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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na cabine

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.17

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Não vale a pena!

É ingénua ilusão pensar possível um amor feito num minúsculo cubículo do avião onde o odor a desinfectante poderoso, próximo do perfume da assistente de bordo gorducha e loira, nos entope a libido. Não é viável pensar sequer cumprir uma das fantasias sexuais mais comuns ao mais comum dos mortais, passageiros espevitados e marotos de um voo que faz escala no centro da mais destravada e esconsa manobra da nossa excitação já confessada. Não é possível encaixar um matulão num espaço exíguo, habitado por apetrechos destinados apenas a destruir resíduos pouco motivadores, que, imaginamos, outros como nós, mas com intenções organicamente menos controláveis e mais solitárias, deixaram fluir com o alívio de evadidos condenados. Não é agradável fechar um gigantesco animal num cubículo e esperar que consiga travar uma luta que de grego tem apenas a nudez olímpica e de romano a lança gladiadora. Não é relaxante tentar a despercebida entrada na gaiola e a esperada saída desse espaço sem apanhar com o espavorido e esbugalhado olhar dos que nunca esperam ver dali sair suado o pecado ainda a arfar de transgressão.

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Estava convicta desta frustração movida a jacto, até que, em voos menos reservados, mas de longo alcance, a Gaffe deu consigo a salivar as selfies do piloto que decidiu provar que um trem de aterragem é bem mais adaptável aos espaços exíguos do que aquilo que prevíamos, e que se arranja sempre lugar para a mecânica.

 

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