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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe trendy

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

André Ventura

is the new black

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A Gaffe no Mali

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

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É curioso verificar que o único filme que aqui sugeri, referenciando-o como de interesse significativo, tenha sido um da realizadora libanesa Nadine Labaki, e que, neste momento, encontre num realizador da Mauritânia uma idêntica importância.

 

Ao contrário do primeiro - E Agora, Onde Vamos? -,Timbuktu não permite sorrisos, embora, e de um modo estranho, acabe por nos confrontar com realidades similares que se confinam ao esmagamento de toda a liberdade por força de opressões que se ligam alegadamente aos deuses.

É curioso também como as duas abordagens a este facto podem ser ao mesmo tempo díspares e convergentes, acabando, as duas, por revelar como é ínvia a existência de formas opostas de se sentir a mesma divindade e como essa alternância pode significar destruição de uma destas visões.

 

Do realizador Abderrahmane Sissako, o filme é uma belíssima longa-metragem que se torna imperdoável não ver.

 

Tem Timbuktu, Património Mundial da UNESCO desde 1968, no Mali, como uma das personagens mais marcantes e é o deserto que constrói a coloração do filme, apenas rasgada pela terra ocre e queimada, saturada e tantas vezes luminosa, dos tecidos e dos adornos das mulheres.

 

Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico fundamentalista liderado por Iyad Ag Ghaly.

 

Timbuktu é invadida por leis, por medos, por proibições, pela desumanidade que trespassa a vida de cada um dos seus habitantes, tragicamente, dolorosamente, comoventemente.

É nesta construção opaca e implacável de inibições e de desmandos, de opressão, de repressão, de crueldade insana e irracional, de desmantelamento da arte de sonhar, que se inclui a proibição da música, da dança, do riso, do canto e da visão dos corpos, dos rostos e das mãos. É nesta brutalidade que esfacela à força a vida de Timbuktu, que, por entre este massacre, se vai erguendo a extraordinária floração daquilo que foi interdito.

 

A mulher que estoura em canto enquanto é chicoteada por ser apanhada a cantar.

A outra que prefere a morte a amanhar o peixe com as mãos vestidas.

O jihadista que se transforma em pássaro, dançando às escondidas, porque foi bailarino.

O jogo de futebol que é jogado sem bola, ou com a bola que inventamos quando há esconderijos de sonho por demolir.

 

Ao lado, ou mesmo em cima de nós, uma banda sonora magnífica, dolorosa, desértica, ou então impulsiva, quente, colorida e feliz, tantas vezes interrompida, emudecida, pois que é proibida toda a melodia.

 

Timbuktu é sem sombra de dúvida - como poderia, se sol a pique invade aquele povo? - um filme fabuloso.

 

Acaba por nos fazer sentir gazelas. 

 

 

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