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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem partida

rabiscado pela Gaffe, em 21.08.17

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Viajar é sempre olhar o Outro e esse olhar que lhe entregamos comporta sempre uma leitura subjectiva. Contaminamos o visto com a nossa muito própria e desavergonhada semiótica, com a nossa semântica, com o nosso alfabeto, com o nosso vocabulário, com o nosso passado - com os nossos julgamentos - e com todas as histórias, com todos os sedimentos das histórias de que somos feitos. Estar consciente dessa ocorrência que permite uma leitura, uma descodificação, uma decifração do Outro, eivadas de anomalias causadas mesmo involuntariamente, através pela projecção do que somos naquilo que olhamos, é muitas vezes termos a possibilidade de nos olharmos. Vemo-nos no modo como interpretamos o que nos é desconhecido.

Viajar é portanto, e também, um não sair de nós.

 

Talvez por isso me recuse a fotografar. É sempre constrangedor captar um instante em que nos revelamos, em que somos, em que ficamos passíveis de ser reconhecidos nos mais ínfimos pormenores que escolhemos fixar através de uma câmara.   

 

Reconheço a fotografia como uma espécie de duplo emocional. Captamos as nossas particularidades, as nossas emoções, os nossos recantos mais claros e aqueles mais escuros, na escolha que fazemos dos alvos a reter e simultaneamente fixamos o que acreditamos ter sido interpretado, aquilo que pensamos ou sentimos que o Outro pensa, sente, ou vivencia. Não saímos de nós.

 

Uma fotografia é, sob esta perspectiva, apenas um testemunho do que somos naquilo que escolhemos fixar. Uma leitura do Outro que é desapossado dos seus variadíssimos vocabulários, da sua intrínseca e única forma de se expressar. Aplicamos o nosso muito particular sistema de descodificação do real à realidade alheia, acreditando que o que testemunhamos é a reprodução sem dano, impoluta, límpida e certa, da realidade do Outro. É este processo que explica o reconhecimento e aclamação de determinada fotografia pelos que usam os mesmos códigos de resolução, de interpretação e de descodificação - por projecção do que se poderá chamar emoções comungadas por colectividades específicas - e a completa indiferença pelos que possuem semióticas díspares e que, não raras vezes, são os que na fotografia figuram.   

Temos a certeza que conseguimos fixar o instante alheio, não contaminado pelo que a ele é alheio, esquecendo que quando temos a certeza de uma coisa, é porque pensamos nela apenas uma vez.

 

Talvez exista esta espécie de desrespeito pelo Outro em Henri-Cartier Bresson, Capa, Doisneau, Imogen Cunningham, Vivian Maier, Walter Evans,  Annie Leibovitz, Dorothea Lange, Steve McCurry, Jan Saudek ou Sebastião Salgado, entre tantos outros magníficos - um desrespeito parecido com o patente nas nossas medíocres películas de férias que não vão deixar história. Uma talentosa ou mesmo genial desconsideração pelo Outro, salva, aplaudida e ilibada por se conseguir, nos casos dos fotógrafos nomeados, por exemplo, projecções, não apenas do autor, mas também de todos os que com ele partilham, identificam e reconhecem determinadas emoções, as comuns, as autenticadas por determinada colectividade. A genialidade de cada um destes prodígios reside exactamente na capacidade de tornar emocionalmente comum um reflexo da sua própria emoção ao capturar uma realidade que por ser do Outro apesar de tudo desconhecem.   

 

Viajar é sempre o reflexo do nosso olhar no Outro. Provavelmente nunca partimos, embora encontremos sempre lugares de chegada.

A fotografia é apenas uma viagem parada.  

 

Na foto - o fotógrafo Charles Ebbets fotografado por desconhecido -1932

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