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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Monet

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.17

F. Vicente

Li, há tempos que já lá vão, um Tratado do Riso.

 

Um livrinho que não me despertou especial interesse e que não deixou rasto do autor. Não era com certeza um dos clássicos que sobre o riso deixam tombar a negritude pesada das suas reflexões, porque recordo que o considerei passível de ser lido enquanto se espera pelo avião.

Apesar do facto, a obra não deixava de ser curiosa, enumerando com algum afinco, segundo o autor, as razões que originam o riso, apontando - entre tantas e muitas -, o engano, a desconformidade, a deformidade, a dissonância, a desarticulação do real, o equívoco, as ocorrências que se deslocam da norma a que obedecemos e as situações que embora dissemelhantes são assimiladas como idênticas e lidas como consequentes, ocasionando o mal-entendido.

 

Admito que nunca me aproximei das razões que originam o riso. Prefiro vivê-lo sem razão. No entanto, a fantástica rapariga aqui ao lado espicaçou-me a curiosidade, provocando o meu encontro com a maldade que é sempre susceptível de provocar o riso.

 

Rimo-nos sobretudo do mal. Invariavelmente. Do mal feito, do mal acabado, do mal compreendido, do mal formado, do mal comportado, do mal educado, do mal elaborado, do mal explicado, do mal controlado, do mal conduzido e de todos os males que a vida produz. Rimo-nos de nós, que estamos errados. Suponho que o riso funciona em todos estes casos como escudo protector e mesmo o reconhecimento - risível, ele também - do erro, seja ele qual for, é capaz de nos couraçar de gargalhadas, evitando um provável colapso.

Rimo-nos, porque procuramos incessantemente o equilíbrio, a estabilidade, a normalidade, a transversalidade e a certeza de que estamos integrados num sistema coeso que rege uma panóplia de roldanas que fazem mover o quotidiano seguro, perceptível e inteligível. É ameaçadora a eventualidade que abala, afronta ou desconexa a nossa leitura comum do real e, talvez por isso, uma gargalhada se transforme tantas vezes num murro.

Perante a desordem, que deixa o não racional abalar as conexões que temos com o real normalizado, atamos o riso às margens do lógico e esperamos estar seguros do outro lado do que sentimos errado.

 

Quando a minha prima, pela Avenida Brasil - numa das suas raríssimas incursões pelo pensamento, travava comigo uma pequeniníssima batalha no campo de guerra dos Impressionistas atacando com o pincel do rímel todo o sol levante -, tropeçou numa beata de cigarro - uma rapariga de boas famílias comporta-se como a princesa ervilha, de quem, aliás, é descendente directa - saiu disparada no meio de um das meus eloquentes argumentos a favor de Monet - que ficaram, Monet e argumento, parvos e suspensos, na ausência repentina de interlocutora -, projectando com uma velocidade estonteante um dos Manolo Blahnik que atingiu um olho do Homem do Leme; provando à plateia que tinha um gosto irrepreensível na escolha das cuecas; entregando ao espectador a certeza de que era merecedora da medalha de ouro em voo em comprimento e demonstrando, para além de tudo, ser possuidora de um talento imenso como imitadora de gaivotas esgrouviadas, confesso que só depois de a ver aterrar alguns metros depois e já com a carteira nos dentes e colar enrolado nas orelhas, consegui controlar o riso, travando a quase asfixia que me vinha assolando deste o exacto instante da descolagem da pobre esbardalhada.

 

Seja como for, e pese embora toda esta inútil teoria, depois de se erguer, a rapariga fez como o sol em Monet. Levantou-se e brilhou.

O riso uniu os opostos. 

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe castanha

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.17

Ana C.

As mãos do velho Domingos que agora seguram o abanador de palha com que espevita as brasas que assam castanhas, são as mesmas que me guiaram no caminho das nogueiras, dos álamos, dos plátanos e dos áceres, com os pés molhados de folhas mortas e céu coberto por estilhaços de bronze, escarlate, doirado e castanho, para ver o carvalho plantado pela primeira mulher desta casa.

 

Lembro-me da textura de tronco de videira das mãos do Domingos, de sentir que era o Outono que me segurava os dedos, de ter a certeza que cheirava a pão e a frio, a mantas e a cães. Lembro-me dos sons do quebrar do chão como uma porta que range e temos medo. Lembro-me do trigo da luz nos braços de uma poeira extenuada. Lembro-me da lonjura do caminho e de ter sentido que a terra tinha recolhido o choro das árvores e de o enferrujar com o suor caído dos homens. Lembro-me de ter adivinhado no meio dos gritos queimados da luz por entre ramos, a negrura animalesca do carvalho na sombra pousada no caminho que estalava. Lembro-me de ter tido medo do retorcido casco, dos braços de cotovelos pousados na terra, do latejar do monstro que enfurecido emudecia o latir das folhas e da ardência que dos meus olhos tocava as margens das palavras. Lembro-me das labaredas cegas e negras que de lume a lume, de gume a lança, golpeavam o espaço com adagas de troncos que desciam pela entristecida solidão da árvore. Lembro-me das agulhas do sol amortecidas a picar os pássaros parados, da luz cansada de ferro que se espetava nos ninhos.

 

Um golpe no pulso da terra. Uma cicatriz de espera. A árvore a pesar como uma chaga.

 

Havia ferrugem nos cabelos. Roxos de frio.

 

As mãos do velho Domingos seguram agora o abanador de palha com que atiça o lume a assar castanhas, e eu queimo as feridas da memória com os dedos do silêncio até tudo parecer polido como os lagos impolutos da inocência.

 

O Outono é esta árvore e tem a alma em sépia.  

 

Foto - Ana Ciolaçu

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Gavetas:

A Gaffe de pisca-pisca

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.17

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 A Gaffe, em viagem, não se importa de ser parada pela polícia.

 

É evidente que há pormenores que a preocupam nestas ocasiões.

Receia que lhe perguntem pela caixa negra, porque sabe que o modelo que guia é de bom gosto, não possuindo apetrechos que violam a privacidade de pessoas de berço. Para além disso, garantiram-lhe que o paralelepípedo colocado ao lado de imenso fios, era a bateria, o que muito a desiludiu. Supera este embaraço, assumindo uma pose de quem está quase a desmaiar de nojo por ter sido incomodada. Resulta, se fixarmos um ponto na nossa frente - convém que seja imóvel, pois de contrário andamos de cá para lá com as órbitas tornando tudo bastante suspeito -, baixarmos os cantos da boca, como D. Clemente a avisar que não quer forrobodó nos seminários, e entregarmos a papelada com a ponta dos dedos, tendo o cuidado de não fornecermos as cópias que usamos para apanhar o cocó do caniche dos comentários anónimos nos blogs.

 

Tomadas estas precauções, a Gaffe fica deliciada quando um matulão alto e espadaúdo, com um rabo apertado numas calças que devem ser milagre, ou que o fazem pela certa, a aborda e lhe pede a papelada.

 

Apesar disso, da última vez que tal ocorreu, não correu bem.

 

A Gaffe viajava com a prima, uma sósia de Rita Hayworth e a quem se exige a compostura que não teve. A Gaffe de soslaio, para não se afastar muito do ponto que fixava, ficou mesmo assim quase cega pelo brilho dos olhos esbugalhados da mulher que chispavam de cobiça e suspeitou que a baba que começava a escorrer doa boca aberta da prima, não era consequência de AVC, porque a mulher continuava sem nada torto - a maldita!

 

Compreendeu quando seguiu - uma vez não conta -, a direcção do olhar da petrificada cintilante e quase espetou os Valentino que protegiam o seu mavioso olhar, na piloca do polícia - que se tinha erguido - o polícia, não a piloca, embora connosco haja razões de sobra para elevações diversas -, para separar o que lhe interessava do resto dos tickets das compras -, ali na frente, toda desenhadinha no tecido das calças.

Um milagre, uma aparição, nunca é exagero repetir. A Gaffe não entende como D. Clemente não ergue uns santuários pela estrada fora. Uma falta de empreendedorismo muito pouco católica.      

 

Este enorme percalço - sublinha-se enorme, para encorpar o tecido do texto -, não invalida o gosto que a Gaffe tem quando é mandada parar por agentes muito pouco informados que cometem deslizes engraçadíssimos que resultam, como é evidente, do desconhecimento da mecânica de uma mulher, e que apenas encontra equivalente na ignorância dos homens das garagens.

 

- A menina precisa de mudar os calços.

Como se os nossos sapatos tivessem mais de duas semanas.

- A menina qualquer dia fica sem travões!

Como se alguma vez os tivéssemos.

- A menina tem de mudar o óleo.

Como se não usássemos o da Cartier. Que tontos! Tão cómicos!

 

- A menina tem de ir à revisão.

Enfim. Há também casos de assédio.

 

O que a Gaffe não entende são os sinais de luzes que avisam os condutores da presença esconsa da polícia nas esquinas da multa.

 

Vai uma pessoa apressada a enviar SMS ao senhor que segue no carro ao lado e que tem a amabilidade de lhe oferecer umas amostras irrisórias do imenso que traz na mala da viatura, e é encadeada pelo pisca-pisca dos faróis do irresponsável que surge na frente e que não entende que pode provocar um acidente quando o cavalheiro das amostras guina de súbito para inverter direcções.

 

Vai uma pessoa interessadíssima por suspeitar que, no camião que segue, segue um psicopata assassino com a arma disfarçada de tubo de escape e meia dúzia de porcos a estrumar as bermas espargindo cocó, e surge um pisca-pisca de luzes a obrigar o condutor a manobras doidas que podem perfeitamente fazer disparar os porcos, atingindo-nos com presuntos - toda a gente sabe que os danos que estas situações causam nos nervos dos bichos equivalem aos que ocorrem nos fumeiros.  

 

Vai uma criatura de Moët & Chandon à tiracolo e com uns binóculos invertidos cravados nos olhos, à espera de encontrar D. Sebastião por entre o nevoeiro e os vapores que entretanto se ergueram das garrafas e do hálito, e aparece um pisca-pisca pela frente a destroçar esta valorosa demanda histórica.

 

Vai uma pessoa de berço a catrapiscar a novíssima obra da Bobone, presa no volante - o livro, a Bobone só emperra na embraiagem -, e apanha com os mínimos do carro da frente a dar-a-dar. Uma afronta, pois que com a Bobone apenas os máximos são justificados.

 

Vai alguém em paz e sossego com um carrito emprestado a prazo indefinido que coadjuvou um levantamento um bocadinho explosivo no multibanco da aldeia, e é encadeado pelo pisca-pisca alheio que não tem consciência que vai perturbar os sonhos dourados do que agora é obrigado a retroceder, encetando a rota por trilhos menos nobres.    

 

Este vício português - trafulha e patifezinho - de accionar o prevenido pisca-pisca dos faróis quando a polícia está na curva a seguir, sugerindo aos anormais que surgem pela frente a fuga discreta, caso estejam a exercer os seus talentos psicopatas conduzindo anomalias - a Gaffe suspeita que não faz sentido sugerir a fuga a carros dentro das normas estipuladas e a condutores sérios -, leva esta rapariga a congratular-se com a desgraça da amiga que, depois de se ter esbardalhado numa canseira imensa a fazer sinais de luzes ao condutor do camião das mudanças que com ela se cruzou, avisando-o que tinha a polícia logo ali à frente, chegou a casa e percebeu que os seus electrodomésticos tinham deixado de existir. Os arredores inquiridos declararam que não tinham estranhado coisa alguma e que não desconfiaram de nada quando viram uns simpáticos senhores a enfiar uma televisão e um frigorífico num camião de mudanças. Só ficaram chorosos ao perceber que iriam perder uma tão amorosa e tão prestável vizinha.   

    

A Gaffe - pelo sim, pelo não -, mal vê piscar uma luz passa a usar óculos escuros. Disfarçam imenso e impedem que as pessoas maliciosas se apercebam que esta rapariga fica sempre muito atenta ao que a autoridade lhe revela.

O único problema é a baba que teima em tombar, embaraçando-lhe a pose, embora se possa sempre justificar o percalço deslizante com a ocorrência de um AVC provocado pela visão apocalíptica de um ameaçador casse-tête.  

 

Na foto - a prima da Gaffe apanhada na situação referida

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Gavetas:

A Gaffe sorridente

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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Às vezes, um sorriso é um terminal de frases que não se dizem porque começam e acabam dentro dele.

 

A minha irmã sorri, dissolvendo o incómodo de não se ouvir um som no cumprimento. Depois tudo se torna mais fácil. Como parece atenta, ninguém consegue perceber de imediato que ela não está a ouvir. Confunde-se então mudez com silenciosa disponibilidade, com compreensiva cumplicidade, com atenção fraterna, e desdobram-se mapas de conversas, extensas pradarias de palavras, desérticas confidências e chuvosas lamúrias, até que o sorriso se torne suspeito ou até que o enfado chegue num sussurro e a minha irmã desvende o segredo de tamanha atenção. A indiferença.

A surpresa é evidente e tem a função de a libertar no momento certo dos que a incomodam. Diverte-a este jogo.

 

O meu modo de sorrir é diferente. Alastra pela casa fora até tocar o espaço das suspensas beladonas encerradas que continuam a verter o aroma sobre mim. Nada é tão frágil, tão mortal. O desaparecer do meu sorrir, a sua morte, é para os outros um leve pousar de névoa, um ténue entardecer de tule, como se o retirassem em braços, ou em penas, de dentro de casa e o levassem para longe dos jardins suspensos. Volta para olhar para as beladonas.

 

No intervalo de tempo sem sorrisos nunca há um texto.

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Gavetas:

A Gaffe detalhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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É evidente que existe um lado obscuro e escuro no Carlos que podia servir de ponto de partida, mas a referencia ao detalhe pesou mais na escolha do grafismo que alteraria o blog.

 

É curioso o conceito que cada um ergue desta palavra e, no entanto, o detalhe é sempre um elemento de fragilidade intensa, porque a desatenção torna-o invisível, ou capaz de se diluir na água do conjunto. É talvez a mais delicada das evidências, capaz de esvoaçar sem disso darmos conta, ou pousar no chão como caído do corpo de um pássaro que no voo deixou tombar a importância de todo o pormenor que o ergue no espaço.

 

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A Gaffe por um fio

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.17

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Nas manhãs sem chuva, tenho medo.

Vou de pés atados pelo caminho estreito das mimosas de outrora.

A bruma regressa no retrocesso do tempo e na inversão dos pássaros que se debatem ainda nos fios da rede destes dias frios.

A sombra dos teixos a crescer nas pedras e nas tranças de água dos olhos dos peixes. Uma sombra a estilhaçar os vidros da memória.

Levo uma pedra cega de sono sobre a boca, uma clara mordida antiga de poeira branca ou luz de porcelana.

As manhãs frias parecem nomeáveis, presas pelo fio de água que tomba na cisterna, povoado de maçãs vermelhas e orvalhadas colhidas noutras manhãs cheias de frio.

 

As manhãs frias ficam só manhãs, até perder a conta, sem pele nem poros. Só com nome. Manhãs em que se veste a tristeza que na véspera havíamos dobrado e pousado nas costas da cadeira, arranjado o vinco, sacudido o pó e desfeito a prega, trocando as voltas à dor, à cor que fica bem, para que não se note muito que estamos a usar a mesma roupa de ontem.

 

Nas manhãs sem chuva, tenho medo e vou pelo peito da alvorada olhar o fio de água fria que tomba na cisterna. É dentro do frio fio da água da cisterna que há luz de linho branco, o vislumbre afogado do corpo de penas do estilhaçar das nuvens.   

Nas manhãs frias sem chuva, volto ao cerco dos braços da cisterna e o fio de água é pulseira no meu punho, arco em meu redor, enxames de abelhas no regaço do tempo, amor pousado na cintura da cama dos sossegos mútuos, medalha de marfim no pescoço de um cego, fenda do rochedo onde apascento o rebanho dos meus dedos.

 

Cedro ou madeira de cipreste ou um ramo de açucenas pousado no meu peito.

 

Frente aos meus olhos escorre a placidez da seiva descerrada, o entrançar das arrecadas da manhã nos pingentes de prata da luz de mandrágora e no frio das folhas que tombam nas deslumbradas manhãs das conchas de água dos fios das casas que eu habito.

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Gavetas:

A Gaffe patroa

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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Felizmente que neste planeta a estorricar de gente parola e pobre, ainda sopra a brisa do irrepreensível bom gosto e da mais refinada sofisticação.

A Gaffe exulta ao saber que por entre a imundície criada pela falta dos candelabros da educação e de berço das pessoas pobres, cintila o mais refinado dos diamantes brancos, capaz de encolher de humilhação o agora vendido por Isabel dos Santos.
A Gaffe congratula-se ao reconhecer que ao lado de Gustavo Santos - o guru das pessoas sem posses -, a figura que adquire uma dimensão de superior importância é Paula Bobone - a Anna Piaggi que o país merece.

A Gaffe admite que sempre viu Bonone como uma espécie de tola.

Enganou-se.

A Gaffe lê o que consta do anúncio da sua obra de regresso:

 

Com o passar do tempo, e até aos dias de hoje, tudo mudou e sobrevieram outras realidades. O pessoal doméstico passou a apresentar contornos totalmente diferentes e a sua ligação às casas passou a ser uma profissão.

Hoje, cabe à dona de casa imprimir o toque do seu estilo, cuja elegância deve ser marcante.

"Domesticália" é a arte de receber, de sentar e de servir. Uma narrativa interessante sobre o funcionamento da profissão dos empregados domésticos, que certamente irá valorizar e contribuir para o respeito destes profissionais.

 

Não é fabuloso?

Há gente que devia ser canonizada.

A Gaffe só espera que as imbecis que posaram para a fotografia da capa, não se atrevam a dar um empurrãozito no balde para onde a Bobone trepa mesmo quando não tem uma corda ao pescoço. Há gente pobre - pessoal doméstico, na sua maioria -, que não sabe ler e, como é evidente, vai ignorar as páginas da bíblia.

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A Gaffe dos Sapos

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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A maravilhosa Magda resolveu encetar um processo que apesar de muito divertido pode encarniçar os nervos a uma quantidade significativa de gente do costume, ou seja, ao grupo de criaturas que perante uma qualquer iniciativa - sobretudo quando repleta de boa disposição - se esbardalha no sofá a roer os ossos dos cadáveres que conseguem desencantar em todas as esquinas do seu cérebro embebido em lama.

É portanto, e antes de tudo, uma iniciativa corajosa.

Depois, é possível que se torne um encontro de humor, de alegria, de festa e sobretudo de insensata e divertida tontice - o que é, como toda a gente sabe, uma das coisas mais saborosas que conseguimos descobrir na vida.

 

Não vou nomear os meus blogs favoritos nas categorias apontadas, mas vou com certeza participar, votando nos que forem seleccionados.

Basta seguir as instruções!

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Gavetas:

A Gaffe no Livro Pensamento

rabiscado pela Gaffe, em 15.11.17

O Livro PensamentoQuando a Edite me sugeriu que nos poderíamos unir para construir um novo habitat para as suas palavras, surgiram algumas dificuldades em estabilizar um layout que fosse agradável. Quando começamos - e este é um prazer sempre partilhado -, não fui capaz de responder cabalmente ao idealizado e tive dificuldade em decidir o rumo das imagens e do ambiente que acompanhariam o que se escreve.

A primeira proposta estava errada.

No entanto, bastava apenas um pequeniníssimo impulso. A Edite voava - também nas asas dos livros -, nunca perdendo de vista o lugar onde crescem os sonhos límpidos e claros de liberdade contidos nas páginas a que se vai dedicando.

Fico muito feliz por saber que a Edite gostou.

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A Gaffe pede desculpa

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.17

 

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Pedir desculpa é, há muitíssimo tempo, considerado um acto nobre.

A ponte cai matando uma quantidade de gente absurda, o ministro demite-se pedindo desculpa. Um acto de grande nobreza. O país incendeia-se e queima gente, a ministra não se demite e o governo não pede desculpa. Uma falta de nobreza. O Presidente da República apresenta condolências e pede desculpa. Tão nobre. Uma bactéria mata nos hospitais, o ministro pede desculpa. Nobremente.

 

O acto de se pedir desculpa chega com gola de arminho e manto de veludo escarlate. Traz o ceptro da grandeza de carácter numa das mãos e os brasões da elevação de alma na outra. Exige-se o desfilar compassado e grandiloquente do corpo da desculpa pelos corredores das nossas vidinhas. Deslumbrados pela nobreza exibida, aclamamos e reverenciamos o brasonado como capaz deste acto que parece exclusivo do gentil-homem e que lhe revela o cume de um carácter de Evereste e uma alma fidalga.

 

Pedir desculpa é sempre a revelação de uma falha. O reconhecimento de um erro e a assunção da vergonha de ter sido cometido e de sermos responsáveis pelo facto. Nada há de aristocrata - nem de plebeu -, numa atitude que deve ser comum a todas as gentes - a todas as classes, mesmo as definidas pela Idade Média e que, digam o que disserem, perduram ainda.

A atribuição de um carácter nobre a um pedido de desculpa é tão imbecil como o apaziguar da indignação popular quando os grandes infractores assomam à varanda do palácio e confrangidos acenam com os lenços choramingas das desculpas. Se os grandes vigaristas deste mundo abanarem na frente dos olhos dos lesados a alegada nobreza de um pedido de perdão, serão por norma julgados com uma condescendência bem maior do que aquela que é concedida aos inocentes apanhados pelo ladrilhar da trafulhice.

 

Pedir desculpa não engrandece, nem diminui. É um acto inseparável da condição humana. Existe, porque existimos e porque existimos, pensamos - e porque pensamos logo somos, diria o velho sábio se pudesse.

 

Após a admissão do erro, logo se verá.

 

Posto isto, a Gaffe apresenta-vos o maravilhoso atleta checo Jan Kudlička e avisa-vos, meninas, que apesar de não ter grande talento para as línguas, a primeira desavergonhada que se meter à sua frente, apanha com um dicionário na nuca.

A Gaffe pede depois desculpa.

É uma aristocrata.

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A minha cantina

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.17

A minha cantina

 

A minha professora mandou-nos fazer uma redacção sobre a cantina da escola. É uma coisa muito difícil porque na minha escola não há cantina mas a minha professora diz que assim também não há bichas na comida e a sopa não está viva e que temos de defender a honra do convento. Uma pessoa até fica atrapalhada porque assim de repente nem sabe se há-de falar da cantina se do Pantelhão que é uma igreja com os franciscanos lá dentro todos mortos e onde se janta quando há gente importante com fome. Depois as sobras vão para as cantinas das escolas. Não admira que osa restos venham com bichos lá dentro porque o bichedo ataca as pessoas que faleceram. É o bichedo e a terra porque a minha tia diz que a terra há-de comer-lhe os olhos o que até me faz muita impressão. O último jantar no Pantelhão foi de uns senhores muito modernos que criam ápes e andam de tishartes nas setárapes que são umas coisas que crescem como mato que é preciso cortar por causa da época dos incêndios. O jantar foi muito bom e não valia a pena a gente andar aos saltos no feiceboque a dizer que aquilo é como um cemitério e que não se pode andar a tirar selfes e a enfardar lá dentro. Aquilo foi muito simples e a bem dizer a D. Amália que está no Pantelhão até nem cantou nem nada. Não admira muito porque a D. Amália já não cantava nada mesmo antes de se finar. Só abria os braços com a cabeça toda atirada para trás e dizia Obrigada Obrigada Obrigada agora o povo agora o povo. A D. Sofia e o D. Camões não se armaram aos cágados e não se puseram a dizer versos e por isso o jantar nem foi uma seca que a gente sabe que quando há pessoas a dizer versos não se pode beber nem conversar que parece mal e passamos por burros. Eu gostava de ter ido ao Pantelhão mas a minha prima Idalina disse que mais valia ir à uébesumite que tem mais vida. Não fui com ela porque ela disse que lá não entram cachopos mal vestidos. Só os que usam jines de marca. É assim como aquela coisa do Urbane. Os cachopos que trazem jines com o cu nos joelhos levam tanta paulada que nem sequer se sabe de que cor essas pessoas eram porque ficam todas pretas e depois levam ainda mais porque ficaram pretas. É assim um circo vicioso como há nos hospitais que a gente vai para lá toda doente e sai de lá ainda pior com umas bichas ligianélias agarradas a nós e que depois vão para a comida. A minha prima Idalina diz que é preciso ir em condições. É por isso que a minha prima vai sempre ao Portugal Faxon. Vê aquilo tudo e depois tira ideias. É assim como aquele estrangeiro famoso que fez um saco para as senhoras caro como o caraças que até dava para comprar um apartamento em Moimenta e que a minha prima encontrou depois a sessenta cêntimos no sítio onde foi comprar umas estantes para meter as batatas para as batatas não grelarem. Não foi muito boa ideia porque o meu primo Zeca disse aquela merda nunca se sabe montar e que mais valia uns caixotes uns em cima dos outros que não se desfaziam todos com o peso dos sacos. A minha prima Idalina roubou o saco nessa altura para ir ao Portugal Faxon toda muito enfeitada e a parecer de marca mas tinha uma marcação com o senhor Inácio às onze da noite que é quando o senhor Inácio acaba o turno de guarda ao Pantelhão da minha terra que é mesmo ao lado do cemitério e tem dentro o antigo presidente da Câmara e a esposa a D. Maria José Portugal Duas Vezes. A minha prima como é muito boa nestas coisas pegou no saco e fez um fato para o meu primo Adalberto ir em vez dela. Ficou muito bonito. Vou colar aqui na redacção para verem como passa bem por uma coisa feita pelo senhor do saco muito caro.

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Bem bonito. Parece mesmo do bom. O meu primo Adalberto foi um sucesso. Pena ter ido ao Urbano depois de acabar o Portugal Faxon. Apareceu em casa a altas horas da noite com este lindo fato todo roto e sem se poder mexer e muito menos sentar. Diz que o sediaram tal e qual em holiúde. Só não faz queixa porque o segurança que o sediou lhe mandou uma SMS a gabar-lhe a minhoquinha que encontrou na refeição. Nem tudo é mau. O meu primo Adalberto anda muito feliz e a Idalina já disse que na próxima festa de  uébesumite vai pedir o carro funerário ao meu tio que é cangalheiro para estacionar ao lado do Pantelhão. Assim como assim janta com os setárapes e no fim ainda fica um niquinho de tempo para uma sessão de harderóque de chicote preto no Urbane. Eu gosto muito de comer em casa.

Gui

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A Gaffe guisada

rabiscado pela Gaffe, em 10.11.17

Gui

Tendo em considerção que o Gui foi adoptado por esta rapariga tresloucada, não faz sentido que viva numa casota à parte. A Gaffe não quer que a acusem de segregação, de preconceito relacionado com os pobrezinhos, ou mesmo de elitismo.

Assim, a Gaffe decidiu trazer o Gui para estas Avenidas, dando-lhe o espaço que requer e livrando-a da canseira que é ter dois blogs distintos.

A partir de hoje, o pequeno Gui faz parte deste cantinho, com direito a tag própria.

Há sempre lugar para mais um, porque o sol é de todos - diz o povo à procura da sombra.

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Gavetas:

A Gaffe aos papéis

rabiscado pela Gaffe, em 09.11.17

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 - Estavam à espera de quê?! Que eu o tivesse enfiado no BES?

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A Gaffe lunar

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.17

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Não falo dela. O que disser vai roçagar a banalidade.

No entanto, há outras noites entrou nua no meu quarto, como de pés descalços. Não me afagou o cabelo, não me contou histórias de ninar, não me sussurrou cantilenas, não me embalou em murmúrios. Sentou-se à minha cabeceira a ignorar-me.

 

A única luz que se deixa olhar sem confidências, a não ser a da geometria dos objectos. A luz maior do que as feridas das janelas. A luz que permite os gritos do estilhaçar de um vidro, se ousarmos a ilusão de lhe poder tocar a pele opalina com os dedos. A luz límpida que jorra e escorre nos dedos do anjo do lago e que torna nítidos os círculos na água quando a boca da carpa tenta morder a superfície onde a prata se dilui, se liquefaz. A luz que amansa a copa das árvores como o vento sul nas velas que se fecham, que adelgaça e guarda o corpo dos teixos como bainha de espadas. A luz que vem medonha da lua grande, cheia, à minha frente, e que no encantatório soar do seu silêncio me entrega a lucidez, tornando o encanto a minha mais lúcida consciência da paisagem.

 

A encantatória lucidez da lua no meu quarto, como dois pés descalços.

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Gavetas:

A Gaffe apoquentada

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.17

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 A Gaffe acordou preocupada. Não costuma. Tenta sempre evitar as duas coisas.

 

Beberrica o seu chá matinal e mordisca uma pepita de croissant num spleen estudado que condiz com o seu roupão azul petróleo com laivos melancólicos de opalinas flores campestres, discretos e elegantes, pois que escolheu a peça em nipónicas paragens onde a elegância e a discrição são regra de viver e de morrer.

Sacode a cabeleira ruiva e aflora à janela em pose de diva aborrecida. Faz pairar o perfume sobre a terra e regressa a poltrona de veludo carmim onde o Proust da véspera folheada à toa, adormecera.

 

A Gaffe preocupa-se.

 

Tem tido recentes indisposições, pequenos achaques, brevíssimos incómodos e até mesmo opiniões!

Na manhã do dia anterior encontrou suspenso na página setenta e quatro, pousado na almofada que outrora fora destino do colar de pérolas despido com pressa, O Conceito de Ironia constantemente Referido a Sócrates, de Kierkegaard. À tarde, vislumbrou Sobre o Assunto Pensamento, de Heidegger, a espreitar-lhe os movimentos e após frugal jantar, onde debicou uma sopa fria de tomate sous vide com óleo de manjericão, deu conta do padre António Vieira a boiar na refeição.

 

A Gaffe preocupa-se, como será de prever.

 

Pensa para espairecer, participar numa caminhada, numa corrida, numa semi-maratona, numa coisa assim suada, onde as pessoas colam umas fitas na testa e uns lacinhos nas lapelas todas solidárias e calçam uns objectos inenarráveis de coloridos, mas assumiu que não corria nem atrás de um autocarro, mesmo se soubesse o que é e para que serve exactamente um autocarro.

Pensou manter-se inabalável e hirta na recusa, que sempre foi seu apanágio, do capitalismo selvagem, mas não lhe apetece muito parecer a Joana Amaral Dias que já só consegue mexer os coágulos de rímel durante as suas intervenções na TVI.

Equacionou a prática de um desporto. Salto à vara, salto em comprimento, corrida de barreiras, estafetas, ou até mesmo boxe ou ping-pong, mas irrita-se sempre nestes eventos porque ao seu lado está invariavelmente sentado um hooligan e a Gaffe não está disponível para suportar a mancha que é ter de trocar agora assobios com Manuel Maria Carrilho. Depois, e para além disso, não entende porque se permite a Nélson Évora usar, quando salta para a areia, um varão no meio das pernas, quando a modalidade que o rapaz pratica não o exige.

Pensou apoiar um dos candidatos à liderança do PSD, porque sempre a fascinaram os fenómenos de ressurreição dos mortos, muito em voga no tempo de Lázaro - que como se sabe, nunca mais se livrou do cheiro -, e pese embora apoiar a criogenia como procedimento estético para evitar as rugas, entende que neste caso se trata infelizmente de taxidermia e a Gaffe passou a ter imenso medo de animais empalhados desde que se cruzou com Betty Grafstein.

 

Esgotadas as hipóteses mais óbvias, a Gaffe começa a ficar extenuada de tanto exercício mental.

 

Não quer de modo algum passear pelas suas Avenidas sem o allure de menina parva, fútil, ligeiramente depravada e perversa - embora nestes casos considere haver lugar para imensa flexibilidade -, tonta, superficial, oca, pateta, egoísta, estúpida, irresponsável e sem uma gota de solidário compromisso cívico e social.

 

A Gaffe sempre soube que os diamantes parecem brilhar mais pousados sobre um pobre pano preto, do que encastrados num aro de platina, assim como é bem mais fácil a uma mulher roubar o que deseja se for vestida por um luminoso Dior durante o assalto, fazendo acreditar que é uma imbecil que traz o cérebro tapado por um frágil pano preto.

 

A Gaffe decide por fim usar uma capeline

Foto de Erwin Blumenfield, 1949

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