Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos guerreiros

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.17

kilt14.jpg

Salvaguardando o meu direito de escrever tolices, suponho que o latim se preservou mais facilmente e sem grandes solavancos nas regiões limítrofes do Império. Roma, a capital do gigante, promoveu, aceitou e modelou as alterações à língua de modo natural, dinâmico e acelerado, enquanto os seus longínquos destacamentos se mantinham fiéis à velha guarda.

A distância possibilitou a preservação.

 

O facto de Edimburgo, ou outro qualquer centro urbano, ficar muito distante dos recônditos lugares das Terras Altas, permitiu, por exemplo, que as tradições, os costumes, os conceitos, as lendas e os rituais, permanecessem sem alterações significativas e que se reproduzam hoje bastante próximos da origem.  

 

Admito que de lendas, rituais, costumes e tradições tinha eu estantes preenchidas antes de partir. Admito que, pecaminosa e fútil, desdenhei um conhecimento mais profundo dos meus anfitriões. Reconheço que me estava a borrifar - ou nas tintas, como vos aprouver -, para a carga simbólica de uma determinada narrativa mais rochosa ou de um enunciado mais esotérico eivado de pepitas de paisagens místicas e míticas.

 

Dediquei todo o meu inútil tempo à mais profunda superficialidade, à mais descarada das preguiças - a que nos faz apenas mexer os olhos -, e à mais vergonhosa das actividades lúdicas - fazer de conta que não se existe enquanto se espreita a existência dos outros.    

 

Em consequência, sentava-me num banquinho deselegante e assistia a um torneio.

 

É realmente impossível de o descrever.

As cores - mesmo as que não existem e que se inventam ali, porque hoje é festa -, os gritos fabulosos de incentivos galhofeiros, as malditas gaitas, os tambores a rufar até ficarmos todas a com as maminhas a vibrar, a extraordinária felicidade a estourar por todo o lado, a radiante vontade de viver, um entusiasmo contagiante, as bebedeiras monumentais, o rodopio das gargalhadas, as bandeiras, os estandartes, os porta-estandartes, os postes dos porta-estandartes, os abraços a torto e a direito e até canhoto, as cantigas soltas em sotaques velhos e tudo mais que não se diz, que não sabemos, faz-nos sentir esbardalhadas num tufão de alegria que empurra para ombros vencedores os que caíram depois de lutar com todo o corpo.

 

Maravilhoso!      

 

kilt5.jpg

kilt10.jpg

kilt11.jpg

kilt8.jpg

Voam estafetas; saltam medas de feno; agarram em medas de feno; agarram em barris de madeira, um em cada mão; agarram em lenhos brutos que serram; agarram em bolas de ferro que arremessam depois, em paus, em picaretas, em pás, em tudo o que servir por ser pesado; penduram-se em ferros; baloiçam em cordas; puxam cordas com blocos de pedra amarrados; atiram pedregulhos; lutam uns com outros; correm, correm desalmadamente, correm como se disse dependesse o extinguir do Brexit e fazem tudo isto e mais que se me escapa por ser tão muito, revelando a cada passo e cada salto, a cada pincho, a cada sopro, a cada arremesso, a cada queda e a cada descanso do guerreiro espalhado na relva, os segredos dos Kilts!   

 

 

Os kilts são usados sem cuecas!

 

Do meu banquinho inocente nunca vi tanta pila aos saltos!

 

 Eis que se destrói a dúvida que parece nunca ter pertencido às robustas escocesas que ao meu lado aplaudiam muitíssimo entusiasmadas sempre que uma piloca se esbardalhava à frente dos seus incentivos. Fizeram-me compreender que, ao contrário do que seria de esperar, não interessava um pirolito quem ganhava ou quem perdia - nem sempre o vendedor era o aclamado! -, mas o modo como a pila do guerreiro esvoaçava, o ângulo em que a dita se pespegava nas nossas vidas tão competitivas, na quantidade de rabo mostrado, nas proporções e equilíbrio - ou ausência dele - das que me fizeram divertir ainda mais do que as mocetonas escocesas já causticadas e no tempo que levavam a ser cobertas pelo tartan traiçoeiro.

 

kilt13.jpg

kilt12.jpg

De todos os jogos, o mais popular, o meu favorito, e o que mais alarido provocou, era o que obrigava os homens de um clã a puxar uma corda grossíssima onde na outra extremidade o clã rival dava tudo o que podia para os derrubar. Não era de todo o mais espectacular, mas era ali, com as botas fincados na terra, rabo assente no chão, pernas abertas e braços estendidos de músculos retesados, que os rivais deixavam que o público visse todo o poder, toda a valentia, toda a força e todo o material de que eram feitos.

kilt9.jpg

 

 

Até eu, que sou tão avessa a este tipo de competição, escolhi, bem no meio de todos, o meu maravilhoso perdedor.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD