Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de corpo inteiro

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.17

1.jpg

A minha irmã vive num apartamento amplo e luminoso que os mais ilustres podem, num vislumbre, considerar minimalista. No entanto, a ausência quase total de objectos não se relaciona com qualquer opção estética. A minha irmã compra, porque o escolhido se lhe afigura de importância capital para o seu conceito de conforto que inclui o inquieto, o que impede o desarmar da vontade ou o impulso criativo.

As paredes derrubadas deram primazia à luz branca, asséptica, metálica, que gela os corpos e entrega aos móveis, cuja existência se deve ao facto de nenhum poder ser movido, a geometria da perenidade. Há tarefas definidas para cada um dos objectos e porque a única preocupação na compra é a função que cada um tem de exercer, todos são limpos e puros como as obras-de-arte.

 

Parece frio, incomplacente e demasiado branco. Um espaço de racional inflexibilidade. Mais pragmático do que minimal. A minha irmã suporta mal a cor à sua volta. Admite breves tons de cinza, muitas vezes chumbo, muitas vezes quase nada, o preto, o metal, mas recusa frequentemente outras paletas.

 

Sempre me pareceu um apartamento vazio - provavelmente pelas ausências longas e frequentes da dona -, como se estivesse eternamente à espera do habitante, até ter encontrado ontem, numa moldura lisa e perfeita, uma fotografia minha, a chispar de cores e riso aberto, grande e de corpo inteiro.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe tatuada

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.17

80.jpg

 

O nome dos outros em mim como tatuadas gentilezas.

No meu corpo nu a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos na pele ou desenhados ténues, indeléveis, corrompendo a macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, do meu corpo nu que treme precipitado pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que em cada nome no meu corpo nu se misturou na pele.

 

O do meu irmão, perto do lugar de onde respiro. O da minha irmã, junto dos olhos com que vejo sem ver, cega de tudo. Os nomes dos meus avós, nas minhas mãos que fazem e desfazem. Os dos meus pais, no centro dos meus braços.

 

De todos os nomes no meu corpo aquele que eu consumo, gasto, esbato, adoço e esvaeço, tem a cor do afago no lado esquerdo de todos os sentidos. O do meu Amigo.

 

Deixo que pousem devagar no coração.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe plana

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.17

denis sarazhin.jpg

Tédio despropositado.

Os lençóis agarram o meu perfume e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.

A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.

 

Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar. Nenhum vestígio de ruga, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos.

 

Em mim o tédio invade até as noites e faz aquietar as ondas do meu sono.

Durmo na planura da indiferença e na suspensão apática daqueles que desprezo.

 

Imagem - Denis Sarazhin

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe sacrificada

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.17

Sergio Martinez.jpg

 

De forma a aproveitarmos a presença breve da minha prima por terras lusas, fomos as três muito unidas rumo à confeitaria/leitaria Quinta do Paço onde uma pequena esplanadita nos faculta umas mantas vermelhas bastante ranhosas, mas muito quentes - que, digam lá o que disserem, o fim de tarde já arrefece - e uns éclairs recheados - chantilly ou chocolate - de morrer ali todos diabéticos.

As duas mulheres desprevenidas enroscaram-se nas mantas transformando-se em índias Cheroqueques, muito felizes. A perfeição da minha irmã recusou o allure, porque tinha trazido casaco e um objectivo. Já que ali estava - e suspeito que estávamos ali por isso - tinha marcado encontro com o arquitecto italiano que a substituirá durante uns dias. Queria que o homem visse in loco uns detalhes nos edifícios em frente. Os pormenores estudados seriam reproduzidos aquando da recuperação de um mamarracho qualquer, algures de onde o homem veio.

 

Vimos o rapaz chegar de sorriso aberto.

 

Muito agradável à vista desarmada, em excelente forma física, moreno e luminoso, de olhos pretos e negra madeixa ao vento, o descontraído rapaz trazia vestida uma t-shirt arrepiada, um casaco desleixado e umas calças de malha fina que são um cruzamento entre um fato de treino e umas ceroulas, mas que parecem ser consideradas um must pelos musculados concorrentes do Big Brother mais guna – ouvi na Ribeira e não sei o que significa, mas acho que fica bem aqui -  e pelos artistas mais boémios que citam Sartre e entendem Miró até ao âmago - o que une extremos consideráveis.  

 

Apercebemo-nos, talvez devido à luz de Outono que tombava devagar, que havia qualquer coisa estranha no andar do moço, mas, como se diz no velho Douro, nem fun nem fanforreira partilhamos, guardando cada uma a estranheza no mais íntimo da alma. 

 

A minha irmã levanta-se, o homem sorri-nos – ciao! - e desatam os dois a apontar as pedras e as varandas, com a anfitriã a rabiscar explicativos riscos no bloco que tinha tirado da carteira.

 

As duas índias Cheroqueques, sentadas, quietas, caladas como ratas, de éclair parado e perplexo, tinham avistado a razão da anomalia no andar do homem.

As calças largas de malha fina tinham-se colado, tinham-se grudado, à pila do moço!

Aquilo ou era electricidade estática ou então tinha chovido na véspera e encharcado uma anaconda da Amazónia. Contornos, desenhos, protuberâncias, trilhos, volumes, escavações, bossas, saliências e arredores, tudo ali mesmo à mão de semear tempestades e colher a ventania que deve aquilo fazer ao abanar.  

                                                                                                                                                    

Se tivesse aparecido nu da cinta para baixo, seria mais discreto, valha-nos Deus!

 

O homem pousava o peso na perna esquerda e a piloca acompanhava toda elegante o movimento, o homem pousava o peso na perna direita e o monstro lá estava, pronto para se aninhar noutras paragens.

 

Olhei de soslaio para a minha prima.

A rapariga estava com o nariz franzido, com os cantos da boca repuxados e os olhos transformados em frestas orvalhadas por onde se escapava um riso destravado. O queixo termia um bocadinho, mas nada que indicasse epilepsia. 

Bastava que o meu joelho tocasse o dela, avisando que também testemunhava os movimentos de Loch Ness, para termos foguetório.

A minha irmã pousou o bloco na mesa e desembainhou as armas brancas dos olhos. Percebemos que bastava um nosso inocente e simples risinho parvo e totó para sermos atingidas na jugular pela lapiseira encharcada em cicuta. 

 

Quietinhas. Caladinhas. A tentar não nos esbardalharmos, nem fazer ruir os edifícios. 

 

A minha prima olhava para os transeuntes, evitando cruzar manigâncias comigo e com o que oscilava ali na frente. Ouviam-se uns ruídos surdos que soltava pelo nariz, acompanhados por esquivos solavancos nos ombros e no peito. Eu, muitíssimo mais controlada nestas ocasiões - é nestas e nos terramotos. Foi ver-me no de 1755! -, procurava encontrar forma de lhe causar a perdição completa.

Peguei no bloco e escrevi:

 

O homem não traz cuecas!!!

 

 Estendi o bloco e a lapiseira. A minha prima leu e com os queixos a tremer, com as maminhas a saltar e os ombros a abanar, conseguiu os riscos:

 

Ou traz o fio dental ao contrário.    

 

Voltei à carga:

 

Não é italiano. Está a mentir.

 

A minha prima ficou curiosa. Beberricou o sumo de laranja para acalmar, franziu as sobrancelhas e já muito séria inquiriu - com os olhos, porque qualquer palavra dita, por imbecil que fosse e a ano-luz de ter piada, provocaria o descalabro.

 

É de Mirandela. Traz o fumeiro dentro das calças.

 

Desastre absoluto.

A mulher esbardalha-se sem dó nem piedade e até pelo nariz. O sumo de laranja disparado num borrifo imenso atinge a prima Cheroqueque que fica com o cabelo como se tivesse atravessado o furacão Maria e sofrido em seguida uma tempestade tropical, pois que até das pestanas o sumo pingava. 

Já nada nos trava. Depois de chorar desalmadamente, ensopando as gargalhadas, e depois de sentir o ar a fugir, o riso abrandou.

Olhamos as duas para a morte que se perfilava.

A minha irmã tinha na mão o bloco e tentava salvar e limpar os gatafunhos. Tinha lido as nossas angelicais considerações.

Havia explicações a dar.

Vira-se devagar para o homem atónito e sussurra com um perfeito sotaque spaghettiano.

 

- Questionaram a tua nacionalidade. Uma tolice, já que trazes a Torre de Pisa enfiada na porcaria das calças.

 

Apesar de, pela primeira vez, a minha irmã ter conseguido ser brejeira - há inesperados que abanam pesados no meio das mais sólidas convicções -, estas duas primas Cheroqueques vão morrer em breve; quiçá abrasadas pelo rubor incandescente que assolou o pobre do rapaz; quiçá vítimas de facas embebidas em curare, atiradas pela grande sacerdotisa - cuja mira é falacciosa -; quiçá sacrificadas em rituais tribais onde são trespassadas por alheiras do tamanho de anacondas.

 

A minha prima admite que a última hipótese é a que prefere.

 

Ilustração - Sérgio Martinez

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe fantasmagórica

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.17

Hitchcock’s underrated “Stagefright”.gif

 

É patética a existência de uma espécie de indigentes cujo único objectivo na vida é alcançar um pedaço, mesmo irrisório, de atenção. Esmolam sem qualquer tipo de pudor e sem dignidade, desavergonhadamente, deploravelmente, arranjam formas ínvias de acreditar que são capazes de desviar um olhar alheio para os trapos encharcados que batem uns nos outros acossados pelo vento e que produzem o som das palavras que tentam juntar.

 

Insistem e são cansativos, aborrecidos, entediantes, previsíveis e de uma inutilidade confrangedora.

 

Dir-se-ia que possuem um dispositivo no cérebro que é accionado demasiadas vezes sugando toda e qualquer capacidade de raciocínio. Absorve a massa encefálica como se de um buraco negro se tratasse. Fica o vácuo, o inexistente, o espaço oco onde a miserável súplica, o deplorável rogo, a coitada crença na possibilidade de se tornarem visíveis, bate contra as paredes ósseas do lugar onde se escapou a vida, como uma bolita de um ping-pong jogado por ninguém.

 

Quando se acredita que o Além é logo ali ao lado, acaba-se por indução a evocar fantasmas.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe sem facebook

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.17

christian_dior.jpg

 

A revista concentrada que folheava impedia a chamada cumplicidade de mulherio. Só o barulhinho do virar da página indicava que talvez fosse possível introduzir uma palavra dita nos domínios do papel lustroso.

Cruzou as pernas e deixou que no meio da imobilidade posterior ao instante lhe analisasse em detalhe os J’Adior que se exibiam agudos e aveludados nos pés pequenos para tamanha altura.

 

- A fita podia ser menos apelativa  - começo descontraída crítica.

- Hummm - e vira a página.

- Não sei se gosto da ostentação patega da marca - continuo muito inteligente.

- Hummm - e vira a página.

- Mas o laço é tão bonito! - sorrio com a mimosa descoberta.

- Hummm - e vira a página.

- Os calços são feios - desaprovo.

- Hummm - e vira a página.

- Parece que os partiste - aponto eu.

- Hummm - e vira a página.

- A fita branca talvez seja um bocadinho exibicionista - acrescento.

- Hummm - e vira a página.

- Talvez se fossem os de couro não parecessem tão miquinhas - juro que não sei onde fui encontrar esta expressão.

 

A minha irmã levanta-se. Fecha a revista e antes de sair recomenda:

- Controla-te. Não estás no facebook.

 

E viro a página.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe psicopata

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.17

pooh.jpg

 

Sempre senti uma enorme atracção por sangue.

Folhas manchadas que cortaram dedos; lâminas sujas, maculadas, que rasgaram o rosto ao barbear; lenços brancos que serviram de tapume a pequenos golpes sofridos à toa.

 

Não chegava a tocar nas manchas vermelhas, mas despertavam-me a atenção de modo quase obsessivo. Ficava varada a observar o esbater da nódoa, as zonas onde a cor se atenuava, a esmaecida fronteira que iniciava o corromper do límpido. Deslumbrava-me com a magnitude do encarnado e assombrava-me se adivinhava a origem, o golpe, o lanho, a carne onde o fio frio da agressão se liquefazia externo.

 

Ultimamente esta atracção tem raiado o vampirismo. 

 

Se me corto, levo à boca o sangue e atento no sabor que dele chega. Não o defino, não o aproximo de nenhum outro que tenha experimentado. Roço a língua pelo golpe e sorvo e chupo e deixo que aquele sentir vagamente metálico me arrepie e é então que descubro a violência bruta das arenas e o apelo incontrolável do assassino, como se da memória mais profunda, mais secreta e obscura, me assaltasse o instinto do que sou.

 

Depois faço de conta que são rosas. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe de repente

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.17

girl.jpg

 

De repente passa por mim espampanante a sinuosa mulher de corpo denso e rotundas curvas, roliças esquinas de carne potente perfumada por perfume quente e passo compassado para apoiar a amiga que quebradiça a segue cega e calada pela fúria da carteira cara que bamboleia nos braços robustos da indignação ruborizada que desarvorou ao lado.

 

- Tu bem que me avisastes aqui á uns tempos atrás.

 

Aposto que aquele não tinha h.

E prontus.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe de Laurent

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.17

Laurent Filipe.jpg

Vi pela primeira vez Laurent Filipe num programa de talentos. Era um dos elementos do júri. Não me despertou interesse. Percebi que era músico, mas aquela espécie de pedantismo mesquinho e paternalismo cretino extinguiu qualquer vontade de conhecer as suas melodias.

Suponho o programazinho lhe deu visibilidade. Acontece por vezes neste tipo de concursos.

Esqueci-o. Esqueço depressa os falsos snobs.

Vi-o ontem.

A breve entrevista na RTP2 servia para publicitar o seu concerto.

Continua a não me provocar qualquer entusiasmo ou interesse. Permanece nele aquele tipo de afectação melada e enjoativa que adivinhei no primeiro encontro.

Apesar de tudo, a entrevista corria bem. Laurent Filipe convidada os espectadores a ouvi-lo. Nada que não se esperasse. De repente, como se metido à sovela, mimando uma ironia que soou demasiado falsete, Laurent Filipe esbardalha-se:

 

- Já me perguntaram se convidei a Madonna. Sim, convidei. Vamos ver se ela aceita – e, sem ter a veleidade de o transcrever com rigor, acaba – às tantas o público que vier ao meu concerto, vê a Madonna.

 

Laurent Filipe prefere ter um concerto seu, repleto, a babar a hipotética aparição de Madonna do que apenas seis cadeiras ocupadas com a música que faz. Acena - vestido com um allure de falso parisiense e mascarando a intenção com uma ironia que não convence -, com uma cenoura vedeta internacional que eventualmente poderá estar ao alcance dos olhos do maralhal parolo que lhe comprou os lugares que restavam, depois do músico ter convencido os amigos a marcar presença.

 

Esta macacada pacóvia atinge demasiados espaços do apelidado universo cultural português reduzindo-os - incluindo o público e os obreiros culturais que deles fazem parte - a uma amorfa cambada de cretinos parolos, sem critérios que não sejam os dominados pelo livrinho de autógrafos e pelo poster ranhoso colado a força de saliva na parede da mediocridade.

 

Prefiro Salvador Sobral e os seus gases.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Salvem o Tony Carreira

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.17

A minha professora mandou-nos fazer uma redacção com o título Salvem o Tony Carreira. A bem dizer eu não sei o que hei-de escrever por isso vou fazer um desenho muito bonito onde está o Tony Carreira mesmo no meio da controvérsia. A controvérsia é a folha onde fiz o desenho. Os outros senhores que emprestaram as canções ao Tony Carreira estão ao lado a dar-lhe as cantigas que eram deles até o Tony Carreira as ter ouvido. A gente é assim. Parece que sofremos muito da influência que é uma gripe que mata as pessoas que escrevem coisas antes do Tony Carreira. O desenho é muito fácil de se perceber porque eu desenho bem. Ora vejam.

gui.png

Que bonito. Vou pedir à minha prima que o meta no faicebuque. A minha prima manda pelo faicebuque a uma amiga que anda de camioneta atrás do Tony Carreira e ela dá-lhe uma fotocópia para o Tony Carreira mostrar aos polícias. De certezinha que vai ter muitos uaiques e muitos uoues no faicebuque da amiga da minha prima que não consegue dizer os éles. É preciso cuidado com a amiga da minha prima Idalina porque ela já disse ó Idauina ó minha uinda tu sabes que até sou capaz de apunhauar  as que não desuargam o uove que tenho peuo Tony. Que nenhuma badauoca se couoque à minha frente ou ao uado do Tony que eu uixo todas. A mulher é bem capaz de dar-lhe um atentado se lhe chega aos ouvidos que o Tony anda com outras que não são dele. A tristeza é que vai-se a ver e quem andou a cantar as canções do Tony Carreira foi a Laura Fabiana e um senhor espanhol parecido com o meu primo Zeca mas com mais dentes e ninguém se lembra de atirar isso à cara desses desavergonhados que só fazem puágios. A amiga da minha prima diz que os puágios uma merda. Puágio é a Maria José Portugaue Portugaue e que a essa muua uiora ninguém diz um pirouito. É por isso que eu acho que um puágio é uma senhora  que mostra no feicebouque as coisas dos outros para ter muitos uaiques. Ou é puágio ou é franchanzingue. Eu gosto muito do Tony Carreira mas também gosto do senhor espanhol que bebe muito e da Laura Fabiana ou dos três ao mesmo tempo que é um tressóme que diz que ouaré que é do caraças.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe muito incapaz

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.17

Tom-Hiddleston.jpg

 

Dizem-me os entendidos cor-de-rosa que existem dez factores masculinos que tornam irresistíveis os seus donos aos olhos das moçoilas. Enumeram-nos. Verifico a existência de barba, pilosidade maravilhosamente distribuída, queixo quadrado, abdominais proeminentes, olhos de lince, lábios de mosto, quem faz um filho fá-lo por gosto, entre outras condições exigidas para que nos verguemos, dominadas e seduzidas.

Dizem-nos também que a nossa atracção pelo macho é directamente proporcional à sua aparente capacidade de procriar, de proteger, de dominar, de ser gregário, mesmo tribal, e de produzir rebentos do mesmo calibre dos deuses. Referem, à laia de exemplo e por exemplo muito street style, que uma mulher acompanhada por um barbudo tem menos hipóteses de ser assaltada pela calada daquela noite em que escolheu um imberbe. É-nos sugerido que um Cro-Magnon é sempre o bicho que escolheríamos, ignorando descaradamente um hipster vestido por Valentino, para connosco partilhar a observação das estrelas que explodem quando a cama é comum.

 

Pese embora o rasgar de vestes, o arranhar das paredes até se escacarem nails, o sangrar do Facebook lancetado por pretensos feminismos capazes de desentranhar a revolta enojada a muitas Marias, estou tentada a concordar.

 

Gostamos de Cro-Magnons. C’est mignon.

 

Não é de todo desagradável termos Daniel Craig, todo nu, carnal, bruto, besta insensível, insaciável, macho alpha malcriado, de pistola em riste, machista e misógino, a empurrar-nos contra uma parede, ou a desabar sobre o nosso corpinho de ninfa dos bosques frágeis, todas dominadas, à mercê dos seus desejos concupiscentes e prontas a ser tratadas como objectos. Desde que Daniel Craig tenha consciência do valor do objecto - capaz de humilhar a parva da Mona Lisa, único e incomparável, obra-de-arte indizível e suprema criação de Deus Nosso Senhor - não nos conspurca decidir ser tratadas, de quando em vez, como objectos.

 

Apesar de parecer contraditório, esta escolha consubstancia uma atitude deveras feminista.

 

É um fastio, um tédio, um enfado, uma frustração, um desespero e uma dieta forçada, uma rapariga ter de negar o prazer imenso que é ser controlada, manobrada, usada e transformada em objecto nu, deitado na cama, só com uma gota de Chanel a proteger-lhe a feminilidade, quando o frasco do seu desejo assim se desenrosca.

Não tem mal nenhum e o sexo é sempre tão primitivo que dir-se-á datar do Paraíso.

 

Depois, minhas caras, nos sabemos que se gostamos de ter, de vez em quando, Daniel Craig a disparar canhões de testosterona bruta e grosseira - e para lá das escolhas que dizem que fazemos -, existe sempre o deslumbrante Tom Hiddleston, o meu preferido e preterido 007, capaz de se transformar em Halibut.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe campeã

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

Ph. André Kertész.jpg

Porque faz tanta falta um lugar onde nos possamos sentar e ficar pela tarde dentro, morna e lenta, a ouvir falar das coisas que nos falham, porque a tarde lenta e morna nos faz acreditar que há tempo para tudo.

 

Foto - André Kertész

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de cinzento

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

Alexandre Trauner     Fleurs, Paris     c.1940.png

Tinha um vestido cinzento. Princesa. Partiam quatro pregas fundas do corte no peito. Um laço rígido e pequeno apertava a gola arredondada. Mangas ¾, dizia a minha avó.

Era demasiado criança para tanta severidade, mas aquele vestido de Inverno tinha-se tornado um dos meus favoritos. Usava-o com meias grossas e sapatos fechados, muito masculinos.

Quando o vestia deixava de ter corpo. Só havia aquele cinzento que apagava as cores das pessoas que deixavam também de existir dentro da roupa que traziam.

A minha mãe prendia-me o cabelo com uma fita larga, num tom pouco afastado da cor do vestido e ajudava-me a colocar os minúsculos brincos de pérolas que tinha guardados numa caixinha preta que fechava com um clique que ainda ouço, nítido, sempre que me chega à memória o almofadado dos gestos que me tocavam e afastavam o cabelo e me roçagavam o rosto.

 

Gostava do vestido cinzento e daquele gesto que me enfeitava as orelhas.

Tinham silêncio.

 

Foto - Alexandre Trauner - 1940

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe tolerante

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.17

114.jpg

 

Foi-me ensinado que a melhor forma de ficarmos cientes dos movimentos que alteram o mundo - sobretudo aqueles que resultam na desumanizam -, é usar o bisturi esterilizado do raciocínio e nunca empapar as mãos abrindo à toa os órgãos que tornam material determinado acontecimento.

 

Nem sempre consigo.

 

Tento demasiadas vezes encontrar o lugar-comum, o ponto de contacto, a marca subtil, despercebida, que lateja em todas as ocorrências originárias de sismos sociais, de atrocidades, de inimagináveis barbáries ou de ilimitados terrores, de parafernálias societais ou de desvios globais e tenebrosos ao que sabemos ser humano.

 

Ouço cuspir discursos com uma facilidade que me assusta. Ouço palavras que jorram ininterruptas sobre fundamentalismo, integralismo, nazismo, fascismo, totalitarismo, homofobia, xenofobia, racismo e tantas outras sobre outras tantas que não dou conta, porque de tão estranhas a mim, distam abismos, embora em todas elas eu encontre o elo que as une, a marca que as irmana ou ata ou aproxima.

 

Acredito que a Intolerância é a chave-mestra. Aquela intolerância que é quase biológica, a que impele o bicho a demarcar território, a primordial, a pulsão, o instinto que nos faz negar ou repelir o que nos ameaça a tribo, o espaço de sobrevivência, a ancestralidade, a velhice eterna, os teoremas que regem determinada grupo, herdados de modo quase físico.

 

Nenhuma doutrina que sustenta o terrível sobrevive sem ser apoiada por esta pulsão.

 

Mein Kampf é derrubado facilmente por todos os argumentos lúcidos e racionais que desejarmos, e no entanto o anti-semitismo pseudo-científico nazi torna-se prática industrial do genocídio, porque existe antes, vindo de tempos imemoriais, um ódio, uma desconfiança, uma aversão, populares e entranhados, ao judaísmo.

 

A intolerância selvagem tem matriz e raiz obscuras e velhas como o tempo. Não é produto imediato - ou secundário - da doutrinação operada por nichos específicos, localizados ou definidos que se apropriam dos imemoriais sedimentos para cavar as trincheiras do terror. Talvez seja por este facto que a teorização da intolerância seja sempre operada pelas elites, sendo posta em prática pelos miseráveis, pelos menos favorecidos, pelos pobres que são, em breve análise, simultaneamente as suas vítimas. Os poderosos limitam-se a produzir as doutrinas da diferença. São os mais fracos que as põem em prática.

 

A intolerância selvagem, a Grande Intolerância, matriz de todos os holocaustos que ainda ardem, é a da iniciação, chega como característica do Homem. Deverá ser controlada desde o início, como se aprende a controlar os esfíncteres, a dar os primeiros passos, a balbuciar as primeiras palavras.

 

É tarde demais quando a debatemos ou quando a escrevemos. Nessas alturas já se tornou demasiado espessa, dura e impenetrável.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na cabine

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.17

pilot.jpg

 

Não vale a pena!

É ingénua ilusão pensar possível um amor feito num minúsculo cubículo do avião onde o odor a desinfectante poderoso, próximo do perfume da assistente de bordo gorducha e loira, nos entope a libido. Não é viável pensar sequer cumprir uma das fantasias sexuais mais comuns ao mais comum dos mortais, passageiros espevitados e marotos de um voo que faz escala no centro da mais destravada e esconsa manobra da nossa excitação já confessada. Não é possível encaixar um matulão num espaço exíguo, habitado por apetrechos destinados apenas a destruir resíduos pouco motivadores, que, imaginamos, outros como nós, mas com intenções organicamente menos controláveis e mais solitárias, deixaram fluir com o alívio de evadidos condenados. Não é agradável fechar um gigantesco animal num cubículo e esperar que consiga travar uma luta que de grego tem apenas a nudez olímpica e de romano a lança gladiadora. Não é relaxante tentar a despercebida entrada na gaiola e a esperada saída desse espaço sem apanhar com o espavorido e esbugalhado olhar dos que nunca esperam ver dali sair suado o pecado ainda a arfar de transgressão.

pilot4.jpg

 

Estava convicta desta frustração movida a jacto, até que, em voos menos reservados, mas de longo alcance, a Gaffe deu consigo a salivar as selfies do piloto que decidiu provar que um trem de aterragem é bem mais adaptável aos espaços exíguos do que aquilo que prevíamos, e que se arranja sempre lugar para a mecânica.

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD