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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sorridente

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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Às vezes, um sorriso é um terminal de frases que não se dizem porque começam e acabam dentro dele.

 

A minha irmã sorri, dissolvendo o incómodo de não se ouvir um som no cumprimento. Depois tudo se torna mais fácil. Como parece atenta, ninguém consegue perceber de imediato que ela não está a ouvir. Confunde-se então mudez com silenciosa disponibilidade, com compreensiva cumplicidade, com atenção fraterna, e desdobram-se mapas de conversas, extensas pradarias de palavras, desérticas confidências e chuvosas lamúrias, até que o sorriso se torne suspeito ou até que o enfado chegue num sussurro e a minha irmã desvende o segredo de tamanha atenção. A indiferença.

A surpresa é evidente e tem a função de a libertar no momento certo dos que a incomodam. Diverte-a este jogo.

 

O meu modo de sorrir é diferente. Alastra pela casa fora até tocar o espaço das suspensas beladonas encerradas que continuam a verter o aroma sobre mim. Nada é tão frágil, tão mortal. O desaparecer do meu sorrir, a sua morte, é para os outros um leve pousar de névoa, um ténue entardecer de tule, como se o retirassem em braços, ou em penas, de dentro de casa e o levassem para longe dos jardins suspensos. Volta para olhar para as beladonas.

 

No intervalo de tempo sem sorrisos nunca há um texto.

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Gavetas:

A Gaffe detalhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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É evidente que existe um lado obscuro e escuro no Carlos que podia servir de ponto de partida, mas a referencia ao detalhe pesou mais na escolha do grafismo que alteraria o blog.

 

É curioso o conceito que cada um ergue desta palavra e, no entanto, o detalhe é sempre um elemento de fragilidade intensa, porque a desatenção torna-o invisível, ou capaz de se diluir na água do conjunto. É talvez a mais delicada das evidências, capaz de esvoaçar sem disso darmos conta, ou pousar no chão como caído do corpo de um pássaro que no voo deixou tombar a importância de todo o pormenor que o ergue no espaço.

 

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