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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem medo

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.17

Halloween

 

A Gaffe admite que não tem medo de zombies, espectros, possessos e quejandos.

São criaturas sem berço nem campa. Aparecem sem prevenir, a horas a que uma rapariga de boas famílias já não recebe e sempre de mãos a abanar.

Surgem do nada, esquálidos e sem corrector de olheiras, como se tivessem estado pasmadas a ver o telejornal na RTP1, liderado pelo melhor escritor português que, com a objectividade que o caracteriza, vai enfatizando palavras através de entoações manhosas e de manobras manuais, manipulando de olhos esbugalhados pequenas coisitas que adquirem assim a importância que nunca tiveram. Usam unhas de gel, mas esquecem que esse tipo de erro só pode ser cometido por Iphones com raparigas apensas, por psicopatas assassinas, pelo Freddy Krueger, por senhoras que gostam de se excisar - várias vezes -, durante as suas mais reservadas actividades lúdicas, por moçoilas cuja higiene diária é robotizada e o papel higiénico é autónomo como a Catalunha e jamais por gente morta que anda na lavoura, pois que a terra fica presa ao verniz e provoca muitos espigões.

Vestem-se com Viviene Westwood dos anos setenta, depois de um desfile que correu mal e com uma taxa de alcoolemia que as faz passar por anémicas.

São criaturas sem princípios, maçadoras, que leram pouco - convém levar para a cama apenas gente que acabou um livro e que inicia outro -, sem dom de palavra e mal sintonizada, porque urram e rosnam imenso - como a Rádio Renascença.

 

O melhor que podemos fazer é ignorar ou fazer de conta que não estamos.

 

A Gaffe confessa que tinha medo, isso sim, de criaturas que lhe tentavam agarrar os pés de porcelana e lamber as unhas imaculadas, procurando arrastar esta angelical rapariga para o submundo da cuesia e prosa puética, com manigâncias que causavam algum desconforto e com récitas murmuradas entre dentes. Eram coisas balofas e brancas, pequenas, redondinhas, gelatinosas, anafaditas, papudas e celulíticas. Rastejavam sorrisos e amabilidades verdes e ranhosas; cantavam em surdina lengalengas amorosas; despejavam água de rosas nas línguas - tinham várias - para disfarçar enjoativamente os odores do que cuspiam de repente; levantavam bandeiras de bondade, de solidariedade, de comunhão com o planeta e de transcendente despojar daquilo que é vil, abjecto e sem florinhas, mas que salivavam, se contrariadas, o nojo e abjecção do mais mesquinho dos preconceitos, culpabilizavando - vítimas dos céus e dos infernos que conspiravam sempre contra elas -, miríades de estrelas impossíveis de tocar.

 

Eram criaturas que assustavam a Gaffe, até que esta rapariga se apercebeu que bastava colocar um dos seus diáfanos lenços Hermès sobre os mimosos pés. Por muito que tentem, não lhe conseguem chegar.

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A Gaffe de Outubro

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.17

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A Gaffe decidiu escolher as figuras que mais se destacaram no mês que agora finda, procurando dar um cunho levemente ibérico à selecção encontrada, pois que de união este Outubro foi profícuo.

 

Escolhe como primeira anotação, e como não podia deixar de ser, o senhor engenheiro, não pelas razões óbvias, mais que abanadas e mais que esfregadas nas páginas do quotidiano de toda a população do planeta, mas pelo facto da Ordem dos Engenheiros ter deixado pendente a informação de não inscrição do senhor engenheiro nas suas vetustas listas. A Ordem dos Engenheiros durante trinta anos desconheceu - ou se conheceu, decidiu que era desagradável incomodar o senhor engenheiro com manigâncias destas -, que o senhor engenheiro não era senhor engenheiro e que o senhor engenheiro tinha passado pelos intervalos da Ordem sem que a Ordem do lapso desse notícia - pois que a não tinha! -, acrescentando porventura  que o senhor engenheiro não merecia afronta tamanha.

A Ordem dos Engenheiros é exemplar na luta contra o preconceito, há que sublinhar. A Ordem dos Engenheiros é indiferente a títulos académicos e preza apenas, isso sim, a personalidade, o carácter, a lisura, a honestidade, o sentido de ética e o respeito pela verdade de quem não tendo uma licenciatura, vive como se a tivesse, assinado mesmo na tenra juventude projectos abomináveis na terrinha.

A Ordem dos Engenheiros considerou durante trinta anos que o senhor engenheiro era senhor engenheiro por usocapião. Convinha, no entanto, inquirir as outras Ordens, pois que pendentes podem estar outras situações de igual amabilidade das Instituições para com os campeões.

 

Esta mimosa advertência leva directamente à escolha do segundo rosto do mês e, mais uma vez, não pelos motivos óbvios - o homem não tem culpa de ser contemporâneo de João Evangelista -, mas pela segunda assinatura no vómito do acórdão.

A senhora juíza Maria Luísa Arantes é uma maravilhosa ilustração daquilo a que os britânicos chamam bitchness. Depreendendo-se que a senhora juíza leu com a atenção exigida – não podia ter sido de outra forma, pois que a senhora juíza está inscrita na Ordem -, é fácil concluir que a senhora juíza coadjuva e subscreve as ilações e as sábias citações do companheiro de Ordem. É portanto uma mulher que também considera que a Lei de 1886 deve ser invocada para suspender a pena a um par de bandalhos que agrediram uma mulher no aconchego do lar, traído ou não.

É irónico ter sido uma mulher a comprovar que quando estão em causa os direitos da mulher, um dos seus maiores detractores, uma das suas mais ínvias e esconsas ameaças, é o facto de entre elas estar o inimigo. Maria Luísa Arantes é tanto ou mais responsável pela suspensão de pena a dois energúmenos que espancaram uma mulher como o senhor de 1886. Convém não esquecer que a violência doméstica exercida sobre uma mulher foi justificada por uma mulher que - temos todos a certeza - leu atentamente o acórdão criminoso, pois que de forma contrária a Ordem não permitiria que se mantivesse magistrada.

A justiça portuguesa não é de modo nenhum um dos pilares da democracia portuguesa, enquanto, no povo que se queixa, existir a angústia de saber quem é o juiz do seu caso, como se dependesse dos humores, das crenças, dos valores morais, dos preconceitos, das manias, das frustrações, das inclinações, da flatulência e do desgosto de cada um dos senhores juízes a sentença proferida. A rua não pode coagir ou forçar a Ordem instalada a alterar comportamentos dos senhores juízes que reivindicam tempo para repensar atitudes. O tempo deles, dos inscritos na Ordem, é tremendamente diferente do tempo dos que se queixaram e entretanto são os afectos e os desafectos que ditam sentenças.

 

Os afectos movem presidentes. A Gaffe escolhe o presidente dos afectos como terceira figura do seu repertório e admite que abraços e beijos conduzem a uma dúvida daninha que vai roendo a imagem que esta rapariga esperta guarda do senhor presidente.

O povo que o senhor presidente beija e abraça e diz defender, responde positivamente à carência de popularidade do senhor presidente, mas não é um povo carente. É um povo desesperado, espoliado, só, isolado, queimado, na miséria, sem apoio e com uma estrutura administrativa cravejada de burocracia - um povo que vê, por exemplo, a ajuda à reconstrução da sua casa travada por falta de licenciamento daquilo que agora não existe, mesmo tendo sido o IMI ao longo de trinta anos cobrado religiosamente -, mas que encontra dentro da desgraça o velhíssimo espírito português - ou alma lusa, como vos aprouver e seja lá o que isso for -, com força para plantar todos os pinhais de caravelas de coragem.

O senhor presidente dos afectos com tanto afecto demonstrado corre o risco de escapar ao escrutínio político a que, também ele, deve estar sujeito e acabar beijado pela mulher-aranha. A mesma mulher que andou a fechar a boca à escabrosa falta de empatia e de sensibilidade de um governo a queixar-se de falta de férias com uma ministra a arder em lume brando e um anafado desenvencilhem-se.

 

É evidente que desenvencilhar é o que terá de fazer o catalão com um penteado que o faz parecer um estranho cogumelo - independentista é claro. Madrid está mais do que habituada a impor monarquias a um povo inteiro e não se comove agora com uma república imposta à sovela. O charme de Filipe VI não funciona neste caso como funcionou a intrigante inteligência do papá em caso anterior. Sem rei, mas com um roqueiro, a república da Catalunha durará enquanto a ambição manipuladora de um oportunista for rainha e existir um inepto, intransigente e ultrapassado primeiro-ministro com tiques de parvo que usam, num caso e no outro, nos prós e nos contra, a voz de um povo que genuinamente inocente acredita que o defendem e que se encerrará o jugo de Madrid, ou a insolência catalã, com a rapidez com que se fecham este mês e este post que duram há tanto tempo.

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A Gaffe nos anos sessenta

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.17

Vic Seipke

Mais de duas décadas antes de eu nascer, a fotografia de Vic Seipke cumpriu o seu destino, provavelmente similar ao traçado para aquelas que hoje, cinquenta e alguns anos depois, povoam as fantasias menos exigentes de públicos que uma rapariga de boas famílias não está autorizada a referir sem se benzer.

 

O ginasticado rapagão terá sido um menino de sua mãe - tão jovem! que jovem era! - capaz de ostentar provas de insistente, consistente e reveladora actividade física que, acreditamos ao observar pormenores, não se confinava apenas às quatro paredes de um ginásio, estirando-se com certeza pelo chão, elevando ao tecto apensas manigâncias e  passando num ápice para o uso de toda a mobília.

 

É indefinida a idade do retratado. Embora sendo eu uma criatura incapaz de atribuir idades ainda que aproximadas a potentados destes e dos outros, provavelmente o rapagão não terá mais de trinta anos. Se usarmos o conselho do meu querido Guterres, Vic Seipke é agora um octogenário.

 

É evidente que não tenho intenções de me tornar tenebrosa, sinistra, ameaçadora, lúgubre e absolutamente parva, arabizando considerações acerca da crueldade do passar do tempo, da impotência da beleza perante a decadência, da fatalidade da queda, da vacuidade da vida, da irresponsabilidade do culto do efémero, ou da desagradável e maçadora homogeneização do destino do universo perante o fim. Gosto imenso do efémero, do irresponsável, do que é inutilmente belo, do vácuo existencial, da queda bem almofadada - também gosto de dinheiro, mas suponho que esta informação é despropositada neste contexto -, e faço tenções de gozar todas estas sumptuosidades sem as conspurcar com as piolhices que o mais tinhoso romântico literário se encarregou de glorificar.

 

É claro que se neste momento Vic Seipke fosse convidado a posar nos preparos do seu passado, o resultado não seria o melhor, por muitos pesos que o rapaz continue a levantar, e suponho que mesmo num calendário solidário, despido de bombeiro, não acenderia um fósforo. Seria apenas um fofo muito querido com imensa coragem e genica que foi capaz de se despir de preconceitos em nome de uma causa e ó que linda que a velhice pode ser!

Este magnífico exemplar de testosterona solidificada, mesmo que não a tivesse direccionado como nos apraz, é agora um velho, muito velho, muito velho, muito podre - se tivermos em consideração que o que aos trinta fazemos, aos oitenta o pagamos. No entanto, no auge da sua envergadura, o rapagão depilava-se como se o amanhã fosse ali já – nunca de Alijó, onde os homens ainda fazem questão de manter todos os pêlos -, usava sem constrangimentos ou receios uns calções que certamente se fartava de despir, muito apertados e bastante interessantes na óptica da observadora e sabia moldar o seu bronzeado para que o seu perfil proeminente fosse passível de ser bem avaliado e apreciado.

 

Os anos sessenta de Vic Seipke fazem mais sentido que uma vida inteira a carpir a implacabilidade do tempo que passa, passado no culto da morte que está com certeza em cada esquina e nos torna iguais, despidos de tudo. O pó, a cinza e o nada chegam antes do tempo neste carpir doente, neste choro mórbido, que entope o nariz, que impede até mesmo uma fotografia parva, mas que glorifica os instantes solares em que somos agora.

 

Na foto - Vic Seipke - 1960

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A Gaffe sentencia

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.17

Julio Ruelas - 1907.jpg

 

O preconceito, sendo a mais básica forma de raciocínio, tem, não raro, como afluentes foleiros, aforismos, tantas vezes ditados populares, frases feitas e expressões várias que trazem dentro a maleita mais ou menos disfarçada.

 

Embora do preconceito sofrido pelo feminino reze a história - sobretudo a bíblica - não é agradável, nem muito esperto, desfraldar revoltas, rasgar vestes ou criar plataformas digitais - onde no primeiro intervalo da indignação se vendem cosméticos e se apela ao consumo de valor acrescentado. É francamente tonto reagir queimando em praça pública - ou seja, no facebook - o infractor que revela ao mundo a sua imbecilidade. Há preconceitos que são uns queridos e apoiam a mulher como nunca a falta deles o fez. Basta que os saibamos manipular e usar conforme as nossas conveniências.

 

A Gaffe, por exemplo, está habituadíssima a ser, como ruiva que é, classificada como predadora sexual, exigente e insaciável. Um mimo que se reporta ao conluio com Satanás, pacto assinado durante os picos da Idade Média e que actualmente tem uma variante - a assanhada.

É evidente que não é simpático ter a maçada de sabermos que a nossa cabeleira ruiva tem conotações sexuais, mas, por outro lado, o preconceito que a despenteia é ao mesmo tempo um repelente de pilas pindéricas. Nenhum homenzinho se atreve a assediar uma ruiva. Sabe que sai da liça completamente esfarrapado, humilhado, com o enxoval em pantanas e a chamar pela mãe. Neste caso, o preconceito é útil e acaba mesmo por nos assegurar uns valentes machos alpha que, desde que se mantenham calados, passam incólumes.

 

Convém não esquecer que o preconceito é na esmagadora maioria das vezes manipulável.

 

Uma rapariga esperta sabe que sendo o preconceito um raciocínio esmagado, espalmado e plano, tem sempre um vértice, uma pontinha, um biquinho, uma arestazinha, capaz de nos entregar a possibilidade de infringir ao detentor do dito uns cortes parecidos com os do papel. Raras são as situações que cortam tanto um menino como aquelas em que o ouvimos declarar, por exemplo, que a cozinha é o lugar das mulheres, ou que a mulher quer-se como a sardinha – este é francamente uma porcaria! Imaginamo-lo de imediato - com alguma comiseração, é certo -, a cuspir os dentes num prato vazio e a tentar mastigar os que vão caindo, com uma espinha enfiada no rabo, só para mostrar que é capaz de grande ousadias e de brutas aventuras todas masculinas. Apetece imenso pedir ao petiz que vá num instantinho à pesca. Sabemos que só assim surgirão hipóteses do pobre ter um encontro amoroso, com promessa de envolvimento sexual. Terá de se apressar - pois que é dito que se vai proibir em breve a apanha das suas eventuais namoradas -, e nessa pressa, uma rapariga vai andando livre de aromas são-joaninos.

 

É evidente que nem todos os preconceitos são fáceis de manobrar. Existem os que se disfarçam de Velhos Testamentos, de sentenças bíblicas ou mesmo de leis anquilosadas que se aproximam imenso da vida dos que as proclamam hoje. São preconceitos que simulam o raciocínio, mas que se transformam em crime.

 

Os preconceitos dos pequenos homens dão imensa vontade de citar as mulheres do Douro e com elas murmurar à moda antiga que homem pequenino - ou velhaco, ou assassino.

 

Imagem - Julio Ruelas -1907

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A Gaffe inevitável

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.17

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A Gaffe lê imenso e sabe sabe que o mundo não está repleto de paspalhos imbecis.

O problema é que descobriu que eles estão estrategicamente colocados de modo a que dois ou três se cruzem com ela todos os dias.

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Gavetas:

A Gaffe e uma mulher cumpridora

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.17

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Devo dizer que sou uma pessoa de fé, esperarei sempre que chova e esperarei sempre que a chuva nos minimize alguns destes danos. Como é evidente, quanto mais depressa vier, mais minimiza, quanto mais tarde, menos minimiza. Se não vier de todo, não perderei a minha fé mas teremos obviamente de actuar em conformidade.

 

  Assunção Cristasministra do Ambiente, do Mar, da Agricultura e do Ordenamento do Território - 2012

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A Gaffe de noite

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.17

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A noite é uma árvore lancetada.

É chegado o tempo em que as raízes petrificam de cansadas. A seiva em escultura.

É tempo de tentar ser outra coisa.

 

A noite é outra coisa que não eu?

 

Não há razão para não o ser, mas as razões são o acaso que invade o território sem qualquer pudor. Chegam como se tivessem uma história onde não entramos. Uma história que pode ser contada sem nós. Uma história exclusivamente delas, onde a nossa mudez está na garganta, definitivamente na garganta, e não no lugar onde nós somos.

Eu e noite temos secretos recantos onde a minha voz se ouve claramente. Os olhos da noite rastejam dentro da minha voz. Um pacto em que a noite deixa mortas as palavras corrompidas e eu aceito esse abandono como uma oferta inevitável.

 

É tão tarde e não amanhece.

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Gavetas:

A Gaffe, ela própria

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.17

A Gaffe fica perplexa perante a definição de moda apresentada pela maioria dos criadores portugueses que nunca leram Barthes, mas que vão seguindo a linha dos congéneres estrangeiros que, por sua vez, deviam enfiar um rolo de tecido na boca e outros nos orifícios similares.

 

Segundo a excelsa visão dos referidos, Moda é o que nos fica bem. Moda é sermos nós próprios - ou nós mesmos, se estivermos para nós virados.

 

Sermos nós próprios - ou nós mesmos - permite muito paspalho visual, mas, no entanto, o certo é que se cada um reconhecesse - e vestisse - as grandes verdades que somos, o mundo ficaria muitíssimo mais elegante, mais simples, mais claro, e sem dúvida muito mais pacífico.

 

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A Gaffe da Ministra

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.17

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Os preparativos do baptizado estavam aprontados e a madrinha rejubilava.

O padre da Freguesia, homem dos seus trinta e poucos anos, serrano, robusto e bonacheirão, recusou terminantemente a indigitação da felizarda.

A agora lavada em lágrimas desolada mulher não podia ser a bafejada, porque era divorciada

.- É impura - afirma inflexível o jovem padre.

 

Estamos em Outubro de 2017.

 

Estes absurdos civilizacionais, estas anomalias temporais, estas aberrações culturais, não se confinam a uma área restrita. Estão assustadoramente dispersos por todos os cantos e esquinas em vias de abandono de um país que levou à letra a expressão que lhe agradava e que o dizia um jardim à beira-mar plantado. O que não cabe nesta parola representação, ou se abandona, ou é paisagem. O resto vai-se transformando - mais rápido do que seria seguro e passível de controlar -, em parques temáticos, ocos quando a noite deixa por alguns instantes de se prolongar, visitáveis por multidões que exigem apenas um aglomerado brutal de prestadores de serviços, excluindo, por inúteis, o pensamento crítico, a racionalização do uso do espaço urbano, o uso cultural que dele é feito, as manifestações de inteligência interveniente e a proliferação da ideia abstracta. As cidades entram em gestão. São comandadas por empresários que gerem a urbe exclusivamente como destino turístico. Veneza ou Barcelona, Zadar ou Atenas, Porto ou Dubrovnik - entre outras tantas -, são asfixiadas por milhões de turistas que não se vão dizendo, por ser incomportável - e inconveniente referir em panfleto - os números astronómicos a encontrar no interior de cidades que os não aguentam, cidades grávidas de lixo, cidades que não estão pensadas para os albergar de modo orientado.

 

Como se um coração fosse arrancado a um corpo, forçado a mimar uma existência, bater só por bater, para inglês ver, por se entender que a um corpo inteiro, todo, basta um órgão só a latejar. O resto transforma-se em nada.

 

É neste abandono que há mulheres impuras e se fazem queimadas, de mulheres e de restolho.

É deste abandono que é feita a tragédia.

É neste abandono que arde a tragédia.

 

A necessidade de decapitar um indivíduo, culpabilizando-o pelos cenários dantescos que foram erguidos em fogo, agora - três incêndios por minuto - e há quatro meses, reflecte provavelmente o medo de nos sentirmos responsáveis, o ilibar da nossa consciência, a desculpabilização, a crença na nossa inocência, a convicção de estarmos unidos e de sermos piedosos e humanamente impolutos, capazes de aliar a nossa urbanidade imprescindivelmente turística, o nosso citadino movimento de ancas, à terra mais extrema, onde pasta a solidão azeda, onde uiva a noite mais cerrada, onde a lama não é cosmética e onde morrem velhos sem ninguém saber.

Acarreta ao mesmo tempo a possibilidade de, ao fustigarmos alguém no adro da Igreja, amedrontarmos os outros que, acreditamos, coadjuvaram o maldito. Basta chicotear um indivíduo na frente do povo, para que a multidão que assiste não repita o erro cometido pelo suposto infractor. As ditaduras acreditam neste pressuposto e às vezes nós, tão democratas, não nos importamos nada de o fazer.

 

Ficamos sossegados. Tranquiliza-nos exigir cabeças. Satisfaz-nos ver sacrificado alguém em prol do nosso apaziguamento. Podemos então fazer biscoitos e bolinhos de maçã para acompanhar o chá e acomodar a nossa cosmopolita indignação. 

 

É medonha esta espécie miúda de vingança tresloucada que continua a possibilitar que se exija apenas a culpabilização demissão de uma senhora que nos aparecer sempre como se estivesse em vias de expelir um cálculo renal - sai de quando em vez, quando ela fala -, para que, pelo menos, sintamos que foram punidos os responsáveis e os mortos assim homenageados, mesmo reconhecendo que o trágico resultou de um somatório de circunstâncias naturais impensáveis, extremas e incontroláveis, aliadas a outras velhas, velhíssimas, e sabidas causas, que se arrastaram, se alimentaram e se abençoaram durante décadas, aniquilando os modos de vida das gentes, desolando terras, povoando-as de indiferença, vergando-as a interesses financeiros esconsos ou inscritos em papel de gabinete, ignorando planos de desenvolvimento sustentável das florestas e de reestruturação florestal, e permitindo que a incompetência, a falta de inteligência, a vigarice, os submarinos, a trumpolinice, a privatização dos meios de combate a incêndios, a corrupção daninha, magra ou de grande vulto, o mastodonte da burocracia que atrasa escandalosamente a ajuda a qualquer vítima, a escabrosa manipulação dos planos municipais de ordenamento do território, a correria quase psicótica nos corredores das licenciaturas da Protecção Civil, os 230 milhões anuais arrecadados pelos sucessivos governos que tributam as exportações de celulose - e mais que não se diz, porque há vergonha, há lamento e há uma senhora outrora responsável pela agricultura, mar, ambiente e ordenamento do território, que decide apresentar uma moção de censura ao governo, tentando que se esqueça o que não fez e o que assinou - Lei do Eucalipto Livre -, e um primeiro-ministro a avisar que isto é assim - se tivessem abatido e se tivessem governado durante muito mais que dois anos e quatro meses de mais que certas inoperância, ineficácia e incompetência aliada a uma manifesta falta de tempo para acudir a este lixo acumulado durante décadas, tirar férias ou ir ao cabeleireiro. 

 

Entretanto, ainda há mulheres impuras nos buracos deste jardim à beira-mar plantado, premiado internacionalmente como depósito de turistas.

 

Ilustração - Eliza Ivanova

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A Gaffe incendiária

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.17

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A Gaffe não entende os pobrezinhos.

Durante carradérrimos de tempo assistiu comovida à sucessão de posts onde se exultava o Outono, as florinhas, a chuva, as maravilhas naturais, os mais belos sentimentos, a solidariedade entre os povos, a cumplicidade coroada pela mais profunda das amizades, e depare-se-lhe uma execução pública, uma chacina inexplicável, um arrasar dos mais sinceros princípios que devem reger a comunhão entre as almas e fica atónica perante a condenação de alguém que deu a mão a um amigo, emprestando-lhe umas bagatelas para as suas mais básicas necessidades.

 

Um horror.

A casa nem se situava no 6ème Arrondissement! *

 

A Gaffe está absolutamente ao lado de Carlos Santos Silva. Um querido. Um rapaz que não deve nada à beleza, é certo, mas toda a gente diz que só tem importância a interior e Santos Silva já demonstrou que por dentro é uma Miss.

Esta miserável e torpe actuação do Ministério Público - que castiga a total abnegação, espírito de sacrifício, pudor cívico, inteligência financeira, severidade moral, lisura intelectual e postura de estado, sempre evidenciados pelos acusados -,  demonstra apenas que a Justiça portuguesa está inquinada pela inveja, pela sede de vingança, pelo fel  partidário, pela ignorância e que provavelmente é um blog que nunca teve um destaque.

 

Não se entende, meus caros, que ainda não tenham percebido, depois de tantos posts mimosos e tanta pomba assassinada, que uma alma generosa não exige nada em troca. Entrega o que tem e o que não tem - usando o motorista, como é evidente! - apenas para gáudio do alheio e, como seria de esperar, o que faz é sempre a coberto do anonimato, da total confiança e de tanto ouvir o multibanco a sublinhar:

- Retire o dinheiro. Retire o dinheiro. Retire o dinheiro.

 

A culpa, claro, é depois retirada de um post-it, reforçando a ideia da justiça-blog que a Gaffe entende estar instalada neste imbróglio onde é de destacar advogados de prestígio e detentores de bastão, governadores de bancos, presidentes de republicazinhas, parlamentares de esquerda e de direita, e o quarto poder, repleto de comentadores, escrevinhadores, cronistas e jornalistas económicos, que em anos de socrático reinado escreveram laudes, livros e odes ao protagonista do regime que é agora julgado e imensas coisas más e feias sobre Manuela Moura Guedes que se esbardalhou toda a tentar atirar lama à cara destes inocentes e a fazer disparar os botões de alertas vermelhos. 

Seria interessante expurgar os focos de eventuais incêndios em que se tornaram, pois que sozinhos começaram já a diagnosticar cegueira antiga nos companheiros de estradas de outrora que arde em metáfora que usa o real.

 

Para os mui chocados, a Gaffe pede emprestado o pirete apenso. 

*Afinal, é!

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A Gaffe de Sexta-feira, 13

rabiscado pela Gaffe, em 13.10.17

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Nunca tive medo de bruxas. O que receio são os espectros, os fantasmas e os esqueletos que toda a gente esconde nos armários.

 

Imagem - Adam Seder & Martin Gerlach -Viena, 1887

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O senhor Sócrates

rabiscado pela Gaffe, em 13.10.17

A minha professora mandou-nos escrever uma redacção a dizer bem do senhor Sócrates que ainda pode chover algum para estes lados. A bem dizer eu não tenho nada contra o senhor Sócrates. Estou como aqueles senhores que nunca viram nada da roubalhice e da currunpção que por lá ia enquanto andaram durante estes anos todos a cheirar -lhe o cu com o deles apertado. Também não vi nada da currunpção que agora saiu no Correio da Manhã antes do trânsito enjaulado que é coisa que acontece muito no túnel de Águas Santas quando há um acidente. A corrunpção é a modos que uma bicha que o senhor Salgado soltava sempre que dava um traque. O senhor Carlos Santos Silva que sustentava o senhor Sócrates agarrava a bicha e depois entregava à Lena para ela esconder em casa. A Lena não metia a bicha em casa que era perigoso mas metia a bicha no estrangeiro em ovxores que são umas caixas com aloquetes muito secretos que estão no Panamá guardadas pelo senhor Zalai Baba que de vez em quando telefona à PT que é um persunal treiner que anda a ver se bicha está segura. O Sócrates parece que não mas é uma pessoa que deve estar cansada de tantas bichas mentirosas que andavam sempre a dizer à namorada Ó Fernanda canssio e a Fernanda cansavai-o com umas viagens de ano novo todas lampreias. A bem dizer o Sócrates não gastava nada e era aproveitar que não sou parvo. Quem pagava era o senhor Santos Silva que sofreu muito com o desgosto quando soube que o Sócrates não o amava mas que ficou sempre a dar-lhe fosse pró que fosse que aquilo pedia muito. O senhor advogado do Sócrates é muito bem aparecido não tem nada ar de bêbado mas é morcão porque devia dizer ao trânsito enjaulado que o dinheiro saiu ao Sócrates numa raspadinha. Ficava logo ali tudo em pratos limpos. Eu acho que vou esperar para ver. Às tantas o julgamento dá-se ao mesmo tempo que o Juízo Final ou até depois e o senhor Sócrates nessa altura não pode pedir que o juiz vá de frosques que Nosso Senhor não é para brincadeiras.

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A Gaffe em pormenor

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.17

Henri Cartier-Bresson, Coney Island, New York, 194

 

Os olhos as mulheres são amiúde presos apenas por pormenores.

As grandes sedutoras sabem que muitas vezes não importa a paisagem inteira, mas que é fulcral o barquinho que lhe entrega a cor. 

 

Foto - Henri Cartier-Bresson, Coney Island - NY, 1946

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A Gaffe encontra as diferenças

rabiscado pela Gaffe, em 11.10.17

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Há homens que se fazem imperadores, mas que nunca se tornam cavalheiros.

 

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A Gaffe deambulante

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.17

Verlaine.jpgAs casas parecem maiores na ausência das gentes a que pertenceram. Crescem à medida que se esvaziam. Os corredores são mais longos, as escadas mais altas, há divisões que dobram de tamanho, há mais divisões, mais pisos, mais janelas para fechar, mais ruídos, mais chão, mais pedras, mais árvores, mais anoitecer.

As casas crescem na ausência das gentes que as amaram, ou adquirem as dimensões que sempre possuíram, mas que foram deformadas pelo amor. O amor diminui as casas. Aperta-as.

 

Lá fora, a copa das árvores grita de pardais. Floretes de luz chispam na terra. O pranto do lago treme quando a carpa morde os dedos do anjo de pedra eterno nesse aflorar da pele da água. O vento breve empurra as folhas de ferrugem contra as pedras. Rolam as folhas queimadas com um queixume enrouquecido. Redondo como o pátio. Um pássaro preto esvoaça e pousa no varandim de ferro. Olha oblíquo a tenacidade do tempo parado e depois para mim, que vagueio há dias por esta casa enorme. Inclina o pescoço, abre o bico, as garras apertam o meu medo súbito de ter por companhia o crocitar da memória e levanta voo embrulhado nos panos das asas.

 

Olho para dentro.

 

- Valha-me Deus! A menina parece uma alma penada!

 

A cadeira da minha avó. A jarra que o tempo marfinou, com as flores azuis no corpo a diluir fronteiras, esbatendo os limites como o fim de uma aguarela. A jarra onde se esqueciam braçadas de mimosas, onde as hortênsias secavam num silêncio anil enferrujado. A cigarreira em prata onde falta o monograma. O corta-papel de cabo trabalhado por Lalique. O minúsculo esboço de Amadeo fechado em vidro. O mocho talhado em pau-brasil, de órbitas vazias, onde o meu avô pousava agendas. A página dobrada do livro de Verlaine.

 

Os objectos deles. Dos que deixaram a casa crescer desmesuradamente. Todas as tardes deambulo por entre os objectos. Toco-os, bordo-lhes a pele, com a solenidade devida à majestade que provém da evidência de terem sido amados. À majestade do inútil. Não existe, em nenhum deles, a memória dos que lhes tocaram. Nenhum deles me traz presença alguma.

 

Os mortos estão em nós, no objecto que somos.

 

Os restos são coisa que cresce e que é inútil, como as folhas - cada vez  mais, cada vez mais -, que o vento empurra contra as pedras num queixume enrouquecido, e, no entanto, ao tocá-los, ao abrir-lhes a página que lhes foi marcada, os meus dedos ouvem o sussurrar de um poeta.

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