, sentada a ler - Hemingway que não condiz com ela -, num sossego brando e quieto, o ar fica envolvido de espuma e de perfume e dir-se-ia ao vê-la assim etérea, transparente, que a imponderabilidade a tomou por sua. Mesmo quando vira a página do livro nenhuma flor estremece.

 

Dizem à toa que a beleza salta uma geração. Se a avó é formosa, a filha não o será, herdando a neta as características perdidas entretanto.

 

Aqui a beleza estabilizou. Tornava-se fácil, enquanto havia a possibilidade de as ver juntas, perceber que possuíam, as três, perfis aristocratas que lhes forneciam um lance quase enigmático, essencial à elaboração de uma imagem que invade a memória dos outros. Todas de olhos claros, de uma transparência que se foi perdendo à medida que o tempo carregava o verde azeitona e atenuava os lanhos de cinza. Todas brancas e loiras, embora a minha irmã tenha abrandado a alvura por ter dado primazia ao tom de pele do meu pai. Altas e magras, como hastes, caules de uma qualquer flor estranha que oscila sem quebras, não por força do vento, mas por desejo de terra e céu ao mesmo tempo.

 

É curioso perceber que se tão unidas pelos traços físicos, apenas os extremos se tocaram no modo como lidam com a vida. A minha mãe, no meio, é o esvoaçar do silêncio de um pássaro por entre as margens da vertigem deste rio.     

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