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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe deambulante

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.17

Verlaine.jpgAs casas parecem maiores na ausência das gentes a que pertenceram. Crescem à medida que se esvaziam. Os corredores são mais longos, as escadas mais altas, há divisões que dobram de tamanho, há mais divisões, mais pisos, mais janelas para fechar, mais ruídos, mais chão, mais pedras, mais árvores, mais anoitecer.

As casas crescem na ausência das gentes que as amaram, ou adquirem as dimensões que sempre possuíram, mas que foram deformadas pelo amor. O amor diminui as casas. Aperta-as.

 

Lá fora, a copa das árvores grita de pardais. Floretes de luz chispam na terra. O pranto do lago treme quando a carpa morde os dedos do anjo de pedra eterno nesse aflorar da pele da água. O vento breve empurra as folhas de ferrugem contra as pedras. Rolam as folhas queimadas com um queixume enrouquecido. Redondo como o pátio. Um pássaro preto esvoaça e pousa no varandim de ferro. Olha oblíquo a tenacidade do tempo parado e depois para mim, que vagueio há dias por esta casa enorme. Inclina o pescoço, abre o bico, as garras apertam o meu medo súbito de ter por companhia o crocitar da memória e levanta voo embrulhado nos panos das asas.

 

Olho para dentro.

 

- Valha-me Deus! A menina parece uma alma penada!

 

A cadeira da minha avó. A jarra que o tempo marfinou, com as flores azuis no corpo a diluir fronteiras, esbatendo os limites como o fim de uma aguarela. A jarra onde se esqueciam braçadas de mimosas, onde as hortênsias secavam num silêncio anil enferrujado. A cigarreira em prata onde falta o monograma. O corta-papel de cabo trabalhado por Lalique. O minúsculo esboço de Amadeo fechado em vidro. O mocho talhado em pau-brasil, de órbitas vazias, onde o meu avô pousava agendas. A página dobrada do livro de Verlaine.

 

Os objectos deles. Dos que deixaram a casa crescer desmesuradamente. Todas as tardes deambulo por entre os objectos. Toco-os, bordo-lhes a pele, com a solenidade devida à majestade que provém da evidência de terem sido amados. À majestade do inútil. Não existe, em nenhum deles, a memória dos que lhes tocaram. Nenhum deles me traz presença alguma.

 

Os mortos estão em nós, no objecto que somos.

 

Os restos são coisa que cresce e que é inútil, como as folhas - cada vez  mais, cada vez mais -, que o vento empurra contra as pedras num queixume enrouquecido, e, no entanto, ao tocá-los, ao abrir-lhes a página que lhes foi marcada, os meus dedos ouvem o sussurrar de um poeta.

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